Boicotar a Amazon


Talvez vocês já tenham ouvido falar que o patrimônio líquido de Jeff Bezos, o dono da Amazon, está próximo de atingir 1 trilhão de dólares. A pandemia só reforçou o modelo de negócios que essa empresa tinha estabelecido com tanta competência -- grande oferta de produtos, preços atraentes e entrega ágil --, mas vocês não acham assustador uma única pessoa deter uma fatia tão grande do mercado? A Amazon praticamente engoliu o mercado livreiro, basta ver quantas livrarias fecharam as portas nos últimos anos, mesmo as megastores, e começa a fazer o mesmo com o comércio de produtos variados (eletrônicos, papelaria, vestuário, tudo o que se puder imaginar). Quando ela for a única empresa, o que a forçará a manter a variedade de produtos e os preços baixos? Daí a necessidade de o consumidor também fazer as contas a longo prazo. Esses dez reais que você economiza agora custarão quanto no futuro?

É por isso que, mesmo tendo me servido tanto das vantagens da Amazon no passado, hoje estou preferindo comprar direto de editoras e livrarias. Se essas quebrarem, eu também perderei, já que a oferta de livros se reduzirá aos best-sellers. Agora, eu também gostaria de que as editoras e livrarias oferecessem uma contrapartida. Um exemplo interessante é a belo-horizontina Chão da feira, que possui uma coleção excelente de ensaios disponíveis para download gratuitamente, a série Caderno de leituras e a revista Gratuita.

Como leitora compulsiva, eu consumo livros de todas as formas: empréstimo em biblioteca, empréstimo de amigos, xerox, download, compra em livraria, compra em sebo, compra on-line. Só não apelei ainda para o furto, porque creio que a ligação de uma pessoa com seu livro é sagrada e, claro, porque procuro respeitar as leis. Agora, vocês acham que downloads piratas são, do ponto de vista moral, furto?

Eu acredito que não.

Se a gente pode emprestar livros gratuitamente na biblioteca, considero os repositórios online como bibliotecas mundiais ultrademocráticas. Quando eu realmente gosto do livro ou o uso bastante para o trabalho, eu, mesmo tendo acesso à versão digital, compro. E, vejam, meu trabalho basicamente envolve livros, então preciso ter centenas deles à mão para preparar aulas e fazer minha pesquisa.

Não é a pirataria que está afundando o mercado livreiro, mas a falta de incentivo à leitura e o modelo atual de negócios. Supondo um cenário em que todos os brasileiros leiam infinitos livros baixados e compre um mísero livro por ano, isso já resultaria num faturamento maior do que a atual. Em 2019, foram vendidas  41,5 milhões de unidades (quantos desses foram vendidos pela Amazon? Não encontrei essa informação...), o que dá um livro para cada 5 brasileiros, ou 0,2 livros por pessoa.

E outra questão que, para mim, não faz o menor sentido: por que, quando a gente compra o livro impresso, não tem direito também à versão digital?

Quanto ao modelo de negócios. Diferente da Chão da feira, que tem edições caprichadas e acessíveis (não me pagaram nada, sou só uma fã), muitas editoras apostam em edições caras. Eu fico revoltada, por exemplo, com a Carambaia, que transforma livros em obras de arte, mas não oferece versões mais acessíveis do mesmo título, com as raras exceções da Coleção Acervo, que cobre pouquíssimos títulos. Até hoje não consegui ler "Ifigênia" por causa disso...

Outro problema é que as livrarias costumam trabalhar com preços tabelados e não estão dispostas a oferecer descontos para os clientes assíduos ou para estudantes.

Acredito que seria necessário também algum investimento do governo (alô, BNDES, bora socorrer não só as Fribois e Sadias da vida?) para a modernização dos negócios, para que as livrarias menores também consigam trabalhar com vendas online e assim ampliar sua clientela. Sempre penso nas milhares de cidades brasileiras que não têm nem uma banca de jornal, quanto mais uma livraria. Se houver um trabalho de formação de leitores no ensino público, existe todo um mercado potencial aí que hoje não tem acesso a muitos bens culturais além dos oferecidos pelas mídias eletrônicas.

Vim apenas para recomendar os Cadernos de Leituras e acabei me estendendo, como sempre.

Para dar uma aliviada, termino com um pequeno vídeo do poeta Leonardo Fróes que não tem nada a ver com o assunto, mas tem tudo a ver com tudo.



Me identifiquei, porque também tenho preferido conversar com árvores, pedras e lagartixas.

***

Adendo em 28/06/2020: por coincidência, lendo o Suplemento Pernambuco deste mês, outra publicação maravilhosa que disponibiliza uma versão online gratuita, acabo de ter notícias deste livro, que parece interessante para o debate: Contra a Amazon, de Jorge Carrión.

Trecho da entrevista de Carrión ao Suplemento:

"A Amazon não paga impostos nos países onde opera, nem respeita os ritmos, os rituais, as formas de ser, o urbanismo das pessoas que ali vivem. É simples assim. Se você quer defender sua economia e seu estilo de vida, é melhor que você não coopere com a Amazon."

Leia a entrevista na íntegra aqui.

Comentários

  1. Só usei a Amazon us pra comprar uns blu rays há alguns anos, quando o envio pelo correio ainda compensava. Pra livros, sempre preferi a Saraiva, já que mandava pra loja e não pagava frete.

    Acho que download pirata é furto sim. Mas é tipo aquele furto de pão: quem vai condenar, moralmente, quem rouba um pão pra matar a fome? Se bem que nem todo download é pra matar a fome, tem gente que é só mesquinha mesmo, pode comprar de boa e baixa mesmo assim. Não que esses iriam fazer diferença nas vendas, são coisas diferentes. Fazer algo errado só porque não vai influenciar em nada o mercado não quer dizer que deixa de ser errado.

    Eu faço as coisas errado e não me importo. Jack Sparrow 4ever!

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    1. "Fazer algo errado só porque não vai influenciar em nada o mercado não quer dizer que deixa de ser errado", ok, isso derruba meu argumento econômico. Maaaas ainda acho que moralmente não é errado, pois acredito que os bens culturais deveriam estar acessíveis a todos, já que é para esclarecimento geral. Acho criminoso que alguém passe por esta vida sem ter tido qualquer contato com as grandes obras produzidas pela humanidade, sem ter tido a oportunidade de conhecer perspectivas diferentes da sua. Não consigo conceber arte e cultura restritas a livrarias de shoppings e clubinhos de ricos metidos a besta.

      Em resumo: acesso amplo e irrestrito. Que monetarizarem a posse ao objeto-livro, beleza, mas não o acesso a seu conteúdo.

      E, no fim das contas, quem fica com os ganhos da propriedade intelectual geralmente não é o autor mesmo.

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    2. "acredito que os bens culturais deveriam estar acessíveis a todos, já que é para esclarecimento geral."

      Aí depende.

      Bens culturais é um termo muito genérico. O que vale pra um não vale pra outro.

      Uma coisa é você pensar em gente grande, que já é conhecido. Um Paulo Coelho da vida, que distribui seus livros em pdf de graça.

      Outro é um autor pequeno. Esse vai trabalhar só pelo amor a arte? Só pra ter possibilidade de ser reconhecido e se tornar, eventualmente, grande? Acho isso até mais cruel, isso é deixar de aplicar um eventual efeito cauda longa no trabalho dele, para colocar num darwinismo de mercado.

      Acredito que o autor deveria escolher como seu conteúdo pode ser acessado. Isso é o mais justo. Quem procura só ser conhecido, libera. Quem quiser cobrar, cobra. Quer que o seu conteúdo seja elitizado? Paciência. Não acho justo impor a quem quiser ser elitizado deixar de ser elitizado. Defendo o direito das pessoas serem babacas, desde que dentro dos limites da lei.

      E seu argumento de que os ganhos da propriedade intelectual não ficam geralmente com o autor, acho meio simplista. A cadeia de produção faz com que o autor fique com uma pequena porcentagem, isso é verdade e hoje até conseguimos fazer alguma coisa sobre isso, com a internet, com outros modelos de distribuição. Mas, mesmo que no modelo tradicional a porcentagem seja mínima, no modelo Jack Sparrow a porcentagem de zero é zero. Pior, né. Ou não, dependendo do que o autor queira, afinal.

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    3. Acho que estamos pensando em situações diferentes, então vou especificar. Tá com tempo para isto? Hehe.

      Uma coisa são os autores vivos que escrevem para entreter, ficar ricos ou famosos. Nesse grupo, entram os best-sellers eróticos, feitos na medida para serem adaptados para o cinema, alguns livros de ficção e fantasia que idem, manuais do tipo “enriqueça”, “emagreça”, “seja feliz” etc., biografia de youtuber, conselhos espirituais para o agora e tantos outros... Se as pessoas quiserem vender ou distribuir, tanto faz, é direito delas. O tempo vai passar, e esse tipo de livro não fica para a posterioridade, então escritores e editoras têm mais que ganhar o deles na oportunidade que surgir.

      Outra coisa são os livros que constituem o patrimônio cultural da humanidade, aqueles que despertam interesse mesmo tendo passado séculos de sua escrita: Homero, textos sagrados no geral, lírica e dramaturgia greco-romana, tratados medievais, romances de cavalaria, romances modernos... e chegando até à literatura marginal atual. São esses que deveriam ser democratizados. Claro que, além do autor, existe um trabalho de tradução e editoração que precisa ser remunerado, mas, se for feito no âmbito das universidades, acho que deveria ser um preço módico. As editoras universitárias, sobretudo as gringas, cobram um absurdo, sendo que esses profissionais já são remunerados dentro das instituições de pesquisa.

      Isso sem contar casos de autores que até já morreram, mas cuja obra é quase impossível de ser encontrada em bibliotecas, como é o caso de Herberto Helder e Marina Tsvetaieva. O primeiro, considerado o grande poeta português desde Pessoa, está sendo republicado pela Tinta-da-China Brasil, que cobra 59 reais num livro de 64 páginas e não faz descontos. Um livro que não precisou ser traduzido e nem apresenta um mísero trabalho crítico em cima, nada que justifique o preço. A segunda sai pela Martins Fontes, que cobra 120 reais num compilado de cartas e trechos de diários num trabalho gráfico péssimo, com edições de baixa qualidade e ruins de serem manuseadas (sabe aquela cola dura que não deixa abrir o livro direito sem ele descolar da lombada? Pois é...). Não são preços praticáveis nem para pesquisadores, quanto mais para a população em geral, que já não está lá muito interessada em leitura.

      Esses últimos, a meu ver, deveriam ser distribuídos em três modalidades: download gratuito, edição econômica e, caso a editora queira lucrar mais, edição de luxo (daí mete a capa dura, o design diferenciado, o que eles quiserem). Minha revolta é que algumas editoras só apresentam essa última opção, e isso, a meu ver, justifica o download pirata.

      Desculpe o textão, mas é que essa questão do acesso é realmente delicada para mim. Há muitos livros que eu não consigo ler na escola pública com meus alunos, porque eles não são acessíveis. Isso é o que chamo de exclusão cultural. Reaproveitando sua metáfora, o livro é um pão espiritual. Já pensou o que seria do povo se não houvesse pão francês, apenas os tais pães de fermentação natural? O best seller, nessa metáfora, seria o pãozinho doce, que o povo sempre dá um jeito de comprar, mesmo não estando no orçamento, porque ele é uma delícia e torna o dia melhor.

      (E você sabe que este tipo de discussão, baseada em argumentos e não em ofensas, é ilegal na internet, né? A qlqr momento, a polícia de trolls vai bater aí...)

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    4. Não se preocupe com trolls, ningúem mais lê blog, muito menos comentários de blogs. Migraram todos pro youtube e instagram.

      Alguns raros ainda habitam comentários de portais...

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  2. Em se tratando de livros, mas obras em geral, que são patrimônios da humanidade: se esses forem os clássicos, não tem problema. Já caíram em domínio público. O que é cobrado, nesses casos, é a tradução (que tem um copyright diferente da obra original), que como você mesmo aponta, deveria ser remunerado. Mas as obras, em si, são livres. Vide o Machado de Assis, que tá tudo liberado pra download não pirata.

    Agora, no caso de autores que ainda não estão só no pó (geralmente vivos) ou aqueles que ainda não cairam no domínio público, aí discordo. Deveria ser decisão do autor ou do espólio. O que podemos discutir é o tempo do domínio público, que, provavelmente concordo com você, é muito extenso. E, vide Disney, ainda querem estender mais ainda.

    (Abrindo um parêntese: por que raios extenso é com x e estender é com s?)

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    1. Boa pergunta, já que ambos vêm da mesma raiz latina, que se grafa com x. Pelo que eu pesquisei, a diferença é devida provavelmente ao momento em que essas palavras entraram na língua portuguesa.

      Estender veio primeiro para o português, quando ainda não tinha norma ortográfica (veja a carta de Caminha, por exemplo, ele grafa do jeito que lhe dá na telha, não tinha corretor ortográfico e ninguém ligava), já extensão teria vindo depois e já numa época em que o português passava por uma homogeneização com tendência a retomar o latim clássico. É por esse fenômeno que nós usamos século, que é bem próximo do original latino seculum, em vez de seglo, que acompanharia mais a evolução natural da língua. O mesmo vale para o par segredo (origem popular) e secreto (origem erudita). Em resumo, falar parecido com o latim era mais chique no século XVIII, então muita palavra ficou presa nessa grafia antiga, enquanto outras seguiram seu ciclo natural de reescrita pelos falantes.

      Desculpe se expliquei mal, meus estudos de latim são puramente amadores.

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    2. Reforma ortográfica mudou tanta coisa, podia ter mudado essas coisas também.

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    3. E bem lembrado: direitos autorais poderiam ser mais breves. Tem uns herdeiros que vou te falar... pedem preços impraticáveis ou não publicam simplesmente. Taí outro crime, transformar patrimônio público em informação sigilosa.

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    4. Sobre reforma ortográfica: concordo. Ponto de vista egoísta, agora já aprendi assim, para mim não faz diferença e tb não ligo de consultar dicionário. Do ponto de vista do ensino, é um saco ensinar ortografia, toma um tempão que eu preferiria gastar com leituras literárias. No fundo é só decoreba, porque as explicações etimológicas quase nunca funcionam com crianças.

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