Ouves o grito dos mortos?


Marielle virou símbolo. Não por ser uma exceção, mas porque conferiu um rosto para esses tantos brasileiros cuja aniquilação foi tão completa que quase duvidamos de que existiram. Marielle nos obriga a lidar com o fato de que muita gente neste país morre simplesmente por desejar justiça social. E mais: lembra que essa violência atinge todos nós. Há quanto tempo não vivemos amedrontados e impotentes, sem ousar esperar algo melhor do futuro? Até a esperança parece ter sido sequestrada.

O Brasil é um dos países que mais matam ativistas dos direitos humanos e arrisco palpitar que seja também um dos que mais apagam sua memória. Quando se proíbe que certos temas sejam debatidos nas instituições de ensino, quando se dissemina a desinformação, quando se chama de “mimimi” toda narrativa de opressão, constrói-se uma máquina de apagamento da memória. O estado é o principal interessado em fazer esquecer, porque é o principal responsável pela violência. Seja apertando o gatilho, seja incentivando que o façam, seja permitindo que assassinos fiquem impunes.

Esses dias, quando assisti ao filme “O silêncio dos outros”, que trata das vítimas da ditadura franquista, fiquei muito alabada por perceber que não é só aqui que isso acontece. Será uma tendência geral desta época? Aqueles que foram perseguidos e torturados ou que tiveram entes queridos assassinados por “divergência ideológica” ainda têm que calar a boca se não quiserem conviver com o estigma de loucos, obsessivos, vitimistas. Não há nenhuma outra opção? “É preciso seguir em frente, construir uma nova nação, não repetir os erros passados...” é o que recomenda o discurso oficial. Nós bem que tentamos, mas como construir uma nação nova quando o executivo, o legislativo e o judiciário conservam muitos elementos dos velhos tempos?

E assim nós vamos recalcando essa angústia. A exigência de trabalhar e de ser produtivo é para hoje, haja máscara de normalidade para enfrentar as demandas diárias sem desabar em lágrimas! Nunca sobra tempo para viver o luto. Mas é possível construir algo sólido sobre bases tão débeis? Penso na casa descrita por Cornélio Penna no romance “Fronteira”: “Os escravos, que a edificaram, trabalhavam dia e noite, espancados pelos longos chicotes de pontas de ferro dos feitores, e o sangue que corria de suas feridas misturava-se ao cimento e ao reboco, em grandes golfadas”. Sinto que o Brasil é essa casa de horrores, casa onde habitamos e tentamos ser felizes, apesar das manchas rubras nas paredes.

Só posso testemunhar esse horror em um nível pessoal. Nos últimos meses, tenho tido crises de choro e pesadelos. Durante as eleições, sonhei que meus amigos gays eram executados e eu assistia a tudo isso presa num quarto. No último sonho de que me lembro, há dois dias, meu quarto estava cheio de mortos, nenhum conhecido. Eles só ficavam lá parados me olhando, ocupando tudo, me paralizando. Ao ler a coluna mais recente da Eliane Brum, entendi que era meu inconsciente me cobrando. Um dia meus filhos ou meus alunos perguntarão “mas você não fez nada?”, como eu já me pergunto hoje. Eu gostaria de responder “claro que fizemos, foi por isso que aquele horror acabou”.

Mas o que há para se fazer? Comecei a pensar em hipóteses realistas.

Militância digital? Eu seria aniquilada pelos trolls.

Manifestação pública? Eu só tenho uma meia dúzia de contatos nesta cidade.

Literatura? Sim, pode levar a uma catarse pessoal, além de ser uma preservação da memória deste tempo para as gerações futuras, mas me sinto tão isolada neste momento... precisava de algum contato humano mais imediato. Queria algo mais visceral, mostrar no meu corpo o dilaceramento do que sentia por dentro.

Só sabia isso, que faria algo no corpo. Um corpo que exige seu espaço, que não deixa esquecer.

Hoje, aniversário do assassinato de Marielle e Anderson, acordei com uma ideia mais concreta. Eu pedi a uma colega de Artes Visuais que escrevesse no meu colo um verso de Herberto Helder que vinha me assombrando há uns dias (“― ouves o grito dos mortos?”) e saí convidando pessoas na universidade para uma pequena intervenção. A partir de uma lista de ativistas assassinados, eu pedi às pessoas que lessem em voz alta um pequeno texto sobre cada caso e depois escrevesse o nome dessa pessoa no meu corpo. Elas emprestariam a voz e eu o corpo para que aquele sacrifício não fosse esquecido. Eu não sabia bem o que queria quando comecei, mas logo percebi que eu tentava criar espaços de confiança, algo como “toma meu corpo, estou desarmada”, para que eu pudesse expressar diante de alguém a dor que vinha sentindo há tantos meses e que ainda não tinha nome nem forma.

Eu não queria ensinar nada a ninguém, eu queria estabelecer laços, criar uma zona de intimidade. Precisava atas pontas soltas. Mais uma vez, Herberto Helder me traduz melhor do que ninguém:

“Quando
as veias dos mortos fazem um nó furioso
com as minhas veias,
a voz
costura-se com as linhas de sangue
da sua fala. [...]”

Coincidentemente, hoje foi um daqueles dias escaldantes, fazendo com que a tinta escorresse, virasse borrões quase ilegíveis. Achei a metáfora perfeita para a questão das políticas de memória. A tendência do tempo é apagar tudo sem distinção, por isso cabe a nós renovar os esforços de preservação da história. Quais narrativas estão sendo contadas e quais estão sendo apagadas? Esse é um território em disputa. Se não participamos desse embate contando nossas narrativas, temos que estar cientes que outros não deixarão de impor as suas.

Repito, foi tudo uma questão pessoal. Só eu sei os olhares e as palavras que recebi, bons e ruins. Foi intenso e exaustivo, não consegui fazer isso por mais do que poucas horas. Foi terrível colocar o meu corpo à mostra no espaço público, não via a hora de me lavar para voltar a ser invisível, poder cuidar dos meus deveres que só se acumulavam enquanto eu vagava estampando nomes de mortos. Mas eu precisava expressar aquilo, senão enlouqueceria. Se a gente lembra sozinha, corre o risco de achar que é delírio. Só na conversa com o outro é que essas experiências ganham corpo e podem se transformar em memória.

Não sei como terminar este relato. Talvez porque meu inconsciente ainda não esteja satisfeito. É preciso achar novas formas de expressar e de aproximar. No momento, este é principal desafio: reestabelecer o diálogo, a confiança no outro e os rituais de catarse coletiva.

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