O estranho
Dentro de uma galeria comercial,
dessas que cortam prédios ligando duas avenidas, descobri uma pequena
lanchonete. Deve ser suja – não era. Então deve ser cara – também não era.
Fiquei. Pedi pão-de-queijo e laranjada e me acomodei numa mesa de canto, de
frente para a porta.
O movimento das pessoas atravessando a galeria era incontabilizável. Eu fisgava nesse rio humano flashes de rostos sérios, carrinhos de bebês puídos, sacolas plásticas usadas para fins não-comerciais. A gente é tanta e tão diversa. Não pode haver universalidade nas pessoas; talvez só haja nessa ternura que sinto indistintamente por todas.
Embora estivesse deserta quando entrei, a lanchonete foi se enchendo enquanto eu esperava meu lanche. Vi, de rabo de olho, um moço de barba completamente fechada, mas de olhos ainda infantis, sem um pingo de cinismo. Noutra mesa, um senhor de cabeça perfeitamente redonda, tão grande e desajeitado com seu terno maior ainda. Todos, conforme tinham seus pedidos atendidos, sentavam sozinhos e encaravam o vazio, ruminando esfihas, bolinhos, mistos, sanduíches sortidos. Logo, porém, fui flagrada nessa posição indiscreta e, como não me responderam com sorrisos amistosos, baixei meus olhos para o pão-de-queijo e laranjada, que tinham finalmente chegado.
Sentia, por dentro, a massa gordurosa preenchendo a barriga e, por fora, a clientela me envolvia indistinta. Ouvi passos vindo direto para minha mesa. Alguém parou bem atrás de mim, eu intuía um par de olhos fixos nas minhas costas, decerto era um amigo que me pregaria uma brincadeira. Nada aconteceu, comecei a ficar tensa. O sujeito avançou para a cadeira à minha frente, também parecia tenso, sentou-se e disse:
― Eu sempre sento aqui – e se entregou ao seu x-salada.
Atestei que não se tratava de um conhecido, apesar de se parecer com as pessoas com quem convivo: trinta e poucos anos, cabelo loiro-ninho, óculos Lennon, mochila de escalada a tiracolo. Esperei que ele fizesse algo louco, como me encarar ou até mesmo conversar. O fato é que ele não ligava para mim, apenas comia seu lanche muito satisfeito.
Matei meio copo de suco num gole, paguei a conta e saí pensando naquele homem esquisito. Esquisito por quê? Por sentar na mesa de uma desconhecida quando havia outras disponíveis? Não. Esquisito por fazer o que fosse preciso para manter um hábito. Que importava a cadeira? Tinham que importar, isso sim, as pessoas, o afeto que desenvolveríamos uns pelos outros. E, no entanto, quando alguém se destaca da massa-corrente, chega bem perto, parece estranho, fica difícil amá-lo assim.
Saí da galeria, a luz da rua me cegou por uns instantes, relembrei os assuntos que tinha para resolver.
O movimento das pessoas atravessando a galeria era incontabilizável. Eu fisgava nesse rio humano flashes de rostos sérios, carrinhos de bebês puídos, sacolas plásticas usadas para fins não-comerciais. A gente é tanta e tão diversa. Não pode haver universalidade nas pessoas; talvez só haja nessa ternura que sinto indistintamente por todas.
Embora estivesse deserta quando entrei, a lanchonete foi se enchendo enquanto eu esperava meu lanche. Vi, de rabo de olho, um moço de barba completamente fechada, mas de olhos ainda infantis, sem um pingo de cinismo. Noutra mesa, um senhor de cabeça perfeitamente redonda, tão grande e desajeitado com seu terno maior ainda. Todos, conforme tinham seus pedidos atendidos, sentavam sozinhos e encaravam o vazio, ruminando esfihas, bolinhos, mistos, sanduíches sortidos. Logo, porém, fui flagrada nessa posição indiscreta e, como não me responderam com sorrisos amistosos, baixei meus olhos para o pão-de-queijo e laranjada, que tinham finalmente chegado.
Sentia, por dentro, a massa gordurosa preenchendo a barriga e, por fora, a clientela me envolvia indistinta. Ouvi passos vindo direto para minha mesa. Alguém parou bem atrás de mim, eu intuía um par de olhos fixos nas minhas costas, decerto era um amigo que me pregaria uma brincadeira. Nada aconteceu, comecei a ficar tensa. O sujeito avançou para a cadeira à minha frente, também parecia tenso, sentou-se e disse:
― Eu sempre sento aqui – e se entregou ao seu x-salada.
Atestei que não se tratava de um conhecido, apesar de se parecer com as pessoas com quem convivo: trinta e poucos anos, cabelo loiro-ninho, óculos Lennon, mochila de escalada a tiracolo. Esperei que ele fizesse algo louco, como me encarar ou até mesmo conversar. O fato é que ele não ligava para mim, apenas comia seu lanche muito satisfeito.
Matei meio copo de suco num gole, paguei a conta e saí pensando naquele homem esquisito. Esquisito por quê? Por sentar na mesa de uma desconhecida quando havia outras disponíveis? Não. Esquisito por fazer o que fosse preciso para manter um hábito. Que importava a cadeira? Tinham que importar, isso sim, as pessoas, o afeto que desenvolveríamos uns pelos outros. E, no entanto, quando alguém se destaca da massa-corrente, chega bem perto, parece estranho, fica difícil amá-lo assim.
Saí da galeria, a luz da rua me cegou por uns instantes, relembrei os assuntos que tinha para resolver.
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