Sobre a passagem do tempo


O post passado me deu a ideia de fazer um ensaio fotográfico sobre a passagem do tempo. Ao focar a deterioração de corpos que um dia foram belos, eu tentei vislumbrar algum tipo de beleza no limiar da morte. A carniça pode ser sublime (para usar uma imagem de Baudelaire)? Eu bem que tentei durante três dias, mas a luz não ajudou desta vez - fotografei à noite, com iluminação artificial. De qualquer forma, o resultado servirá como ilustração para um poema que foi duramente interrogado e torturado durante quase dez horas por três estudantes de Letras. Tiramos o suco viçoso, ficou a carniça. Não a do poema, a nossa.

O inimigo - Charles Baudelaire
(Trad. Ivan Junqueira)

A juventude não foi mais que um temporal,
Aqui e ali por sóis ardentes trespassado;
As chuvas e os trovões causaram dano tal
Que em meu pomar não resta um fruto sazonado.

Eis que alcancei o outono de meu pensamento,
E agora o ancinho e a pá se fazem necessários
Para outra vez compor o solo lamacento,
Onde profundas covas se abrem como ossários

E quem sabe se as flores que meu sonho ensaia
Hão de achar nessa gleba aguada como praia
O místico alimento que as fará vigorosas?

Ó dor! O tempo faz da vida uma carniça,
E o sombrio Inimigo que nos rói as rosas
No sangue que perdemos se enraíza e viça!

Comentários

  1. Acho que o problema da foto não foi a luz, mas essas cores vivas, mesmo nas flores morrendo.

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    1. Pois é, concordo com vc. Tentei dar uma suavizada nas cores no photoshop, mas o bizarro é que elas ainda estão bem fortes, as pétalas preservam um toque macio embora a textura aparente seja de aridez. Vai ver que a morte não é tão cinza quanto a gente pensa. O poema do Baudelaire mesmo é bem colorido. O ruim de fotografar à noite é que a imagem fica meio granulada, nem se compara com a foto do post anterior, ainda que a máquina seja a mesma. Enfim, chega de amenizar a incompetência da fotógrafa.

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