Mãe
Ontem uma amiga deu à luz seu primeiro filho. Quando ela me descreveu o parto, que, precedido de uma gestação dolorosa, ainda teve complicações, pensei: essa mulher atingiu o nível existencial dos semideuses. A coragem para suportar a dor e dizer “sim” ao seu desejo até o final é impressionante. Nas histórias míticas, os heróis – quase sempre pertencentes a uma linhagem divina, por isso são semideuses – iam para as guerras para acumular feitos notáveis e, assim, provar sua honra. O que muitas vezes esquecemos é que, não importa a bravura e o desapego deles, ou quantas pessoas tenham “salvado” com suas armas, eles só conseguem matar, jamais gerar vida nova. Inclusive, já disseram (não lembro a fonte, desculpem) que o homem prolifera ideias para suprimir sua incapacidade de criar com o corpo.
Esta conversa poderia descambar para os clichês de Dia das Mães: aquela que dá a vida, a que se sacrifica, a encarnação do amor incondicional... Mas aí mora outro perigo. Pela generalização, ignoramos as mães reais ou, até pior, impomos a identidade de mãe a todas as mulheres. Esse não é o destino do gênero feminino, é o destino das mulheres que disseram “sim” à missão da maternidade – o próprio Deus perguntou a Maria se ela aceitava ser a mãe de Cristo. Já ouvi até padre falando isso, então não é nenhuma posição "moderninha", é só respeito mínimo ao livre-arbítrio.
Outro risco é a dicotomia mulher-vida / homem-morte. (Divisão essa que, inclusive, baseia a série “Dark”, mas falemos disso noutra oportunidade...) Vejam: o homem não pode gerar vida, mas pode matar. A mulher pode gerar vida e pode matar, sendo Medeia um símbolo disso. Então é bem mais complexo do que atribuir vida a uma e morte a outro.
O direito do homem de matar está assegurado sob o nome de “guerra”. O direito da mulher de negar ou interromper uma vida se chamam “método anticoncepcional”, num nível, e “aborto”, noutro. Sabemos que esse último não é reconhecido como legítimo pela nossa sociedade, como o primeiro também não era noutros tempos, e a mulher que praticar o aborto, salvo raras exceções, será incriminada. Também estamos cientes de que os discursos pró-vida são uma enorme hipocrisia, pois defender a vida abstrata e genericamente está longe de oferecer condições mínimas para seu desenvolvimento em cada caso específico.
Considerando esse cenário, sem me aprofundar aqui nos inúmeros argumentos favoráveis à descriminalização do aborto, parece-me que o discurso pró-vida é só uma fachada para a causa maior dos militantes reacionários, que é vetar à mulher o conhecimento da própria potência e a ação plena.
Muita calma agora. Não estou dizendo que mulheres devam praticar o aborto, apenas propondo que elas deveriam poder pensar no assunto e decidir por si. Tirar uma vida é algo muito grave – inclusive, acho que precisamos questionar radicalmente o direito dos homens de fazer guerras. Por outro lado, dar a vida é igualmente grave, e isso não deveria ser feito levianamente. O que coloco em pauta aqui é que as mulheres tenham ciência da grandeza de seu poder, tanto para a vida quanto a morte, e que possam fazer escolhas amadurecidas, compatíveis com seu desejo e sua consciência.
Comecei falando de maternidade para falar de aborto, mas volto ao assunto inicial. Toda essa volta para dizer que a ampliação do direito ao aborto não ameaça a maternidade, apenas enaltece sua grandeza. Afinal, todo bebê merece ter sido profundamente desejado e chegar a este mundo com uma calorosa acolhida. Nessas circunstâncias, nascimentos são uma dádiva. Noutras, me provocam um aperto no peito, fico pensando se esses bebês um dia superarão a marca da rejeição. Torço para que sim e paro por aí, não faço mais nada por eles, só penso neles genericamente, o que não vale de nada.
***
Acabei me estendendo, como sempre, e o mais importante ainda está por vir.
Esta conversa poderia descambar para os clichês de Dia das Mães: aquela que dá a vida, a que se sacrifica, a encarnação do amor incondicional... Mas aí mora outro perigo. Pela generalização, ignoramos as mães reais ou, até pior, impomos a identidade de mãe a todas as mulheres. Esse não é o destino do gênero feminino, é o destino das mulheres que disseram “sim” à missão da maternidade – o próprio Deus perguntou a Maria se ela aceitava ser a mãe de Cristo. Já ouvi até padre falando isso, então não é nenhuma posição "moderninha", é só respeito mínimo ao livre-arbítrio.
Outro risco é a dicotomia mulher-vida / homem-morte. (Divisão essa que, inclusive, baseia a série “Dark”, mas falemos disso noutra oportunidade...) Vejam: o homem não pode gerar vida, mas pode matar. A mulher pode gerar vida e pode matar, sendo Medeia um símbolo disso. Então é bem mais complexo do que atribuir vida a uma e morte a outro.
O direito do homem de matar está assegurado sob o nome de “guerra”. O direito da mulher de negar ou interromper uma vida se chamam “método anticoncepcional”, num nível, e “aborto”, noutro. Sabemos que esse último não é reconhecido como legítimo pela nossa sociedade, como o primeiro também não era noutros tempos, e a mulher que praticar o aborto, salvo raras exceções, será incriminada. Também estamos cientes de que os discursos pró-vida são uma enorme hipocrisia, pois defender a vida abstrata e genericamente está longe de oferecer condições mínimas para seu desenvolvimento em cada caso específico.
Considerando esse cenário, sem me aprofundar aqui nos inúmeros argumentos favoráveis à descriminalização do aborto, parece-me que o discurso pró-vida é só uma fachada para a causa maior dos militantes reacionários, que é vetar à mulher o conhecimento da própria potência e a ação plena.
Muita calma agora. Não estou dizendo que mulheres devam praticar o aborto, apenas propondo que elas deveriam poder pensar no assunto e decidir por si. Tirar uma vida é algo muito grave – inclusive, acho que precisamos questionar radicalmente o direito dos homens de fazer guerras. Por outro lado, dar a vida é igualmente grave, e isso não deveria ser feito levianamente. O que coloco em pauta aqui é que as mulheres tenham ciência da grandeza de seu poder, tanto para a vida quanto a morte, e que possam fazer escolhas amadurecidas, compatíveis com seu desejo e sua consciência.
Comecei falando de maternidade para falar de aborto, mas volto ao assunto inicial. Toda essa volta para dizer que a ampliação do direito ao aborto não ameaça a maternidade, apenas enaltece sua grandeza. Afinal, todo bebê merece ter sido profundamente desejado e chegar a este mundo com uma calorosa acolhida. Nessas circunstâncias, nascimentos são uma dádiva. Noutras, me provocam um aperto no peito, fico pensando se esses bebês um dia superarão a marca da rejeição. Torço para que sim e paro por aí, não faço mais nada por eles, só penso neles genericamente, o que não vale de nada.
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Acabei me estendendo, como sempre, e o mais importante ainda está por vir.
Gostaria de saudar Marcelino e a semideusa-mãe Júlia. Bem-vindos! A existência de vocês me alegra e emociona.
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