Paixões à parte, terrorismo se combate com inteligência
Depois que eu relembrei o caminho das pedras, fiquei com vontade de voltar.
Como comentei no post anterior, troquei as redes sociais pela mídia tradicional e assim venho me sentindo melhor informada. Em vez de replicar memes e incomodar meus amigos e parentes com mensagens alarmistas no Zap, acho que é hora de fazer uma autocrítica para tentar entender como chegamos a este ponto. Afinal, se tivemos 13 anos de governos supostamente de esquerda, por que de repente a extrema direita parece tão mais atrativa no Brasil -- e também no mundo? Esse processo não é súbito, vem ocorrendo há pelo menos uma década, é complexo e exige um pouco mais de dedicação da nossa parte para compreendê-lo. Quem explica bem isso é o sociólogo português Boaventura de Sousa Santos. Gostaria de sugerir uma entrevista que achei particularmente interessante do Canal do Le Monde Diplomatique. Em geral, não gosto dos textos deles, acho a linguagem excessivamente acadêmica e panfletária, mas hoje, quando descobri o canal no Youtube, fiquei satisfeita com o equilíbrio que atingiram ali.
Para quem estiver com um pouco mais de pressa, começo indicando dois videozinhos desse canal, ambos curtos e bem didáticos. Um explica o aumento do eleitorado da extrema-direita nos Estados Unidos (fiquem à vontade para relacionar com o Brasil), o outro, a proposta de militarização dos colégios públicos brasileiros. Por fim, publico a referida entrevista e, na sequência, uma lista dos pontos que me chamaram a atenção nela. O vídeo exigirá quase uma hora do seu tempo, mas garanto que vale a pena, encare como estudo e autoaperfeiçoamento.
O discurso do Boaventura provavelmente encontrará grande resistência de quem, por algum motivo, odeia ideologias identificadas como "esquerdistas". Se esse for o seu caso, peço que faça um pequeno-grande esforço de boa vontade e atente para os argumentos econômicos, históricos, jurídicos, pois não há nada de leviano ali. Quanto aos já simpáticos ao discurso dele, me parece que o essencial é o esforço de autocrítica da esquerda. Não é questão de salvar um partido ou um líder político, mas de lutar pela preservação da democracia.
Alguns pontos que me chamaram a atenção (brainstorm):
- É o capitalismo financeiro que controla as democracias hoje. O voto pró-família, pró-vida, pró-sei lá o que, na verdade elegerá o candidato que mais agrada aos especuladores, basta ver como as bolsas responderam ao primeiro turno. Até os industriais, aqueles que tiram seu lucro sobre a produção de mercadorias, estão em maus lençóis, pois quem manda mesmo no Brasil e no mundo são os especuladores, os que não produzem coisa alguma e até lucram com a quebra de países.
- A resistência está fragmentada. Só quando percebermos que o capitalismo, o racismo e o hetero-patriarcalismo são forças que atuam juntas, veremos a importância de unir os movimentos de combate a eles. A segregação baseada em discursos identitários pode funcionar num nível de afirmação pessoal, mas no âmbito político enfraquece a representação. Não é o caso de extinguir tais discursos, mas de unir as minorias: mulheres, negros, gays, trans, indígenas, sem-tetos etc., nossa luta é a mesma.
- Há ali uma crítica aos governos de esquerda latino-americanos: não promoveram mudanças nas estruturas sociais, deram migalhas aos pobres com o enriquecimentos dos ricos. Fizeram o jogo do capitalismo financeiro e foram cuspidos no momento em que surgiram outras propostas que atendiam melhor à especulação (vide Temer e sua reforma trabalhista).
- A democracia precisa ser revolucionária para não se deixar tomar pelo reacionarismo.
- O judiciário no Brasil se mostrou dependente do poder político. Está havendo um esvaziamento da democracia por meio de uma manipulação excessiva dos sistema judiciário, o qual executa arbitrariedades que só seriam possíveis em uma ditadura (o julgamento do Lula, com suas idas e vindas é emblemático). Mais importante do que servir à justiça, tratou-se de afastar um político habilidoso que tinha grandes chances de vencer o pleito ainda no primeiro turno.
- Neste momento, a pauta da esquerda já não é defender o socialismo, mas atuar com cautela e em defesa da democracia, algo que a direita agora não se encontra em posição de fazer.
Reclama-se muito que a esquerda é incapaz de dialogar com o povo, que fala difícil. Claro que chegar no Zap com um discurso estilo Boaventura não vai atingir a quem tem demandas mais urgentes (desemprego, violência, endividamento), contudo minha proposta é mais de autocrítica mesmo. É preciso saber no que a esquerda falhou, conhecer os donos do poder, ter clareza do que realmente está em jogo, senão viveremos à espera do líder que nos salve, seja ele o evangélico da bala ou o esquerdista de barba. Salvemo-nos nós mesmos, a começar libertemo-nos da ignorância.
Como comentei no post anterior, troquei as redes sociais pela mídia tradicional e assim venho me sentindo melhor informada. Em vez de replicar memes e incomodar meus amigos e parentes com mensagens alarmistas no Zap, acho que é hora de fazer uma autocrítica para tentar entender como chegamos a este ponto. Afinal, se tivemos 13 anos de governos supostamente de esquerda, por que de repente a extrema direita parece tão mais atrativa no Brasil -- e também no mundo? Esse processo não é súbito, vem ocorrendo há pelo menos uma década, é complexo e exige um pouco mais de dedicação da nossa parte para compreendê-lo. Quem explica bem isso é o sociólogo português Boaventura de Sousa Santos. Gostaria de sugerir uma entrevista que achei particularmente interessante do Canal do Le Monde Diplomatique. Em geral, não gosto dos textos deles, acho a linguagem excessivamente acadêmica e panfletária, mas hoje, quando descobri o canal no Youtube, fiquei satisfeita com o equilíbrio que atingiram ali.
Para quem estiver com um pouco mais de pressa, começo indicando dois videozinhos desse canal, ambos curtos e bem didáticos. Um explica o aumento do eleitorado da extrema-direita nos Estados Unidos (fiquem à vontade para relacionar com o Brasil), o outro, a proposta de militarização dos colégios públicos brasileiros. Por fim, publico a referida entrevista e, na sequência, uma lista dos pontos que me chamaram a atenção nela. O vídeo exigirá quase uma hora do seu tempo, mas garanto que vale a pena, encare como estudo e autoaperfeiçoamento.
O discurso do Boaventura provavelmente encontrará grande resistência de quem, por algum motivo, odeia ideologias identificadas como "esquerdistas". Se esse for o seu caso, peço que faça um pequeno-grande esforço de boa vontade e atente para os argumentos econômicos, históricos, jurídicos, pois não há nada de leviano ali. Quanto aos já simpáticos ao discurso dele, me parece que o essencial é o esforço de autocrítica da esquerda. Não é questão de salvar um partido ou um líder político, mas de lutar pela preservação da democracia.
Alguns pontos que me chamaram a atenção (brainstorm):
- É o capitalismo financeiro que controla as democracias hoje. O voto pró-família, pró-vida, pró-sei lá o que, na verdade elegerá o candidato que mais agrada aos especuladores, basta ver como as bolsas responderam ao primeiro turno. Até os industriais, aqueles que tiram seu lucro sobre a produção de mercadorias, estão em maus lençóis, pois quem manda mesmo no Brasil e no mundo são os especuladores, os que não produzem coisa alguma e até lucram com a quebra de países.
- A resistência está fragmentada. Só quando percebermos que o capitalismo, o racismo e o hetero-patriarcalismo são forças que atuam juntas, veremos a importância de unir os movimentos de combate a eles. A segregação baseada em discursos identitários pode funcionar num nível de afirmação pessoal, mas no âmbito político enfraquece a representação. Não é o caso de extinguir tais discursos, mas de unir as minorias: mulheres, negros, gays, trans, indígenas, sem-tetos etc., nossa luta é a mesma.
- Há ali uma crítica aos governos de esquerda latino-americanos: não promoveram mudanças nas estruturas sociais, deram migalhas aos pobres com o enriquecimentos dos ricos. Fizeram o jogo do capitalismo financeiro e foram cuspidos no momento em que surgiram outras propostas que atendiam melhor à especulação (vide Temer e sua reforma trabalhista).
- A democracia precisa ser revolucionária para não se deixar tomar pelo reacionarismo.
- O judiciário no Brasil se mostrou dependente do poder político. Está havendo um esvaziamento da democracia por meio de uma manipulação excessiva dos sistema judiciário, o qual executa arbitrariedades que só seriam possíveis em uma ditadura (o julgamento do Lula, com suas idas e vindas é emblemático). Mais importante do que servir à justiça, tratou-se de afastar um político habilidoso que tinha grandes chances de vencer o pleito ainda no primeiro turno.
- Neste momento, a pauta da esquerda já não é defender o socialismo, mas atuar com cautela e em defesa da democracia, algo que a direita agora não se encontra em posição de fazer.
Reclama-se muito que a esquerda é incapaz de dialogar com o povo, que fala difícil. Claro que chegar no Zap com um discurso estilo Boaventura não vai atingir a quem tem demandas mais urgentes (desemprego, violência, endividamento), contudo minha proposta é mais de autocrítica mesmo. É preciso saber no que a esquerda falhou, conhecer os donos do poder, ter clareza do que realmente está em jogo, senão viveremos à espera do líder que nos salve, seja ele o evangélico da bala ou o esquerdista de barba. Salvemo-nos nós mesmos, a começar libertemo-nos da ignorância.
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