Diário da crise existencial (3493874957º episódio)

Estou passando para registrar o estado atual desta crise. Eu me permiti escrever posts mais pessoais como parte de um exercício de aceitação da minha vulnerabilidade, que basicamente consiste em mostrar aos outros meu rosto sem máscaras e ter que lidar com a resposta deles sem desabar. Além disso, acho que estes textos íntimos podem ajudar àqueles que estão no estágio inicial da desilusão (ou da iluminação), isto é, desespero e desejo de morte. Quando eu mesma estive lá, e foram as duas semanas mais longas da minha vida, gastava minhas noites de insônia, porque nem o alívio do sono a gente tem, procurando uma palavra que me resgatasse. Talvez estas sejam as palavras que resgatem alguém. Não são salvadoras, mas servem de companhia até que essa pessoa se sinta forte o suficiente para caminhar com as próprias pernas, porque – respondendo à pergunta do post passado – parece que o caminho para se viver bem é, sim, prioritariamente solitário.

Mas esta verdade não ajuda na primeira fase. Nesse período, a dor é tanta que você não quer trilhar caminho algum, não quer mais nem fazer parte deste mundo, só quer que tudo cesse. É uma fase muito delicada, aquela palavra tabu torna-se uma ideia fixa, mas quem vê de fora não acha que é tão sério assim, pensa que a pessoa está exagerando e que vai passar. Olha, às vezes não passa, eu só não levei a cabo aqueles pensamentos suicidas por causa da minha formação cristã. Crendo na alma imortal, eu sabia que a dor continuaria pela eternidade em algum outro plano e, portanto, o meu problema não se resolveria, mas eu rezava todos os dias para que Deus tivesse piedade de mim e me libertasse deste corpo, pensava em vários acidentes possíveis e não tinha nenhuma cautela com minha segurança para dar mais chances ao acaso. Feliz ou infelizmente, nada me aconteceu.

A desesperança era muito grande, eu não conseguia pensar em nenhum cenário em que eu pudesse ser feliz, mesmo se eu recuperasse tudo o que havia perdido recentemente, mesmo se todos os meus antigos sonhos se realizassem de uma vez. Era uma completa falta de sentido, minha única vontade era parar de sofrer. Chegou a ponto de tanta dor que eu comecei feito louca a implorar que alguém me salvasse, eu não sabia como isso seria possível, só suplicava que me olhassem e me dessem a certeza de que eu ainda pertencia a este mundo, que me segurassem aqui. Eu estava totalmente frágil, qualquer mínimo sinal de indiferença (e as pessoas têm o direito de serem indiferentes, elas não sabem o que se passa dentro da minha cabeça), parecia que o problema era eu, que eu não tinha lugar na vida e que até a morte se recusava a me acolher. Eu não pertencia a lugar algum. Também abusei do álcool nesses dias, pois a embriaguez ao menos era uma causa nomeável para a falta de sentido, eu me recusava a admitir que a falta de sentido estivesse dada deste sempre.

Desesperada, quis fixar o tempo, criar uma narrativa forçada em que eu fosse importante para alguém, me agarrava a qualquer mão que me afagasse (ainda que fosse por um segundo antes de voltar a me estapear). Nesses dias, eu perturbei muito meus amigos, meu ex-namorado, desconhecidos, não podia ficar um instante sozinha, até que finalmente decidi pagar uma terapeuta, para ter alguém que me escutaria com completa atenção e não me abandonaria ou me deixaria desamparada quando eu mais precisasse dela. Essa decisão não resolveu o problema, ainda me sentia infeliz e sem esperanças, mas diminuiu minha ansiedade de abandono. Todos poderiam me virar as costas, mas minha terapeuta não faria isso comigo, o que no fundo é também uma ilusão, já que ela, por qualquer motivo, pode estar indisponível. Hoje mesmo, ela ligou remarcando minha sessão, pois está gripada... Se eu estivesse tão fraca, meu mundo teria desabado de novo.

Não sei exatamente o que mudou, quinze dias após o colapso foi quando eu passei meu primeiro dia bem. Fiz as mesmas atividades de todo dia, mas havia certa leveza, eu comecei a achar boas algumas coisas (um texto que li, a sensação do sol no rosto, uma música que cantei junto, a sensação do corpo vivo e forte durante uma atividade física), voltei a me sentir grata por estar viva, dei risada por motivo nenhum. O interessante é que eu não havia visto nenhum aliado neste dia, tive uma jornada bem solitária, o bem-estar parecia autêntico, pois independia de qualquer pessoa. Mais uma ilusão, claro, eu estava bem por influência de fatores externos (o sol, a boa saúde, a companhia da minha cachorra, o tempo livre para me exercitar), não poderia me fiar tão rápido na minha autossuficiência. Se o fizesse, corria o risco de me esfacelar de novo assim que esses fatores me faltassem.

Ontem eu tomei três boas decisões que, acredito, terão efeitos mais consistentes na minha melhora. Primeira, encontrei um amigo para tomar um café, conversamos só de assuntos cotidianos, pois, como não somos tão próximos, não consegui falar das coisas mais sombrias que se passavam na minha cabeça. Na hora de nos despedirmos, ele me disse que, se eu precisasse conversar, eu poderia chamá-lo de novo. Sem nenhuma segunda intenção, ele tem uma namorada e demonstra muito amor por ela, parecia estar realmente preocupado comigo. Então percebi que eu tinha que ficar bem para livrá-lo dessa preocupação, que não era justo com ele nem com meus outros amigos.

A segunda decisão foi emprestar na biblioteca um livro da Simone Weil chamado “A gravidade e a graça”. Talvez mais para frente eu faça um texto só sobre ele, mas agora não consigo. Ainda estou no meio da leitura e não processei muito bem ainda tudo o que diz lá. Só sei que é o livro de que eu precisava neste momento. Nesses dias sombrios que passaram, estive insistindo na leitura de “Um outro amor”, do Karl Ove Knausgård, só porque eu não consigo largar um livro começado, mas ele me lembra tantas coisas dolorosas que foi melhor dar esse tempo...

A terceira decisão foi ir ao centro de estudos budistas. Eu preciso urgentemente me desapegar da minha própria identidade, das relações que perdi, do desejo de encontrar felicidade neste mundo. Esta minha postura rígida, este planejamento excessivo, esta vontade de fixar o que não depende de mim (e algo depende?), tudo isso tem me causado muita dor, talvez seja o próprio motivo desta crise. O budismo é o discurso que me parece mais adequado neste momento. Não se trata de salvar este eu sofrido, de agarrar-se à promessa de um consolo após a morte; trata-se de ver que não existe separação entre o eu e o outro, de encontrar uma transcendência para além do bem e do mal. Isso é possível? Não sei, só sei que é o caminho que está me parecendo mais atraente agora e, felizmente, me sinto suficientemente forte para trilhá-lo sozinha.

Nesta nova fase, longe ainda de atingir a iluminação, mas pelo menos a almejando, só tenho a agradecer àqueles que me abandonaram. Se eu me senti desamparada, não foi por culpa de vocês, a ação de vocês só deixou evidente a situação em que eu já encontrava. Obrigada por me dar a oportunidade de tomar ciência dela e, assim, poder fazer algo a respeito.

Este é o estado atual. Para além disso, não sei de nada.


(Esta imagem é uma representação da Roda do Samsara.)

Comentários

  1. Que bom que você está melhor. Eu mesmo nunca fiz terapia, mas acho uma boa.

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