Postagens

Elegia da gente viva (parte 3, capítulo 23)

  Nota explicativa: estou publicando duas vezes por semana (às quartas e aos domingos) capítulos do meu romance “Elegia da gente viva”, ainda inédito. Para ter acesso ao sumário com os capítulos já publicados, clique  aqui . *** 23. Lúcia (2) Lúcia nunca nos contou que ela e o irmão tinham sido criados pelos tios. Tampouco desconfiávamos, porque ela os chamava de pai e mãe, e havia a semelhança física. Quem deixou escapar foi a imã-coordenadora-pedagógica numa conversa de corredor. Gostaria de esclarecer que não me interesso tanto assim pela vida alheia, só comecei a prestar atenção quando ouvi o nome de minha amiga. Entenda, a vida foi muito dura com a Lúcia Koeda, órfã, coitadinha, justificava a religiosa. Outra revelação daquela bisbilhotice involuntária foi o incômodo de certo professor com o jeito da minha amiga. Reclamava com a pedagoga que, veja bem, era difícil explicar, a aluna fazia tudo o que ele pedia, mal abria a boca, só tirava notas máximas, mas ela tinha aquele...

Elegia da gente viva (parte 3, capítulo 22)

  Nota explicativa: estou publicando duas vezes por semana (às quartas e aos domingos) capítulos do meu romance “Elegia da gente viva”, ainda inédito. Para ter acesso ao sumário com os capítulos já publicados, clique  aqui . *** 22. Lúcia (1) Lucinha era uma boneca, os adultos diziam. Os cabelos pretos, divididos precisamente ao meio e amarrados com fitas vermelhas (pra prevenir quebrante), caíam caudalosos, amazônicos demais para a pequena sansei. Os pezitos, embalados em meias brancas rendadas e sapatinhos igualmente alvos, balançavam sob a carteira. Escrevia no caderno com capricho, revezando as cores das canetas cintilantes que ia tirando do estojo, uma por vez, e guardando logo que concluía o uso. Naquele fim de manhã, lá pela hora quando o estômago já reclama almoço, a diretora entrou na sala do Pré-III, seríssima, e todos se puseram a pensar nas travessuras recentes que talvez tivessem sido flagradas – a descarga não apertada, a caricatura a giz na calçada, as flores do...

Elegia da gente viva (parte 3, capítulo 21)

  Nota explicativa: estou publicando duas vezes por semana (às quartas e aos domingos) capítulos do meu romance “Elegia da gente viva”, ainda inédito. Para ter acesso ao sumário com os capítulos já publicados, clique  aqui . *** 21. Lila (3) (Carta sobre um túmulo) Querido filho, Hoje chorei muito quando pensei que não vou poder ir no seu casamento. Ia ser lindo ver você entrando na igreja... Mas você se foi. Pouco depois o patrão velho também, como sempre fiquei pra trás. Graças a Deus, o Samuel está bom, pelo menos isso. Ele foi morar nos estrangeiros, onde pedreiro ganha mais do que um doutor do Brasil. Agora dizem que nem tanto, mas ele tá lá junto com a esposa guardando dinheiro pra fazer a casinha deles aqui perto dos seus, se Deus permitir e Ele á de querer. Eu não fui com eles só porque não tenho mais idade pra aprender outro idioma, mas eles queriam muito, eu até pensei, mas depois mudei de ideia. Deus sempre me deu força pra cuidar de todo mundo, a novidade é isso de...

Elegia da gente viva (parte 3, capítulo 20)

  Nota explicativa: estou publicando duas vezes por semana (às quartas e aos domingos) capítulos do meu romance “Elegia da gente viva”, ainda inédito. Para ter acesso ao sumário com os capítulos já publicados, clique  aqui . *** 20. Lila (2) O iPhone foi um presente do filho mais velho, Samuel, um reconhecimento do sacrifício que ela fez pra pagar os 52 boletos da faculdade dele – curiosamente o ano letivo tinha oito meses de aulas, mas lhe cobravam treze mensalidades. Formado em Administração, o rapaz acaba de ser contratado por uma multinacional do ramo alimentício e já aproveitou para marcar a data do casamento. Bem diferente do irmão, Sérgio, que mal para em casa. A mãe descobriu que este tá mexendo com drogas. Torce pra que seja usuário e não traficante, na esperança de que o vício mate menos que a polícia. Ai, meu Deus, cuida desse menino, porque ela já não sabe mais o que fazer. Samuel e a noiva propuseram que Lila saísse da casa do doutor José Reynaldo e fosse morar co...

Elegia da gente viva (parte 3, capítulo 19)

  Nota explicativa: estou publicando duas vezes por semana (às quartas e aos domingos) capítulos do meu romance “Elegia da gente viva”, ainda inédito. Para ter acesso ao sumário com os capítulos já publicados, clique  aqui . *** 19. Lila (1) Apesar da obviedade, poucos deduzem que Lila vem de Dalila. A mãe ouviu o nome num filme antigo da TV, ficou fascinada com a figura daquela mulher belíssima que derrotava o grande herói. Traidora aos olhos de Deus. Essa mesma mãe, que nomeou a menina, mas que nesta narrativa não terá direito a nome próprio, morreu de desgosto, segundo dizem. Para o mundo, foi como se nunca tivesse existido, tendo consumido a vida em trabalhos duríssimos na Califórnia e arredores – a cidade paranaense, não o estado gringo. Desde a infância, trabalhou de empregada em casa de gente rica, onde teve notícia do aparelho de televisão já na década de 1960. O diabo era o marido, que bebia não só o salário dela como a alma das mulheres da família. Os filhos homens f...

Elegia da gente viva (parte 3, capítulo 18)

Nota explicativa: estou publicando duas vezes por semana (às quartas e aos domingos) capítulos do meu romance “Elegia da gente viva”, ainda inédito. Para ter acesso ao sumário com os capítulos já publicados, clique  aqui . *** 18. Natália (3) — Você ficou sabendo que o Vítor vai casar? Ninguém mandou engravidar a namorada! Minha mãe disse que não quer saber de criar neto, que é pra ele arrumar um emprego e se virar. Meu pai nem falou nada. Depois do caso da Paty Pistoleira, ele fica bem quieto, senão também vai ter que ouvir a mesma coisa: que é para ele arrumar um emprego e se virar pra pagar a pensão. Até o Luís tá firme no namoro. Fiquei oficialmente pra titia. Não estou reclamando, nada disso. Ganho bem no banco, trabalho só seis horas por dia. Quando chego em casa tenho uma TV enorme me esperando com todas as séries que eu gosto, um vinhozinho argentino. Pra que vou querer homem? Outro dia, sabe quem me mandou um e-mail depois de mil anos? O Manuelzão. Sim, o próprio. Disse qu...

Elegia da gente viva (parte 3, capítulo 17)

Nota explicativa: estou publicando duas vezes por semana (às quartas e aos domingos) capítulos do meu romance “Elegia da gente viva”, ainda inédito. Para ter acesso ao sumário com os capítulos já publicados, clique  aqui . *** 17. Natália (2) Romualdo, o pai de Natália, venceu uma ação contra o filho da puta do jornalistinha de merda que fodeu com a vida dele e, do dia pra noite, a família ficou rica, ou quase isso. O caso se arrastou anos na Justiça. Nem a filha mais velha, embora conhecesse de cor as alcunhas pouco elogiosas atribuídas ao adversário, sabia o motivo daquele ódio todo. Só compreendeu que eles se mudariam para um apartamento grande, comprariam um carro importado, e ela ganharia um computador novinho só seu. Achou tudo isso muito bom. Acreditou até que a família tinha se tornado mais pacífica, sem saber que o nome completo dessa paz era Patrícia Ezequiel, 19 anos, a novíssima amante de Romualdo. Fosse por provocar prazer ou culpa, a moça contribuiu para torná-lo um p...

Elegia da gente viva (parte 3, capítulo 16)

Nota explicativa: estou publicando duas vezes por semana (às quartas e aos domingos) capítulos do meu romance “Elegia da gente viva”, ainda inédito. Para ter acesso ao sumário com os capítulos já publicados, clique  aqui . *** 16. Natália (1) — O jogo é assim: o chinelo é a trave, e quem faz gol vira goleiro. Se passar em cima do chinelo, o gol não vale, porque tem que fazer de conta que é a trave, que nem no jogo de verdade – explica Natália pro irmão Vítor, três anos mais novo do que ela. – Vai pra lá, eu começo chutando. — Você é muito ruim, só chuta pra fora! E eu odeio ficar no gol. Não quero jogar com você, sua burra! Prefiro mil vezes chutar a bola na parede sozinho. Vai embora! — Nem começa, Vítor. Você não lembra o que a mãe disse? Desde a última vez que você fugiu de casa, você não pode mais descer pra brincar no parquinho sozinho. É isso ou nada. Natália tem nove anos e sua principal função na família é cuidar dos dois irmãos menores, além de tirar notas acima da média, ...

Elegia da gente viva (parte 3, capítulo 15)

Nota explicativa: estou publicando duas vezes por semana (às quartas e aos domingos) capítulos do meu romance “Elegia da gente viva”, ainda inédito. Para ter acesso ao sumário com os capítulos já publicados, clique  aqui . *** 15. Desirée (3) Diário de viagem Paris, 23 de janeiro de 201X. Li em algum lugar, acho que foi na revista da Tantã, que o número de turistas em Paris é superior ao de habitantes. E cá estou eu reforçando essas estatísticas. O que torna Paris o destino predileto de nove em cada dez viajantes? Bela cama, bela mesa e nenhum julgamento se você pular o belo banho. O humor local deixa a desejar, admito, mas as possibilidades de romance são infinitas. Apaixonar-se em Paris, que sonho de consumo! Os pombinhos enamorados são tão imprudentes no uso do cartão de crédito... Portanto, amemos! Em nome do superávit, amemos! Os cenários amorosos são reconhecíveis dos inúmeros filmes e livros românticos devorados, tudo tão planejado e funcional. Até o encanto daquela chuva qu...

Elegia da gente viva (parte 3, capítulo 14)

Nota explicativa: estou publicando duas vezes por semana (às quartas e aos domingos) capítulos do meu romance “Elegia da gente viva”, ainda inédito. Para ter acesso ao sumário com os capítulos já publicados, clique  aqui . *** 14. Desirée (2) É a terceira conversa, só neste mês, que a irmã-coordenadora-pedagógica tem com Desirée, desta vez acompanhada pela irmã-psicóloga. Simplesmente inaceitável! Onde já se viu uma garota de quatorze anos andar com os olhos carregados de lápis preto? Nós já não conversamos sobre isso? Sim, irmã. Então, por que você continua a me desobedecer? Este é um colégio respeitável, não uma discoteca! E todas essas correntes com símbolos pagãos? É o ankh, símbolo egípcio da morte. Antes que a pedagoga explodisse de vez, a psicóloga, que se chamava Marta, pediu para conversar sozinha com a aluna.  Você pensa sempre na morte, Desirée? Acho que tanto quanto todo mundo. E como você imagina que seja a morte? Simpática, reconfortante. E a vida, como você a vê...