O lírio e a camélia


Um olho no espelho vê o lírio. O outro, voltado para a sombra dançante na parede, vê a camélia.

O lírio é rígido, correto, simples e sem excessos. Vive bem enraizado, próximo ao chão, cercado por seus iguais. Não tem pretensões. É constante, bondoso, eterno. Tem uma beleza tão crua, rústica, quase masculina. Virginal, nada esconde, nunca cede. Velado em sua santidade, morreria numa câmara nupcial. Foi feito para os santuários e as capelas, em honra a damas tão íntegras quanto ele. Fruto banal dos campos, há em sua seiva um misticismo que se perpetua intocado.

A camélia já nasce nas alturas, aspirando ventos mais leves e velozes, pronta para saltar ao primeiro chamado. Poderiam olhar para ela e dizer "Que florzinha à toa, brota em qualquer canto, nada de especial tem!". Alguns até o fazem, mas basta deterem-se um segundo a observá-la que logo se rendem a seu balançar leviano. Camadas brancas em profusão, feito os saiotes da dançarina de cancan, que se oferece sem amor, só por diversão. Ingênua, ébria, iludida. Atira-se à lapela de um homem qualquer, sem se importar em pagar com a vida tal gesto irrefletido. E, no ápice do gozo, murcha, enfeia, morre.

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Ficarei duas semanas sem postar. Até lá.

Comentários

  1. O lírio "decora" os "jardins" do nosso campus e os terminais.
    A camélia enfeita o seu blog.

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  2. uhuuuuu
    ta vindo hj ne?\o

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