Há dias em que é preciso escrever

Há dias em que é preciso escrever. Se eu não o fizer, parece que morro.

Depois que encho uma folha inteira e pingo o último ponto, as dores do morrer ainda estão lá. A única – mas essencial – diferença é que as sinto com alegria. Tudo se justifica pela arte: disseram-me, acreditei. Eu produzo arte: digo-lhes, acreditem.

A literatura deveria facilitar as experiências ruins. Facilita?

Ela multiplica a dor, que se transforma num turbilhão e, sabe-se lá como, anestesia a dor original.

A literatura dá nomes diferentes aos demônios conhecidos, cobre os medos com capas bordadas e grita: “que lindo este defunto!”. Nenhuma dor é verdadeira, nada nos diz respeito, por isso, podemos chorar à vontade. Ao lastimar o fim daquele amor de mentirinha, esquecemos o que realmente há para se lamentar: a fugacidade da vida. Vida que nos escapa inclusive quando nos distraímos, encantados, com um livro na mão.

Será que nós sobreviveríamos à realidade?

Eu já tentei e concluí, há dias, que é preciso escrever.

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Leitura relacionada: Eu nunca fiz senão sonhar, de Bernardo Soares (Fernando Pessoa).

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