Sim
Estava pensando em um cenário hipotético no qual eu, uma mulher jovem, solteira e com uma independência financeira muito recente e frágil, para não dizer questionável, ficasse grávida.
A pressão mais explícita viria da família, representante desta classe-média conservadora (progressivo na concepção deles é, no máximo, ter amigo preto ou gay). Eu não te reconheço mais! Você fez sexo fora do casamento! Agiu como uma qualquer! Envergonhou seus pais! Deus te castigou!
Haveria também a pressão dos colegas da minha geração, essa mais velada. Como você pode ter feito sexo sem proteção? E se tivesse pego uma doença? Essa criança vai arruinar sua carreira e sua vida sexual! Seu corpo e sua disposição nunca mais serão os mesmos!
Seja pelo discurso dos velhos moralistas, seja pelo dos liberais hedonistas-cientificistas, percebo que estamos todos cegos. Como interpretar essa gravidez “fora de hora” (sem carteira assinada, sem plano de saúde, sem registro de casamento... enfim, sem “condições para a vida” conforme, paradoxalmente, a classificam) senão como um “sim”? Meu corpo estava presente, o corpo do outro estava presente. Eu disse “sim”, o outro disse “sim”, e a vida encontrou terreno fértil neste encontro para se perpetuar. O grande “sim” de que fala Clarice Lispector em “A hora da estrela”. Da mesma forma que eu tive o privilégio de desfrutar de um fragmento da vida, de ser tomada por ela e de ser representativa dela, outro ser terá esse privilégio. Não é lindo ser instrumento deste mistério vivo?
Mas não estou grávida.
Sou medrosa, não me ensinaram a dizer “sim” nas estruturas esterilizadas em que cresci, condomínio residencial, televisão, escola, universidade, smartphone, academia de ginástica, mercado de trabalho. Não sei nem por onde começar.
A pressão mais explícita viria da família, representante desta classe-média conservadora (progressivo na concepção deles é, no máximo, ter amigo preto ou gay). Eu não te reconheço mais! Você fez sexo fora do casamento! Agiu como uma qualquer! Envergonhou seus pais! Deus te castigou!
Haveria também a pressão dos colegas da minha geração, essa mais velada. Como você pode ter feito sexo sem proteção? E se tivesse pego uma doença? Essa criança vai arruinar sua carreira e sua vida sexual! Seu corpo e sua disposição nunca mais serão os mesmos!
Seja pelo discurso dos velhos moralistas, seja pelo dos liberais hedonistas-cientificistas, percebo que estamos todos cegos. Como interpretar essa gravidez “fora de hora” (sem carteira assinada, sem plano de saúde, sem registro de casamento... enfim, sem “condições para a vida” conforme, paradoxalmente, a classificam) senão como um “sim”? Meu corpo estava presente, o corpo do outro estava presente. Eu disse “sim”, o outro disse “sim”, e a vida encontrou terreno fértil neste encontro para se perpetuar. O grande “sim” de que fala Clarice Lispector em “A hora da estrela”. Da mesma forma que eu tive o privilégio de desfrutar de um fragmento da vida, de ser tomada por ela e de ser representativa dela, outro ser terá esse privilégio. Não é lindo ser instrumento deste mistério vivo?
Mas não estou grávida.
Sou medrosa, não me ensinaram a dizer “sim” nas estruturas esterilizadas em que cresci, condomínio residencial, televisão, escola, universidade, smartphone, academia de ginástica, mercado de trabalho. Não sei nem por onde começar.
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