Janelas provisórias
Eu tenho duas janelas, enormes, pelas quais o sol da manhã inunda meu quarto-cozinha, o que a gente diferenciada gosta de chamar de "loft", mas, para bom entendedor, ainda é uma "quitinete". Esse foi o principal motivo para eu ter me mudado para cá. A vista anterior, um muro e uma gaiola com uma calopsita berrando, quando penso nela, nas raras vezes em que faço isso, parece irreal, como um pesadelo que se dissolveu no momento em que abri os olhos, despertada por este sol farto que me toca todas as manhãs.
Quando abro a janela, espero pelo tropel de um cão só. É Pólux que vem me saudar, esperançosa de que eu a convide para o café da manhã. Ultimamente o pão tem sido pouco, mas ela sempre vem. Não importa a hora, ela se levanta e vem, olhando para cima e lambendo seu focinho castanho. Se não tenho comida em casa, lanço-lhe beijos, mesmo sabendo que ela preferiria um bolo. Seu favorito é o de mexerica, mas ela aceita qualquer oferta e volta a dormir.
Esta é uma janela provisória. É boa, só não sei por quanto tempo poderei continuar aqui. Me preocupa deixar quase todo o meu salário nas mãos do senhorio, que, aliás, nem honesto é. Tenho pesadelos com as coisas que ele vai me cobrar quando eu anunciar que vou sair, por isso, ando nas pontas do pés, quase alcanço o milagre da levitação.
Cada mês digo que será o último, mas ir para onde? Até procurei outros lugares, porém ficavam distantes do meu trabalho, em bairros mais perigosos, apartamentos tomados pelo mofo ou pelas traças, alguns sem acesso a qualquer raio solar. Imagine acordar em completo breu, sem poder olhar para o céu? Abrir a janela e dar de cara com o vizinho fazendo sei lá o que ele faz pela manhã ou, até pior, com uma parede estilo Bartleby? E o que era difícil de acreditar: custavam quase tão caro quanto este daqui, mesmo não tendo sol nem Pólux.
Eu não deveria considerar a Pólux. Ela não é minha, nem sei seu nome real. Seu dono é o vizinho do prédio ao lado, com quem nunca conversei, mas sobre quem eu sei até bastante coisa, pois a sacada do seu apartamento fica de frente para minha janela. É lá que mora essa que eu chamo de Pólux. Quando eu abrir uma janela diferente, o que pode acontecer a qualquer momento, ela não estará mais lá.
Se o bolo que cai do céu é incerto para ela, também o é para mim. Este trabalho é temporário, como foram os três últimos, e nem permite poupar para sobreviver à transição para o próximo trabalho provisório. Nesta situação, eu deveria gastar tanto dinheiro para ter sol pela manhã e um pouco de segurança para caminhar do ponto de ônibus até minha porta? O sol ou o bolo? Quando não tem bolo, Pólux passa seus dias de barriga para cima, tostando sua pele rosada e perfumando os pelos cor de Saara. E eu passo meus dias, quando não estou no trabalho, olhando-a.
Faz pouco tempo, eu a flagrei com a cabeça recostada sobre a mureta da sua sacada, olhando melancólica para a rua. Então me dei conta de que a janela da Pólux não se abria para uma Pólux, mas para um muro. Da minha janela pude ouvir seu pachorrento suspiro de cão.
***
Quando escrevi esse conto, pensei em nomeá-lo "Brasil 2019", pois acho que ele expressa o sentimento de insegurança e desesperança generalizado do brasileiro, sobretudo da classe média, no contexto atual. Mudei de ideia como um gesto de otimismo: "eles passarão, eu passarinho".
Quando abro a janela, espero pelo tropel de um cão só. É Pólux que vem me saudar, esperançosa de que eu a convide para o café da manhã. Ultimamente o pão tem sido pouco, mas ela sempre vem. Não importa a hora, ela se levanta e vem, olhando para cima e lambendo seu focinho castanho. Se não tenho comida em casa, lanço-lhe beijos, mesmo sabendo que ela preferiria um bolo. Seu favorito é o de mexerica, mas ela aceita qualquer oferta e volta a dormir.
Esta é uma janela provisória. É boa, só não sei por quanto tempo poderei continuar aqui. Me preocupa deixar quase todo o meu salário nas mãos do senhorio, que, aliás, nem honesto é. Tenho pesadelos com as coisas que ele vai me cobrar quando eu anunciar que vou sair, por isso, ando nas pontas do pés, quase alcanço o milagre da levitação.
Cada mês digo que será o último, mas ir para onde? Até procurei outros lugares, porém ficavam distantes do meu trabalho, em bairros mais perigosos, apartamentos tomados pelo mofo ou pelas traças, alguns sem acesso a qualquer raio solar. Imagine acordar em completo breu, sem poder olhar para o céu? Abrir a janela e dar de cara com o vizinho fazendo sei lá o que ele faz pela manhã ou, até pior, com uma parede estilo Bartleby? E o que era difícil de acreditar: custavam quase tão caro quanto este daqui, mesmo não tendo sol nem Pólux.
Eu não deveria considerar a Pólux. Ela não é minha, nem sei seu nome real. Seu dono é o vizinho do prédio ao lado, com quem nunca conversei, mas sobre quem eu sei até bastante coisa, pois a sacada do seu apartamento fica de frente para minha janela. É lá que mora essa que eu chamo de Pólux. Quando eu abrir uma janela diferente, o que pode acontecer a qualquer momento, ela não estará mais lá.
Se o bolo que cai do céu é incerto para ela, também o é para mim. Este trabalho é temporário, como foram os três últimos, e nem permite poupar para sobreviver à transição para o próximo trabalho provisório. Nesta situação, eu deveria gastar tanto dinheiro para ter sol pela manhã e um pouco de segurança para caminhar do ponto de ônibus até minha porta? O sol ou o bolo? Quando não tem bolo, Pólux passa seus dias de barriga para cima, tostando sua pele rosada e perfumando os pelos cor de Saara. E eu passo meus dias, quando não estou no trabalho, olhando-a.
Faz pouco tempo, eu a flagrei com a cabeça recostada sobre a mureta da sua sacada, olhando melancólica para a rua. Então me dei conta de que a janela da Pólux não se abria para uma Pólux, mas para um muro. Da minha janela pude ouvir seu pachorrento suspiro de cão.
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Quando escrevi esse conto, pensei em nomeá-lo "Brasil 2019", pois acho que ele expressa o sentimento de insegurança e desesperança generalizado do brasileiro, sobretudo da classe média, no contexto atual. Mudei de ideia como um gesto de otimismo: "eles passarão, eu passarinho".
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