Mudança
Gente feliz não escreve, vive. Parafraseio uma fala do Cristóvão Tezza que ouvi nalguma Semana de Letras anos atrás para anunciar: resolvi ressuscitar o blog. Sim, estou meio infeliz, mas não é disso que falarei, já bastam os posts depressivos de meses atrás, ou talvez fale só um pouquinho... mas prometo um final otimista! Nada de depressão, graças à minha ótima psicóloga (passo o contato para quem precisar), apenas a tristeza normal da vida.
Quero descrever a sensação de mudar de casa. Meus pais sempre foram muito constantes, avessos inclusive a reformas, de modo que nos mudamos pouquíssimas vezes, e acho que herdei essa característica. Chego a um lugar e tento logo transformá-lo na minha casa, instalar-me em definitivo. Claro que, fazendo assim, vou contra a ordem natural do mundo (pura inconstância), mas esse é um aprendizado que ainda não me entrou na cabeça, infelizmente. Não sei ser nômade, embora com frequência me proponha andanças e passe pela maioria das experiências de modo contemplativo, como se nada me pertencesse.
Desde novembro, quando soube da aprovação no doutorado, passei noites sem dormir, pensando nas possibilidades, que eram muitas. Preocupavam-me sobretudo questões práticas, para onde eu iria, o que faria com as minhas coisas... Decidi, por fim, me desfazer de tudo, para viajar leve, e alugar um quarto numa casa já montada para não precisar comprar novas coisas. E como temos coisas! (Isso me lembra o ótimo stand-up do George Carlin: https://youtu.be/MvgN5gCuLac) Parecia que eu finalmente viveria a vida que vinha pregando, a da simplicidade e do desapego. Eu chegaria ao lugar novo e, sem ter para onde voltar, todo lugar seria minha casa. Foi essa a história que contei para todos os meus amigos e para mim mesma.
Há oito dias cheguei ao apartamento que havia escolhido, via internet, para ser minha nova casa. Receosa da distorção das fotos online, me senti sortuda quando encontrei um lugar limpo, seguro e bem localizado, jeito de casa de família, varanda com plantas. Dois dias de arrumações e compras para me ajeitar no pequeno quarto que me cabia. Pronto. Tudo pronto para a nova vida. Então por que eu não parava de me sentir miserável? Por que só queria ficar trancada no quarto chorando?
A princípio culpei a dona da casa, mulher bisbilhoteira, pessimista e faladeira, pela minha infelicidade. Cheguei a pegar raiva dela, sentindo-me tão injustiçada pelos comentários que ela fazia com relação ao meu proceder. Eu, que sou tão discreta e cuidadosa, também sou terrivelmente orgulhosa e não aceito palpites de qualquer natureza. Só me animava para sair da penumbra do quarto a fim de procurar outros apartamentos para me mudar sozinha. Naqueles primeiros dias eu não suportava nada da nova experiência, e mais: eu odiava todas as novas pessoas, só de olharem para mim ou me dirigirem a palavra, eu tinha vontade de esganá-las. Só desisti da busca por apartamento quando me vi no meio de uma favela, tendo que mandar mensagem para uma amiga com o endereço para que, ao menos, alguém localizasse o meu corpo. Percebi que já estou, sim, em um bom lugar, eu é que preciso aprender a conviver com as pessoas, já que nem sempre terei condições para me esquivar e ficar sozinha.
Ontem, sentada à beira da Lagoa da Pampulha, me veio uma grande sensação de resignação. Não tem jeito, é a beleza quem torna a vida mais suportável, quem nos faz sentir em paz. Apesar de, no geral, BH ser um caos, tem alguns lugares de refúgio como esse. Ali eu entendi o óbvio: esta é a minha vida agora, boa ou ruim. Posso ficar comparando com a antiga, que também tinha aspectos bons e ruins, ou posso me esforçar para aumentar os aspectos bons desta e amenizar os ruins. Lembrei-me, então, da sensação de mudança das outras vezes.
Quando saí do conjunto habitacional em que passei minha infância, lembro de ter ficado sozinha na quase ex-casa por algumas horas, enquanto os adultos transportavam as caixas, e fixar cada canto da sala, fazendo um mapeamento mental dela, pois eu nunca mais a veria e não queria esquecê-la (na verdade, cheguei a voltar uma vez para aquele apartamento, mas, com as coisas de outra família, nem parecia que eu havia vivido ali, era mesmo um outro lugar). A chegada ao lugar novo foi tranquila, eu não deixara amigos nem pertences para trás, mudava para um lugar bonito e ventilado (o que faz toda diferença numa cidade como Maringá), encarei-o com grande esperança.
Já quando fui para Curitiba, o choque de nunca mais ver o lugar anterior não existia, pois minha mãe manteve meu quarto exatamente igual por alguns anos e, quando o transformou em quarto de visitas, eu já não sentia que ali era a minha casa de qualquer forma. Mas chegar àquele apartamento velho e vazio (nem mesa eu tinha, apenas uns colchões empilhados fazendo as vezes de sofá) também me assustou e me fez sentir uma coitada. Tudo quebrava, os vizinhos eram desagradáveis, aquilo não era uma casa. Culpei meus pais por me abandonarem ali, por não me proporcionarem algo melhor, acostumada que estava à minha vida burguesa anterior. Como eu era ainda uma adolescente e, convenhamos, não tinha lá muita iniciativa, foi minha mãe que o transformou num lar e, quando sua obra ficou pronta, eu reivindiquei os louros para mim, disse “esta é minha casa, aqui mando eu”. Como fui ingrata. Ao testemunhar a situação ainda mais penosa de colegas e o bom humor com que levavam suas vidas apesar disso, reuni energias para tentar viver bem também. Naquele apartamento velho e todo quebrado (nunca o reformamos, como é hábito da minha família), eu me tornei uma adulta, ali tive dias de muita alegria e outros tantos de tristeza. C'est la vie.
Olho para trás e vejo padrões. Eu, com treze, com dezessete e com vinte e nove anos, continuo a mesma cabeça dura, fechada para o novo, pouco ativa para tornar a situação melhor, apenas esperando que os outros me proporcionem uma vida agradável. Isso é pensamento de gente fraca. Preciso manter em mente o que aprendi com o Nietzsche: gente forte cava seu lugar, luta e derruba o que se opuser à sua felicidade. Estou com uma semana de prejuízo na adaptação, mas agora enfim despertei. BH, você será minha.
Olha o lado bom, o pão de queijo daí deve ser o melhor que há.
ResponderExcluirDe fato, como sempre que posso. E até agora não encontrei um pão de queijo ruim nesta cidade.
ExcluirMudar dói, de verdade. Uma dor palpável, quase física. Mas faz bem, ajuda a crescer e a se conhecer. Te desejo várias novas descobertas nessa nova etapa da tua vida. E continuo acompanhando daqui.
ResponderExcluirSim, Ana, vc sabe bem como é estar num lugar longe de tudo, sem ter uma casa familiar para voltar quando bate a crise. Mas está coberta de razão! Em apenas duas semanas já aprendi muito sobre mim, descobri novas fraquezas e velhos padrões, e olha que eu achava que já me conhecia suficientemente bem... Espero que vc esteja bem aí! Beijos.
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