Põe um pouco de amor numa cadência

— Há sempre uma mulher a sua espera com os olhos cheios de carinho e as mãos cheias de perdão.
Eis o retrato do homem passional e cafajeste. Sempre digo que não vou cair na conversa de um desses, mas quem resiste ao Capitão Vinicius de Moraes, poeta e diplomata, o branco mais preto do Brasil? Sim, meu querido, ainda to te esperando no portão, com um olho nas crianças e o outro nas panelas sobre o fogão.
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As aulas de Estudos de Poesia Brasileira têm sido a coisa mais fantástica deste semestre. Por elas, sinto-me até tentada a abandonar o sonho de ser jornalista – aquela coisa de revelar a verdade para o mundo, fazer justiça aos desfavorecidos e toda a ideologia que os calouros de 17 anos sustentam; tudo no superlativo e em escala global, ô, mania de grandeza! – para passar meus dias lendo, lendo, lendo. Sem propósito nenhum! Só lendo e sentindo prazer nisso. Depois esmiuçar o texto lido, desenvolver um artigo e, pronto, fingir que tenho alguma utilidade para a sociedade. Ah, se me pagassem para fazer isso, eu seria feliz.
Tá, mas como esse blog não é um diário íntimo, não quero entrar nesse mérito da questão. Se sou uma medíocre frustrada, não é da conta de ninguém, não é mesmo? O fato é que as aulas no Departamento de Letras com o Professor E. – grande mestre! – me abriram portas que eu sequer imaginava que existiam.
Primeira aula. Começamos a ver poesia de tradição oral. Bruscamente, quando me dei conta, já não via a literatura de cordel como um gênero menor. Conheci bons autores, como Leandro Gomes de Barros, Rodolfo Coelho Cavalcante e João Melquíades Ferreira da Silva. Consegui até me comover em alguns trechos, acredita?
Já no finzinho da exposição, entrou um tópico novo: a tradição oral no meio urbano. E um nome se sobressaiu – Paulo César Pinheiro. Recebi-o com antipatia. Achei os poemas dele que o professor projetou na parede muito bobos e previsíveis. Decidi: esse não levo pra casa nem vestido de Johnny Depp!
Mas sabe como o destino está sempre tramando para a gente, né? Para uma primeira avaliação, o professor E. nos pediu um ensaio e sugeriu quatro propostas de tema. Duas delas eram muito longas, e eu já descartei de cara. Por fim, eu havia escolhido analisar poema de Patativa do Assaré e, com esse objetivo, fui à Biblioteca Pública. Acredita que não havia um único livrinho desse autor? Fui obrigada pelas circunstâncias a mudar o tema. E lá estava ele, ou melhor, aquelas iniciais – PCP, pêcêpê, pespe, pespelhão. Havia livro dele, claro. Na verdade, eram vários, uns cinco volumes da mesma obra. “Atabaques, violas e bambus” é o nome da diaba. Levei-a para casa na marra – e nem tinha a fantasia de Johnny para compensar um pouco...
— Vou fazer esse trabalho por mais amargo que seja! – disse me sentindo a própria Scarlett ao comer a cenoura suja de terra e prometer que nunca mais passaria fome. Heh, eu encaixo essa cena à minha vida com uma frequência absurda. Já banalizei, sim, mas como resistir à oportunidade de ser a musa por um momento e repetir em altos brados: “as God is my witness, as God is my witness, they're not going to lick me”.
Passou um dia inteiro, nem toquei no livro. “I'll think about that tomorrow”. No dia seguinte, a mesma coisa. Ou melhor, quase. Só no finzinho da noite é que movi esses glúteos gordos. Comecei a dar uma olhada nos poemas, já que precisava escolher um para analisar. A mágica se deu no intervalo de poucos minutos. O que era desinteresse tornou-se envolvimento. Eu me detinha em alguns poemas mesmo que não fossem úteis para o trabalho, só pelo prazer de ler.
Vamos ver se eu consigo escolher um para copiar abaixo. Segue o do meu trabalho mesmo – por favor, coleguinhas, não copiem! – que já tá digitado e, assim, economiza meu tempo.
Priprioca
Piripiri era um ente
Do grande povo Aruaque,
Que aparecia pra gente
Da serra Tumucumaque.
Tinha um perfume mais doce
Que o mel do Irapuã,
E apaixonava quem fosse
Donzela-flor, cunhantã.
Fêmea, sentindo esse cheiro,
Piripiri perseguia,
Mas o duende matreiro,
No ar, desaparecia.
Quando uma moça o prendia,
Hábil nas artes da caça,
Ele, no vento, sumia
Virado nuvem, fumaça.
Pajé Supi disse a elas
Como fazer pra prendê-lo.
Tinha que atá-lo, as donzelas,
Com fios, seus, de cabelo.
Mas, mesmo assim, esse ente,
Com seu aroma tão doce,
Adormeceu, de repente,
As cunhantãs, e evolou-se.
No seu lugar uma planta
Nasceu, do chão, com seu cheiro,
O mesmo cheiro que encanta,
O mesmo olor feiticeiro.
Piripiri deu sumiço.
Virou estrela, lampejo.
Deu pra cunhãs o feitiço
De ter, do índio, o desejo.
Hoje, de amor, se tem sede,
Cunhã já põe priprioca,
Que prende o macho na rede,
E o seu marido na oca.
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Pronto, estão apresentados ao meu querido PCP (que mudança de tratamento, hein!).
Nas aulas seguintes de poesia, começamos uma nova unidade. Estamos vendo agora autores contemporâneos que usam formas fixas, principalmente o soneto. Até agora, conheci Ivan Junqueira e Geraldo Carneiro. Xonei doidada! Especialmente por esse último, que é mais pós-moderno, como caracterizou o sábio Professor E. Mas a minha história com esses senhores fica para uma próxima vez. Por ora, fico apenas com os versos do Vinícius (no título) e lá me vou (andarsine maldito!) assobiando no ritmo da bossa, em paz com minhas emoções.
A Fada do Siso
(Passando cola em pleno vestibular.)
Ler um bom autor do qual você nunca ouviu falar até então dá uma emoção fantástica. Como descobrir um continente, ou a cura de uma doença, ou um corte de cabelo que até te deixa com uma cara simpática.
Que lado apaixonado.
ResponderExcluirVou ter poesia brasileira no segundo semestre desse ano! Isso Su, junte-se ao lado negro da força!
ResponderExcluirtb quero fazer umas aulas dessas,
ResponderExcluire saravá pra vc! rs
A Su empolgadinha com autores fica muito engraçadinha...
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