Sobrevivência

Há muito tempo perdi a vontade de escrever para o público sem rosto da Internet. O blog ficou assim abandonado, desativei Facebook, Twitter e, por fim, Whatsapp. Nem preciso dizer que minha vida ficou muito melhor, a ansiedade baixou, o tempo se multiplicou. Claro que eu sentia falta de alguns amigos de quem eu não tinha mais notícias, mas passei a apreciar mais as companhias das pessoas que estavam por perto. Sem a armadura digital, finalmente entendi que era nesta cidade, neste bairro, nesta universidade minha nova vida. Poderia ser num espaço e num tempo expandidos, mantendo o cordão umbilical com os amigos que fiz pela vida toda, mas descobri que prefiro o espaço-tempo assim mais limitado, menos assustador, traz menos problemas para eu lidar. Isso não significa alienação, passei a ler mais a mídia tradicional e consigo novamente opinar sobre os fatos em vez de só mencionar manchetes ou memes. Para ficar perfeito, só preciso aprender a desativar o feed de notícias do Google (help!), pois não aguento mais acordar de manhã, olhar a previsão do tempo (sou viciada nisso) e ler, antes de tudo, o nome daquele homem que eu não repetirei aqui para não lhe dar mais ibope.

Apesar dessa melhora geral na vida privada (afinal, ela voltou a existir! Os fatos da minha vida não estão mais expostos em vitrines nem estão abertos para os outros dizer se curtiram), ando sentindo um grande desânimo com relação ao cenário político. Nasci na era democrática, nunca vivi sob um regime de extrema direita, nem me passou pela cabeça até este ano que os direitos constitucionais corressem o risco de ser suspensos em certas conjunturas. Tivemos presidentes pilantras, governos liberal-entreguistas, partidos que extorquiram o país e a prática sistemática da propina para a manutenção infinita de alguns grupos no poder, mas estão todos aí para serem julgados, sabemos que eles foram contra a lei e torcemos para que sejam punidos por seus crimes.

O que se coloca em pauta agora é muito diferente de tudo o que vi: e se as leis forem simplesmente suspensas como já aconteceu na história deste país mais de uma vez? Me preocupa, sobretudo, minha atuação como professora. Como será o ambiente de trabalho da educação nos próximos anos? Haverá temas e palavras proibidas? Será tudo transformado em EaD e eu nunca mais olharei nos olhos dos meus alunos? Eu corro o risco de ser demitida por ler com os meninos escritores desta ou daquela ideologia? Eu terei que transformar a disciplina de Literatura em algo utilitário? Ou ela vai simplesmente se extinguir e eu terei que ensinar só gramática? Eu terei que seguir um script determinado por algum funcionário de alto escalão do MEC? Existirão os Institutos Federais?

Não vim aqui para viralizar minhas apreensões, até porque nem teria a influência para isso, apenas alertar sobre o risco de entrarmos nessa espiral do desânimo e passarmos os próximos quatro anos sem ver nada de bom ou luminoso pela frente. Vim aqui para lembrar do brilho dos vaga-lumes, que fica ainda mais evidente em tempos sombrios (metáfora emprestada de Didi-Huberman). E, se as coisas estiverem realmente ruins, se vocês já acordarem com vontade de chorar, ouçam Phillip Glass e Bon Iver. É um paliativo, mas, pelo menos para mim, sempre funciona. A derrota só será completa quando a falta de esperança tomar nossos corações e quando a arte se tornar muda ou incapaz de se comunicar conosco. Cansei desses discursos "vou embora do Brasil se...", este país é de todos nós e tem que ser generoso conosco. Para além do desejo de um governo que coloque as contas em dia sem cobrar dos mais pobres, que crie empregos, cuja Justiça atue com idoneidade e que volte a cuidar do meio ambiente e das populações da floresta (e nem tenho esperança de que algum dos candidatos vá fazer metade disso), neste momento só espero que o governo seja liberal no sentido mais básico do termo: que possibilite às pessoas viver do modo que escolheram viver, sem impor uma moral que sei lá qual guru ou pastor determinou.

Ouvi num podcast do Foro de Teresina sobre uma percepção de que o brasileiro não considera liberdade tão importante quanto emprego, por exemplo. Gente, liberdade não é importante, porque ainda a temos. Não quero pagar para ver como é viver sem ela.

Biblioteca básica:
"Sobrevivência de vaga-lumes" - Didi-Huberman
"Como resistir em tempos brutos" - Eliane Brum

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