Poemas publicados na coletânea da Flupp 2014
Ano passado participei de um evento muito interessante chamado Flupp
Brasil. Sinceramente, ando bem cansada dessas palestras em que você ouve sempre
os mesmos debates e reencontra as figurinhas blasées de sempre, mas fui atraída pela oportunidade de no final ter um trabalho
publicado em livro. Outro aspecto curioso era ter que cortar a cidade todo dia
de ônibus, levava duas horas nos períodos de rush, para chegar à Vila Verde.
Naqueles dois dias vivenciei a periferia da minha cidade e tive a prova cabal
de que a desigualdade social está intimamente ligada à desigualdade racial. Curitiba
é uma cidade caucasiana? Vá para a periferia e você vai descobrir em que
condições vivem os milhares de negros curitibanos.
Nesta semana recebi as edições a que os autores selecionados têm
direito: dez exemplares. Bom, dado o cenário de publicação de escritores neófitos,
já estou bem feliz de não ter tido que pagar para ter um trabalho meu impresso.
O que mais lamento é que a circulação seja tão restrita, não só dos meus
trabalhos, que nem são grandes coisas (poesia não é meu forte), mas é uma perda pelo
conjunto da obra. Pois é, tive a sorte de sair numa coletânea ao lado de muita gente competente,
que orgulho!
Bom, numa tentativa de divulgação desse trabalho, copio abaixo os
poemas de minha autoria, com algumas pequenas edições, e enfatizo a necessidade
de em edições futuras do projeto aumentar a tiragem e a distribuição gratuita dos livros
em espaços públicos, como bibliotecas e faróis do saber.
Retratos do Brasil
I – Negativos
Tem cidade onde nunca anoitece.
Tem cidade onde o sol não aparece.
Tem cidade onde nada acontece.
Tem cidade onde ninguém adoece
em leito decente, só perece
morte dolente que não merece.
Sem pressa, sem prece, se esvanece
sem nunca ter sido o sonho: esse
tão agigantado herói agreste.
II – Revelação
Tem brasileiro que passa o Réveillon jogando em cruzeiro
cheirado de pó, doidão de bala,
a mão na bunda de gatas da Playboy.
Tem brasileiro que não passa do Réveillon, jogado em cruzeiro,
chamado ao pó, ímã de bala,
a cara na macumba de galinhas carijós.
III – Álbum
Tem história de senhor e escravo
e traficante.
Tem história de senhora e escrava
e amante.
Tem história de sonhar e escrever
agonizante.
Agora e antes
tem senhor, escravo e traficante.
***
Curitiba
Ofereço o frio.
O preço? Mil
noites gripadas,
coices, baforadas,
caretas em vez de bons-dias,
carteiras pra sempre idas
pra as mãos de menores,
pois bancos escolares
são aquecidos por traseiros
brancos, ricos, herdeiros
de bens e cultura.
Débeis estruturas
prendem a maioria à vida,
podam a maioria ávida
pela ascensão social,
prensada no busão matinal.
Funk bombando no smartphone,
fome apertando, hoje um não come.
Ou dois.
Ou dúzias.
Estudam e trabalham,
se afundam, se atrapalham.
Prestação pra pagar,
redação de vestibular.
Um beque seria maneiro.
Pileque com que dinheiro?
Sauna dos infernos
saúda os internos.
Fora, vento de navalha
faz arrebento na cara.
Fora, sim, é o destino.
Frio ruim de desatino.
É sempre hora de cruz e punhais
em Nossa Senhora da Luz dos Pinhais.
***
Cemitério sob Capricórnio
Em memória de Rafaela Franzoni
As lavadoras de túmulos
reais robustas solenes
vassoura e dois braços gordos
tão boas quanto pão quente
cacarejos nem fofocas
nem sussurros não titilam
ouve elas cantam silêncio
mão e água as pedras limam
além da força dos braços
água farta nada mais
boas como camponesas
bons como os campos gerais.
Bom como o que não há mais
algo que mora em memórias
histórias de noite preta
na varanda com a viola
lá aguardávamos a vida
nova sem ansiedade
só uma firme certeza
tudo morre tudo nasce
mudanças eram bem-vindas
mas naquelas noites não
era o tempo antes do tempo
tempo de contemplação.
Depois caos por que chorei
nem lembro mais o motivo
ranger dente em noites claras
viradas dias a fio
louvei ouro rococó
ridiculamente oco
maculado pelo barro
lavado por braços gordos
das lavadoras de túmulos
que nos velam nos expõem
a veleidade do brilho
o fim de reis e peões.
Velhas aram manhã fresca
chapéus brilham sol em nuvens
lavam os olhos das coisas
perdoam os que se movem
vida é curta e morte é certa
seus olhos em paz ensinam
o que nunca perguntamos
o que lembrar deveríamos
olhar pra trás tantas vezes
recordar o que seremos
a grama dançando sempre
o vento já não é o mesmo.
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