#liberteofuturo
Apesar de meu grande interesse pela esfera pública -- eu era aquela adolescente que lia o caderno de política do jornal antes dos demais e me metia na conversa de adultos para corrigi-los, depois virei jornalista, participei do movimento estudantil... --, faz uns anos que me desiludi de me engajar na política. O motivo é muito simples: quando alguém adere a um coletivo, é tragado por ele. Passa a vestir como se fossem seus os méritos do movimento e não precisa assumir a responsabilidade pelas falhas dele. As engrenagens da massificação e da trituração de individualidades que os governos autoritários de direita e esquerda exemplificam tão bem... É por esse motivo que Simone Weil é contra partidos políticos (recomendo fortemente a leitura do ensaio "Pela supressão dos partidos políticos"), além do fato de que essas organizações, a médio e longo prazo, acabam abandonando suas ideologias iniciais pelo projeto exclusivo de manutenção do poder. Todo partido é um PFL (Partido para Fins Lucrativos) enrustido.
Quando me pedem para assinar listas a favor da criação de um novo partido, eu digo que sou contra todos os partidos e, antes de ter a chance de argumentar o porquê, já recebo um olhar condenatório, como se eu fosse uma alienada ou sei lá o que. Já que aqui eu posso falar à vontade, vou explicitar qual é minha posição política. Mesmo ninguém tendo perguntado...
Com a crescente polarização da política no Brasil, está ainda mais difícil me identificar com as propostas que estão sobre a mesa. Sou uma liberal no sentido amplo, não quero o estado se metendo nas escolhas individuais, vejo a diversidade (racial, cultural, religiosa, sexual...) como uma riqueza que deve ser respeitada e preservada. Mas não concordo com a concepção econômica que o termo assumiu, não acho que entregar todo controle da economia na mão do empresariado vai resultar numa dinâmica justa. Quero distribuição de renda, fim de privilégios, proteção dos modos de vida tradicionais, sem abrir mão da propriedade privada (o direito de ter algo de seu, mas que não seja do tamanho de uma cidade ou de um estado) e da liberdade pessoal.
Aí vocês dirão: mas você é claramente uma esquerdista. Também não, porque a esquerda, pelo menos a que se apresenta como opção hoje, causa um inchaço desnecessário na máquina pública, o que favorece práticas de corrupção, dá muito dinheiro a sindicatos cooptados pelo poder, não defende a sério os modos de vida tradicionais nem o meio ambiente (jamais perdoarei a usina de Belo Monte), também tem dificuldades de dialogar com quem pensa diferente (os conservadores)... E o pior de tudo: a esquerda jamais se opôs ao capitalismo. Aumenta o salário mínimo, mas ainda deixa o trabalhador escravizado pela lógica capitalista, tendo que trabalhar jornadas extenuantes, com poucas chances de um dia possuir algo de seu e sofrendo preconceito por não ter acesso a certos bens de consumo. Sem mudar a lógica, todos os valores continuarão sendo atribuídos com base no dinheiro, o que é um parâmetro vazio, e às vezes na formação educacional, o que é também uma instrumentalização nojenta do conhecimento.
(Aqui estou repetindo bastante os argumentos de Weil, mas expressos noutro livro, "O enraizamento". O encontro com esta autora foi mesmo arrebatador, é uma das poucas pensadoras com quem me identifico quase 100%. Quase, porque ela não é tão fã de literatura contemporânea.)
Enfim, tudo isso para dizer que nenhum movimento me representa, e eu sou daquelas que levam paulada dos dois lados. Ao menos tenho gente boa do meu lado, como a mencionada Weil e a Marina Tsvetáieva. A primeira morreu de inanição, porque se negou a receber mais comida do que seus companheiros quando adoeceu. A segunda também passou muita fome na Rússia do início do século XX, já que era contra tanto os brancos quanto os vermelhos, e ambos se recusavam a publicar seus textos. No caso brasileiro, tem a minha amada Hilda Hilst. Ela era explicitamente contra a ditadura militar, mas os intelectuais de seu tempo a criticavam por publicar versos de amor em vez de fazer "literatura engajada". O amor, acaso, também não é um direito essencial? Taí a cegueira e a truculência dos militantes de todas os partidos...
Ontem, quando li a coluna da Eliane Brum (outra escritora maravilhosa) no El País sobre o movimento Liberte o futuro, pela primeira vez em muito tempo simpatizei com um coletivo. Me chamou a atenção que ele não fica só na distribuição de renda (essencial, porém básica demais), ampliando para o direito de sonhar um futuro que não esteja hiper-determinado pela lógica capitalista. De fato, o que tenho feito nos últimos anos é tentar achar saídas de sobrevivência: "entre as opções que me foram dadas, qual tem mais chance de dar certo?". Faz muito tempo que eu não paro para pensar "o que eu gostaria de fazer?". Claro, entrar na vida adulta é tomar banho de realidade, descobri que ficar só sonhando pode resultar numa paralisia muito pior. O que me pareceu muito cruel, no entanto, foi perceber que não tenho o direito nem de propor opções novas, só de escolher entre as já dadas.
Li o manifesto e vi alguns vídeos e, pela voz e pelo rosto daqueles indivíduos, cuja singularidade não havia se dissolvido numa massa, percebi como é urgente lutar pelo direito de decidir como será o futuro. Já vinha pensando algo nesse sentido depois de ter lido "Regras para o parque humano", de Peter Sloterdijk, que faz uma constatação muito sombria: a noção de humanidade não se dá espontaneamente, mas é projetada e concretizada por instituições. Por muito tempo predominou o projeto humanista, agora é só o consumista mesmo. Como não é possível derrubar essas instituições (igrejas, escolas, indústria cultural, mercado de trabalho...), que se tornaram muito poderosas e de alcance mundial, eu gostaria de, pelo menos, opinar sobre essas diretrizes em vez de só reproduzi-las. Se o homem não é livre para ser o que quiser -- as crianças bem tentam se rebelar contra os pais e os professores, mas o mercado de trabalho as domestica direitinho --, quero pensar em formas melhores de ser humano do que as que se apresentam, pois, claramente, estas estão nos levando para o abismo.
Diante da catástrofe, surge a oportunidade de mudar de curso, como diz o manifesto #liberteofuturo. Seguir por este caminho vai nos levar à fome e à miséria em massa. A indústria vai tentar encontrar uma acomodação possível para salvar capitalismo da barbárie provocada por uma horda de famintos -- auxílio emergencial, contratação sem leis trabalhistas, revisão das regras de aposentadoria --, mas por que não agarrar essa oportunidade para atingir um modelo melhor? Se este mundo está mesmo colapsando, por que não deixar acabar com ele as causas da ruína?
Percebo que já estou começando a repetir o manifesto, então vou colar o texto da Brum para vocês o lerem sem ser pela minha paráfrase. (Se eu continuar plagiando, corro o risco de ser mencionada em um tuíte do "presidente" sendo convidada para o Ministério da Educação...)
Se você já conhece este texto, pule para o final, depois dos asteriscos.
***
#liberteofuturo
Por que nos juntamos num movimento global de resgate do presente
ELIANE BRUM
05 JUL 2020 - 11:34 BRT
No manifesto #liberteofuturo, lançado neste domingo, 5 de julho, escrevemos: “Lançamos esse movimento porque não queremos ser abatidos como gado. Seja no campo ou na cidade, queremos viver como floresta ―em pé― e lutar”. Sim, queremos lutar pelo futuro do presente ―no presente. Nós, que temos nos mostrado tão competentes em imaginar o fim do mundo ―do apocalipse bíblico aos filmes de zumbi, dos vírus (que agora tivemos uma amostra) a um ataque alienígena, do domínio da inteligência artificial ao holocausto nuclear―, temos que nos tornar capazes de imaginar o fim do capitalismo. Temos que nos tornar capazes, principalmente, de imaginar um futuro onde possamos e queiramos viver. Imaginar é ação política. Imaginar é instrumento de resistência. Imaginar o futuro já é começar a criar o presente.
Como esse movimento começou? Pelo susto e pelo desejo, como em geral quase tudo se inicia. A pandemia se desenhava no mundo, a Itália vivia cenas de peste e o Brasil apenas anunciava seu primeiro caso. Mas havia quem já falasse da volta à normalidade. Este era o nosso susto. Como pessoas conscientes da crise climática, da destruição acelerada da biodiversidade e da abissal desigualdade, nós já esperávamos o tempo das pandemias. Existe, porém, uma larga diferença entre prever o que vai acontecer diante da destruição persistente da natureza, a partir do conhecimento dos povos indígenas e das pesquisas dos cientistas, e viver o que está acontecendo. O susto era o de viver a pandemia, mas também era pelo que se desenhava como “volta à normalidade” pós-pandemia. Normalidade para quem?, era nossa primeira pergunta.
Sabíamos que, com a recessão que se anunciava, as corporações que dominam o mundo, assim como os governantes e políticos, economistas e executivos financiados por elas, estalariam o chicote no lombo do gado humano em que fomos convertidos pelo capitalismo neoliberal. O discurso da retomada e da aceleração da produção viria com todas as suas fantasmagorias. E o anormal que já vivemos poderia ―e pode― se tornar um anormal ainda mais mortífero, brutalizando ainda mais os corpos humanos e não humanos.
Naquele momento, março de 2020, todos os nossos esforços estavam concentrados em criar ações e campanhas para proteger os que seriam mais atingidos pela pandemia. Nos movíamos para atenuar o sofrimento do presente imediato, promovendo vaquinhas na internet para comprar cestas básicas sem agrotóxicos, com produtos produzidos por produtores locais de comunidades vulneráveis, assim como pressionar pelo fortalecimento do SUS. Percebemos, porém, que precisaríamos fazer mais. Precisaríamos disputar o futuro no presente.
Esse movimento começou com duas pessoas conversando por whatsapp, outras se juntaram numa primeira reunião por zoom em abril e hoje, três meses depois, somos muitas e muitos. Cada um fazendo o que sabe fazer melhor e todas e todos aprendendo a fazer o que não sabem, porque assim são os tempos, como já escrevo há anos nestes espaço: não basta fazer o que sabemos, temos que fazer também o que não sabemos. Esse é o desafio desse momento.
Nosso movimento não tem dono. Nem permitiremos capturas. Somos Eu+1+. Esta é a equação da rebelião, criada por Élio Alves da Silva, poeta e pescador do Médio Xingu, na Amazônia. “Eu sozinho não posso nada, eu sozinho só conto como um. Mas, se eu chamar mais um, já começamos a poder. E se esse um chamar mais um e mais um e mais... Aí nós podemos”. Como apontaram alguns pensadores, não é apenas o vírus que pode se espalhar numa velocidade alucinante, as ideias também. Boca a boca. Assim, convidamos todas e todos a se juntar com a gente no movimento pela libertação do futuro.
Antes de explicar como participar, quero falar sobre por que entendemos que o futuro, hoje, está sequestrado.
Nós, os que hoje estamos vivos, nunca enfrentamos uma ameaça como o novo coronavírus. Se tantos repetem que o mundo nunca mais será o mesmo, e não será, qual é então o mundo que queremos?
Lutar pela vida ameaçada pelo vírus é o imperativo da emergência. É preciso, porém, fazer algo ainda mais difícil: lutar pelo futuro pós-vírus. O rompimento da normalidade para poucos, da anormalidade para a maioria, que o vírus provocou, pode ser a oportunidade para desenhar uma sociedade baseada em outros princípios, capaz de barrar a catástrofe climática e promover justiça racial e entre espécies. O pior que pode nos acontecer depois da pandemia será justamente voltar à anormalidade que nos esmaga. Aquilo que muitos chamam de novo normal ―e nós entendemos que é um “novo anormal”.
Até baluartes da imprensa liberal, como The Economist e Financial Times, ambos nascidos no berço do capitalismo, anunciaram no início da pandemia que seria preciso dar um passo atrás. Maior intervenção do Estado e políticas como renda mínima e taxação de fortunas, antes consideradas “exóticas” por esses segmentos, têm sido elencadas na abordagem do novo contrato social no mundo pós-pandemia. Conceder um pouco para garantir que nada mude no essencial é um truque antigo. Já podemos perceber, porém, que as velha forças já se rearranjam para tentar manter tudo não só como estava, mas com ainda maior exploração dos mesmos de sempre ―nós.
Sabemos que, numa crise, as pessoas se agarram àquilo que conhecem. Mesmo que aquilo que conhecem seja muito ruim, elas encontram conforto em conhecer a própria desvalia do que se arriscar ao desconhecido, que pode trazer uma miséria com a qual não se tem intimidade. O sentimento de desamparo é muito difícil de sustentar. Assim, é bastante provável que todas as “boas” intenções ―pessoais, corporativas, governamentais (para quem tem um governo minimamente decente, não é o caso do Brasil)― desapareçam com a ameaça do vírus, caso a vacina seja encontrada, e as pessoas reassumam seus postos nas jaulas de cada dia. Até a próxima pandemia ou o próximo desafio da emergência climática em curso. Ou até pior: as pessoas podem aceitar mais perda de direitos e dar mais poderes a quem nos oprime na tentativa de se salvar do próximo vírus ou da próxima catástrofe. E elas virão se não houver uma mudança radical na forma de viver.
O vírus, porém revelou um segredo, como apontou o filósofo francês Bruno Latour, num artigo que “viralizou”. Com o vírus, descobrimos que aqueles que afirmavam ser impossível parar de produzir, reduzir o número de voos, aumentar os investimentos dos governos e mudar radicalmente os hábitos apenas mentiam. O mundo mudou em semanas em nome da vida. É também em nome da vida que precisamos manter as boas práticas que surgiram deste período e pressionar como nunca antes por outro tipo de sociedade, tecida com outros fios.
É no sistema capitalista que o planeta, supostamente à disposição dos consumidores, foi consumido; que espécies inteiras foram destruídas e outras subjugadas para terem seus corpos consumidos em produção industrial. É assim que você nasce para, consumindo seu corpo e seu tempo, ser consumido e se consumir. E é assim que os humanos se tornaram, a partir da revolução industrial, que iniciou um processo cada vez mais veloz de emissão de CO2 pela queima de combustíveis fósseis (carvão, petróleo etc), uma força de destruição do planeta. Atenção, porém: não todos os humanos, mas a minoria dominante.
Pressionadas pelo colapso da natureza que provocaram e pela evidência de que haverá mais pandemias, as grandes corporações que controlam o mundo e aqueles que se beneficiam delas tentam agora reinventar o sistema de destruição, como já fizeram no passado, para continuar no controle ―e lucrando. E têm muitas chances de conseguir.
Nós queremos impedir que rearranjem o anormal. E queremos fazer isso pelo caminho mais radical, o da imaginação. Pelo resgate da possibilidade de voltar a imaginar outros mundos possíveis. Isolamento físico, sim. Isolamento social, jamais.
E por que “libertar” o futuro? Porque entendemos que o futuro ―assim como nós― foi sequestrado pelos déspotas eleitos que hoje governam parte do mundo.
Como Jair Bolsonaro, o maníaco que está tentando matar quase todos, exceto sua família e seus amigos, se elegeu? Da mesma forma que Donald Trump e outros: vendendo um passado que nunca existiu. Déspotas eleitos como Bolsonaro, Trump e toda a corja de perversos e mentirosos vendem a volta ao que nunca houve. Um passado em que havia paz e que cada um aceitava passivamente o seu lugar – o que significa que os negros aceitavam passivamente o seu lugar subalterno, os indígenas aceitavam passivamente o seu lugar subalterno, as mulheres aceitavam passivamente o seu lugar subalterno, todos aceitavam passivamente que o gênero era binário ou então era desvio. Um passado em que cada coisa estava em seu lugar e cada um sabia o lugar de cada coisa e estava tudo pacificamente resolvido.
Ora, nós sabemos que não havia paz neste passado. Que ele era costurado com conflitos, com sujeições, com apagamentos e com extermínios. Déspotas eleitos como Trump e Bolsonaro limpam esse passado de seus conflitos e de suas mortes e o embalam para oferecer a uma população assustada com um mundo movediço, uma população assustada com as insurreições daqueles que sempre foram considerados sub-humanidades, como diz o pensador indígena Ailton Krenak, aqueles que sempre estiveram nas periferias da vida pública e da privada e passaram a disputar o centro.
Mas por que os déspotas eleitos oferecem um passado que nunca existiu? Aí está um outro segredo, que queremos revelar para o mundo. A resposta é que eles não têm futuro para oferecer. O futuro é a crise climática, que eles se esforçam para negar, mas está acontecendo. O futuro é hostil. Para conquistar o poder e para manter o poder eles precisam vender um passado que nunca existiu e negar veementemente o futuro. É muito importante compreender que eles só conquistam e só mantêm o poder negando o futuro.
Eles não são negacionistas da crise climática porque acreditam que ela não existe. Eles são negacionistas porque não podem oferecer futuro exatamente porque estão a serviços das corporações transnacionais e dos grupos locais que produzem a crise climática. Este é o ponto frágil dessa extrema direita assassina, em alguns casos fascista, que hoje governa o Brasil e outros países do mundo: quando eles negam a crise climática, porque só podem negá-la, precisam também negar o futuro.
E aí está a fissura que a pandemia abriu. De repente, o mundo parou. Quando os povos indígenas, os cientistas e os adolescentes gritavam que era preciso reduzir a produção para salvar a nossa vida no planeta, que era preciso mudar o jeito de viver, governantes e grandes corporações diziam que era impossível. O que a pandemia mostrou? Que é possível, sim. E que dá para fazer isso rapidamente. Em poucas semanas, o impossível aconteceu.
É também por isso que Paulo Guedes, o braço perverso de Bolsonaro numa economia (que se vende como todo mas é reduzida ao financeiro), assim como essa meia dúzia de pessoas que representam (essa mistificação) chamada mercado, tentam recolocar rapidamente o discurso neoliberal, o da volta à normalidade, o discurso da produção e do crescimento, para mostrar que dá para mudar tudo ―mas só por um curto espaço de tempo. Depois, é preciso correr e recuperar a produção e os lucros perdidos. À custa, como cada um sabe bem, dos corpos dos outros ―os nossos corpos. O “sacrifício” é da maioria para a minoria manter seus privilégios. Ou alguém estava feliz e próspero antes da pandemia, alegremente apaziguado com seu tempo sequestrado pela prisão do modelo 24 (horas) por dia X 7 (dias) por semana?
Hoje, apenas 2.153 pessoas – às vezes a gente esquece que os bilionários são pessoas, têm nome e sobrenome ―concentram mais riqueza material do que 60% dos outros 7.790.000.000 de seres humanos que habitam o planeta. Veja a diferença no número de casas decimais. Eles representam uma fração tão insignificante no conjunto da população global que os números falham em torná-los visíveis como porcentagem. A desigualdade racial, social, de gênero e de espécie que provocam, porém, é brutalmente visível.
Nós, do movimento de libertação do futuro, queremos que o mundo não seja apenas para 0,00003% ―ou 1 bilionário para cada 3,7 milhões de pessoas.
Não podemos nos render à volta da normalidade que corrompe a natureza e condena bilhões à pobreza. Não devemos permitir que a Amazônia, cada vez mais perto do ponto de não retorno, siga sendo destruída. As ideias precisam circular. Imaginar o futuro já é mudar o presente.
Entendemos ainda que, libertando o futuro nós também deixamos de ser reféns. Enquanto o futuro estiver sequestrado, nós também estaremos subjugados, encarcerados num presente contínuo, em eterno looping, vivendo aos espasmos. Nosso instrumento é a imaginação. Não é por acaso que a arte é tão atacada por Bolsonaro, seu clã e seus fanáticos. É a arte que promove a imaginação e é sempre a primeira a ser atacada por governos e governantes autoritários, que precisam controlar corações e mentes para impor seu projeto de poder. Foi assim no nazismo, é assim no bolsonarismo. A imaginação é a arte do pensamento. E é com ela que vamos começar a resgatar o futuro. Imaginar não é ato passivo, ao contrário. Imaginar é agir ―imagin/ação.
Não podemos esquecer do segredo revelado pela pandemia: o de que é possível parar ―e, principalmente, o de que é possível mudar. E lembremos, como um mantra, todos os dias, das palavras de Ailton Krenak: “O futuro é agora, pode não haver amanhã”.
Lançamos algumas bases para a sociedade que queremos criar, a partir de princípios que são inegociáveis: 1) com racismo não há democracia, como apontou o manifesto antirracista da Coalizão Negra por Direitos; 2) com especismo (que é o racismo com outras espécies) não há democracia; 3) é imperativo eliminar a desigualdade racial, social, de gênero e entre espécies; 4) resgatar o futuro é responsabilidade coletiva de todas e de todos que estão vivos nesta época; 5) nos compreendemos como natureza e queremos um mundo para todos os humanos e não humanos que habitam o planeta; 6) a Amazônia, como conceito amplo, é o centro do mundo.
Lutaremos.
A partir de cinco propostas para adiar o fim do mundo, sugerimos que cada uma e cada um façam perguntas e respostas em vídeos ―cinco vídeos de no máximo um minuto cada um. Estes são os pontos de partida: 1) Antídotos contra o fim do mundo: imagine como quer viver; 2) Democracia: proponha políticas públicas, assim como mudanças nas leis e nas normas, para reduzir as desigualdades de raça, gênero e classe e para que a democracia seja mais do que votar a cada eleição; 3) Consumo: indique alternativas para eliminar as práticas de consumo que escravizam a nossa e as outras espécies; 4) Emergência climática: sugira ações para impedir a destruição da natureza, garantindo a continuidade de todas as formas de vida no planeta; 5) Insurreição: defina a melhor ação de desobediência civil para criar o futuro onde você quer viver. Você pode fazer um vídeo para cada tema ou escolher apenas aqueles pontos com os quais você se identifica mais. Ou, ainda, pode responder apenas uma pergunta:
Que futuro você quer libertar?
Os vídeos devem ser postados com as hashtag #liberteofuturo e #freethefuture. E enviados para o número de celular e email indicados na nossa plataforma.
Cada uma, cada um está convidada/o a se juntar a nós, imaginando o futuro e promovendo ações a partir da imaginação. Entre na nossa plataforma, torne-a sua, sendo +1, e chame +1. Junte sua turma de amigos, sua família, seu coletivo, sua organização, sua empresa, seu time de futebol, sua confraria do boteco, seu grupo da igreja e crie futuros. Se quiser dar um passo além, inscreva-se nos “laboratórios sociais liberte o futuro”. Aqui está nosso endereço: www.liberteofuturo.net e www.freethefuture.net. Nos busque nas redes: instagram, facebook e twitter: @liberteofuturo. Nos encontre pela hashtag #liberteofuturo e #freethefuture. Nossa plataforma já começa a se tornar um mostruário da imaginação do futuro neste momento histórico, uma coleção de pensamentos que poderá inspirar ações e estimular pesquisas. Estamos criando um grande museu vivo sobre a imaginação.
Para quem acha difícil, é difícil mesmo. Certamente não mais difícil, porém, do que viver num presente sem futuro. Para os céticos, quero dizer o seguinte. Em março, nada disso existia. E, hoje, já somos dezenas e criamos beleza. Nossa plataforma já tem mais de 200 vídeos de gente imaginando o futuro antes mesmo do lançamento. Ousamos. Somamos o que sabíamos e ousamos fazer o que não sabíamos. Criamos algo que não existia. O futuro que começamos a imaginar três meses atrás já é presente.
Vem com a gente libertar o futuro?
Disponível em: https://brasil.elpais.com/brasil/2020-07-05/liberteofuturo.html
***
Agora, vou expressar minha usual dose de descrença.
Tenho medo de, se o movimento tomar grandes proporções, ele ser instrumentalizado por um projeto político tradicional de esquerda, da mesma forma que a direita fez com as manifestações de junho de 2013. Naquela época, eu saí à rua para protestar contra o aumento do preço das passagens de ônibus, mas jamais apoiei o impeachment de Dilma. Inclusive admirei que a presidente tenha dado uma resposta rápida com seu pacote anticorrupção, mas o fato é que o golpe já estava articulado dentro das instâncias de poder (já disse o profeta Jucá...). O povo foi só massa de manobra, o argumento-desculpa para pôr em prática o que os donos do poder queriam.
Aderir a um coletivo não é sempre correr esse risco de manipulação?
Não aderir não é deixar esse governo destruidor passar por cima de todos nós, porque não conseguimos mobilizar uma resposta à altura?
Ah, humanidade...
Quando me pedem para assinar listas a favor da criação de um novo partido, eu digo que sou contra todos os partidos e, antes de ter a chance de argumentar o porquê, já recebo um olhar condenatório, como se eu fosse uma alienada ou sei lá o que. Já que aqui eu posso falar à vontade, vou explicitar qual é minha posição política. Mesmo ninguém tendo perguntado...
Com a crescente polarização da política no Brasil, está ainda mais difícil me identificar com as propostas que estão sobre a mesa. Sou uma liberal no sentido amplo, não quero o estado se metendo nas escolhas individuais, vejo a diversidade (racial, cultural, religiosa, sexual...) como uma riqueza que deve ser respeitada e preservada. Mas não concordo com a concepção econômica que o termo assumiu, não acho que entregar todo controle da economia na mão do empresariado vai resultar numa dinâmica justa. Quero distribuição de renda, fim de privilégios, proteção dos modos de vida tradicionais, sem abrir mão da propriedade privada (o direito de ter algo de seu, mas que não seja do tamanho de uma cidade ou de um estado) e da liberdade pessoal.
Aí vocês dirão: mas você é claramente uma esquerdista. Também não, porque a esquerda, pelo menos a que se apresenta como opção hoje, causa um inchaço desnecessário na máquina pública, o que favorece práticas de corrupção, dá muito dinheiro a sindicatos cooptados pelo poder, não defende a sério os modos de vida tradicionais nem o meio ambiente (jamais perdoarei a usina de Belo Monte), também tem dificuldades de dialogar com quem pensa diferente (os conservadores)... E o pior de tudo: a esquerda jamais se opôs ao capitalismo. Aumenta o salário mínimo, mas ainda deixa o trabalhador escravizado pela lógica capitalista, tendo que trabalhar jornadas extenuantes, com poucas chances de um dia possuir algo de seu e sofrendo preconceito por não ter acesso a certos bens de consumo. Sem mudar a lógica, todos os valores continuarão sendo atribuídos com base no dinheiro, o que é um parâmetro vazio, e às vezes na formação educacional, o que é também uma instrumentalização nojenta do conhecimento.
(Aqui estou repetindo bastante os argumentos de Weil, mas expressos noutro livro, "O enraizamento". O encontro com esta autora foi mesmo arrebatador, é uma das poucas pensadoras com quem me identifico quase 100%. Quase, porque ela não é tão fã de literatura contemporânea.)
Enfim, tudo isso para dizer que nenhum movimento me representa, e eu sou daquelas que levam paulada dos dois lados. Ao menos tenho gente boa do meu lado, como a mencionada Weil e a Marina Tsvetáieva. A primeira morreu de inanição, porque se negou a receber mais comida do que seus companheiros quando adoeceu. A segunda também passou muita fome na Rússia do início do século XX, já que era contra tanto os brancos quanto os vermelhos, e ambos se recusavam a publicar seus textos. No caso brasileiro, tem a minha amada Hilda Hilst. Ela era explicitamente contra a ditadura militar, mas os intelectuais de seu tempo a criticavam por publicar versos de amor em vez de fazer "literatura engajada". O amor, acaso, também não é um direito essencial? Taí a cegueira e a truculência dos militantes de todas os partidos...
Ontem, quando li a coluna da Eliane Brum (outra escritora maravilhosa) no El País sobre o movimento Liberte o futuro, pela primeira vez em muito tempo simpatizei com um coletivo. Me chamou a atenção que ele não fica só na distribuição de renda (essencial, porém básica demais), ampliando para o direito de sonhar um futuro que não esteja hiper-determinado pela lógica capitalista. De fato, o que tenho feito nos últimos anos é tentar achar saídas de sobrevivência: "entre as opções que me foram dadas, qual tem mais chance de dar certo?". Faz muito tempo que eu não paro para pensar "o que eu gostaria de fazer?". Claro, entrar na vida adulta é tomar banho de realidade, descobri que ficar só sonhando pode resultar numa paralisia muito pior. O que me pareceu muito cruel, no entanto, foi perceber que não tenho o direito nem de propor opções novas, só de escolher entre as já dadas.
Li o manifesto e vi alguns vídeos e, pela voz e pelo rosto daqueles indivíduos, cuja singularidade não havia se dissolvido numa massa, percebi como é urgente lutar pelo direito de decidir como será o futuro. Já vinha pensando algo nesse sentido depois de ter lido "Regras para o parque humano", de Peter Sloterdijk, que faz uma constatação muito sombria: a noção de humanidade não se dá espontaneamente, mas é projetada e concretizada por instituições. Por muito tempo predominou o projeto humanista, agora é só o consumista mesmo. Como não é possível derrubar essas instituições (igrejas, escolas, indústria cultural, mercado de trabalho...), que se tornaram muito poderosas e de alcance mundial, eu gostaria de, pelo menos, opinar sobre essas diretrizes em vez de só reproduzi-las. Se o homem não é livre para ser o que quiser -- as crianças bem tentam se rebelar contra os pais e os professores, mas o mercado de trabalho as domestica direitinho --, quero pensar em formas melhores de ser humano do que as que se apresentam, pois, claramente, estas estão nos levando para o abismo.
Diante da catástrofe, surge a oportunidade de mudar de curso, como diz o manifesto #liberteofuturo. Seguir por este caminho vai nos levar à fome e à miséria em massa. A indústria vai tentar encontrar uma acomodação possível para salvar capitalismo da barbárie provocada por uma horda de famintos -- auxílio emergencial, contratação sem leis trabalhistas, revisão das regras de aposentadoria --, mas por que não agarrar essa oportunidade para atingir um modelo melhor? Se este mundo está mesmo colapsando, por que não deixar acabar com ele as causas da ruína?
Percebo que já estou começando a repetir o manifesto, então vou colar o texto da Brum para vocês o lerem sem ser pela minha paráfrase. (Se eu continuar plagiando, corro o risco de ser mencionada em um tuíte do "presidente" sendo convidada para o Ministério da Educação...)
Se você já conhece este texto, pule para o final, depois dos asteriscos.
***
#liberteofuturo
Por que nos juntamos num movimento global de resgate do presente
ELIANE BRUM
05 JUL 2020 - 11:34 BRT
No manifesto #liberteofuturo, lançado neste domingo, 5 de julho, escrevemos: “Lançamos esse movimento porque não queremos ser abatidos como gado. Seja no campo ou na cidade, queremos viver como floresta ―em pé― e lutar”. Sim, queremos lutar pelo futuro do presente ―no presente. Nós, que temos nos mostrado tão competentes em imaginar o fim do mundo ―do apocalipse bíblico aos filmes de zumbi, dos vírus (que agora tivemos uma amostra) a um ataque alienígena, do domínio da inteligência artificial ao holocausto nuclear―, temos que nos tornar capazes de imaginar o fim do capitalismo. Temos que nos tornar capazes, principalmente, de imaginar um futuro onde possamos e queiramos viver. Imaginar é ação política. Imaginar é instrumento de resistência. Imaginar o futuro já é começar a criar o presente.
Como esse movimento começou? Pelo susto e pelo desejo, como em geral quase tudo se inicia. A pandemia se desenhava no mundo, a Itália vivia cenas de peste e o Brasil apenas anunciava seu primeiro caso. Mas havia quem já falasse da volta à normalidade. Este era o nosso susto. Como pessoas conscientes da crise climática, da destruição acelerada da biodiversidade e da abissal desigualdade, nós já esperávamos o tempo das pandemias. Existe, porém, uma larga diferença entre prever o que vai acontecer diante da destruição persistente da natureza, a partir do conhecimento dos povos indígenas e das pesquisas dos cientistas, e viver o que está acontecendo. O susto era o de viver a pandemia, mas também era pelo que se desenhava como “volta à normalidade” pós-pandemia. Normalidade para quem?, era nossa primeira pergunta.
Sabíamos que, com a recessão que se anunciava, as corporações que dominam o mundo, assim como os governantes e políticos, economistas e executivos financiados por elas, estalariam o chicote no lombo do gado humano em que fomos convertidos pelo capitalismo neoliberal. O discurso da retomada e da aceleração da produção viria com todas as suas fantasmagorias. E o anormal que já vivemos poderia ―e pode― se tornar um anormal ainda mais mortífero, brutalizando ainda mais os corpos humanos e não humanos.
Naquele momento, março de 2020, todos os nossos esforços estavam concentrados em criar ações e campanhas para proteger os que seriam mais atingidos pela pandemia. Nos movíamos para atenuar o sofrimento do presente imediato, promovendo vaquinhas na internet para comprar cestas básicas sem agrotóxicos, com produtos produzidos por produtores locais de comunidades vulneráveis, assim como pressionar pelo fortalecimento do SUS. Percebemos, porém, que precisaríamos fazer mais. Precisaríamos disputar o futuro no presente.
Esse movimento começou com duas pessoas conversando por whatsapp, outras se juntaram numa primeira reunião por zoom em abril e hoje, três meses depois, somos muitas e muitos. Cada um fazendo o que sabe fazer melhor e todas e todos aprendendo a fazer o que não sabem, porque assim são os tempos, como já escrevo há anos nestes espaço: não basta fazer o que sabemos, temos que fazer também o que não sabemos. Esse é o desafio desse momento.
Nosso movimento não tem dono. Nem permitiremos capturas. Somos Eu+1+. Esta é a equação da rebelião, criada por Élio Alves da Silva, poeta e pescador do Médio Xingu, na Amazônia. “Eu sozinho não posso nada, eu sozinho só conto como um. Mas, se eu chamar mais um, já começamos a poder. E se esse um chamar mais um e mais um e mais... Aí nós podemos”. Como apontaram alguns pensadores, não é apenas o vírus que pode se espalhar numa velocidade alucinante, as ideias também. Boca a boca. Assim, convidamos todas e todos a se juntar com a gente no movimento pela libertação do futuro.
Antes de explicar como participar, quero falar sobre por que entendemos que o futuro, hoje, está sequestrado.
Nós, os que hoje estamos vivos, nunca enfrentamos uma ameaça como o novo coronavírus. Se tantos repetem que o mundo nunca mais será o mesmo, e não será, qual é então o mundo que queremos?
Lutar pela vida ameaçada pelo vírus é o imperativo da emergência. É preciso, porém, fazer algo ainda mais difícil: lutar pelo futuro pós-vírus. O rompimento da normalidade para poucos, da anormalidade para a maioria, que o vírus provocou, pode ser a oportunidade para desenhar uma sociedade baseada em outros princípios, capaz de barrar a catástrofe climática e promover justiça racial e entre espécies. O pior que pode nos acontecer depois da pandemia será justamente voltar à anormalidade que nos esmaga. Aquilo que muitos chamam de novo normal ―e nós entendemos que é um “novo anormal”.
Até baluartes da imprensa liberal, como The Economist e Financial Times, ambos nascidos no berço do capitalismo, anunciaram no início da pandemia que seria preciso dar um passo atrás. Maior intervenção do Estado e políticas como renda mínima e taxação de fortunas, antes consideradas “exóticas” por esses segmentos, têm sido elencadas na abordagem do novo contrato social no mundo pós-pandemia. Conceder um pouco para garantir que nada mude no essencial é um truque antigo. Já podemos perceber, porém, que as velha forças já se rearranjam para tentar manter tudo não só como estava, mas com ainda maior exploração dos mesmos de sempre ―nós.
Sabemos que, numa crise, as pessoas se agarram àquilo que conhecem. Mesmo que aquilo que conhecem seja muito ruim, elas encontram conforto em conhecer a própria desvalia do que se arriscar ao desconhecido, que pode trazer uma miséria com a qual não se tem intimidade. O sentimento de desamparo é muito difícil de sustentar. Assim, é bastante provável que todas as “boas” intenções ―pessoais, corporativas, governamentais (para quem tem um governo minimamente decente, não é o caso do Brasil)― desapareçam com a ameaça do vírus, caso a vacina seja encontrada, e as pessoas reassumam seus postos nas jaulas de cada dia. Até a próxima pandemia ou o próximo desafio da emergência climática em curso. Ou até pior: as pessoas podem aceitar mais perda de direitos e dar mais poderes a quem nos oprime na tentativa de se salvar do próximo vírus ou da próxima catástrofe. E elas virão se não houver uma mudança radical na forma de viver.
O vírus, porém revelou um segredo, como apontou o filósofo francês Bruno Latour, num artigo que “viralizou”. Com o vírus, descobrimos que aqueles que afirmavam ser impossível parar de produzir, reduzir o número de voos, aumentar os investimentos dos governos e mudar radicalmente os hábitos apenas mentiam. O mundo mudou em semanas em nome da vida. É também em nome da vida que precisamos manter as boas práticas que surgiram deste período e pressionar como nunca antes por outro tipo de sociedade, tecida com outros fios.
É no sistema capitalista que o planeta, supostamente à disposição dos consumidores, foi consumido; que espécies inteiras foram destruídas e outras subjugadas para terem seus corpos consumidos em produção industrial. É assim que você nasce para, consumindo seu corpo e seu tempo, ser consumido e se consumir. E é assim que os humanos se tornaram, a partir da revolução industrial, que iniciou um processo cada vez mais veloz de emissão de CO2 pela queima de combustíveis fósseis (carvão, petróleo etc), uma força de destruição do planeta. Atenção, porém: não todos os humanos, mas a minoria dominante.
Pressionadas pelo colapso da natureza que provocaram e pela evidência de que haverá mais pandemias, as grandes corporações que controlam o mundo e aqueles que se beneficiam delas tentam agora reinventar o sistema de destruição, como já fizeram no passado, para continuar no controle ―e lucrando. E têm muitas chances de conseguir.
Nós queremos impedir que rearranjem o anormal. E queremos fazer isso pelo caminho mais radical, o da imaginação. Pelo resgate da possibilidade de voltar a imaginar outros mundos possíveis. Isolamento físico, sim. Isolamento social, jamais.
E por que “libertar” o futuro? Porque entendemos que o futuro ―assim como nós― foi sequestrado pelos déspotas eleitos que hoje governam parte do mundo.
Como Jair Bolsonaro, o maníaco que está tentando matar quase todos, exceto sua família e seus amigos, se elegeu? Da mesma forma que Donald Trump e outros: vendendo um passado que nunca existiu. Déspotas eleitos como Bolsonaro, Trump e toda a corja de perversos e mentirosos vendem a volta ao que nunca houve. Um passado em que havia paz e que cada um aceitava passivamente o seu lugar – o que significa que os negros aceitavam passivamente o seu lugar subalterno, os indígenas aceitavam passivamente o seu lugar subalterno, as mulheres aceitavam passivamente o seu lugar subalterno, todos aceitavam passivamente que o gênero era binário ou então era desvio. Um passado em que cada coisa estava em seu lugar e cada um sabia o lugar de cada coisa e estava tudo pacificamente resolvido.
Ora, nós sabemos que não havia paz neste passado. Que ele era costurado com conflitos, com sujeições, com apagamentos e com extermínios. Déspotas eleitos como Trump e Bolsonaro limpam esse passado de seus conflitos e de suas mortes e o embalam para oferecer a uma população assustada com um mundo movediço, uma população assustada com as insurreições daqueles que sempre foram considerados sub-humanidades, como diz o pensador indígena Ailton Krenak, aqueles que sempre estiveram nas periferias da vida pública e da privada e passaram a disputar o centro.
Mas por que os déspotas eleitos oferecem um passado que nunca existiu? Aí está um outro segredo, que queremos revelar para o mundo. A resposta é que eles não têm futuro para oferecer. O futuro é a crise climática, que eles se esforçam para negar, mas está acontecendo. O futuro é hostil. Para conquistar o poder e para manter o poder eles precisam vender um passado que nunca existiu e negar veementemente o futuro. É muito importante compreender que eles só conquistam e só mantêm o poder negando o futuro.
Eles não são negacionistas da crise climática porque acreditam que ela não existe. Eles são negacionistas porque não podem oferecer futuro exatamente porque estão a serviços das corporações transnacionais e dos grupos locais que produzem a crise climática. Este é o ponto frágil dessa extrema direita assassina, em alguns casos fascista, que hoje governa o Brasil e outros países do mundo: quando eles negam a crise climática, porque só podem negá-la, precisam também negar o futuro.
E aí está a fissura que a pandemia abriu. De repente, o mundo parou. Quando os povos indígenas, os cientistas e os adolescentes gritavam que era preciso reduzir a produção para salvar a nossa vida no planeta, que era preciso mudar o jeito de viver, governantes e grandes corporações diziam que era impossível. O que a pandemia mostrou? Que é possível, sim. E que dá para fazer isso rapidamente. Em poucas semanas, o impossível aconteceu.
É também por isso que Paulo Guedes, o braço perverso de Bolsonaro numa economia (que se vende como todo mas é reduzida ao financeiro), assim como essa meia dúzia de pessoas que representam (essa mistificação) chamada mercado, tentam recolocar rapidamente o discurso neoliberal, o da volta à normalidade, o discurso da produção e do crescimento, para mostrar que dá para mudar tudo ―mas só por um curto espaço de tempo. Depois, é preciso correr e recuperar a produção e os lucros perdidos. À custa, como cada um sabe bem, dos corpos dos outros ―os nossos corpos. O “sacrifício” é da maioria para a minoria manter seus privilégios. Ou alguém estava feliz e próspero antes da pandemia, alegremente apaziguado com seu tempo sequestrado pela prisão do modelo 24 (horas) por dia X 7 (dias) por semana?
Hoje, apenas 2.153 pessoas – às vezes a gente esquece que os bilionários são pessoas, têm nome e sobrenome ―concentram mais riqueza material do que 60% dos outros 7.790.000.000 de seres humanos que habitam o planeta. Veja a diferença no número de casas decimais. Eles representam uma fração tão insignificante no conjunto da população global que os números falham em torná-los visíveis como porcentagem. A desigualdade racial, social, de gênero e de espécie que provocam, porém, é brutalmente visível.
Nós, do movimento de libertação do futuro, queremos que o mundo não seja apenas para 0,00003% ―ou 1 bilionário para cada 3,7 milhões de pessoas.
Não podemos nos render à volta da normalidade que corrompe a natureza e condena bilhões à pobreza. Não devemos permitir que a Amazônia, cada vez mais perto do ponto de não retorno, siga sendo destruída. As ideias precisam circular. Imaginar o futuro já é mudar o presente.
Entendemos ainda que, libertando o futuro nós também deixamos de ser reféns. Enquanto o futuro estiver sequestrado, nós também estaremos subjugados, encarcerados num presente contínuo, em eterno looping, vivendo aos espasmos. Nosso instrumento é a imaginação. Não é por acaso que a arte é tão atacada por Bolsonaro, seu clã e seus fanáticos. É a arte que promove a imaginação e é sempre a primeira a ser atacada por governos e governantes autoritários, que precisam controlar corações e mentes para impor seu projeto de poder. Foi assim no nazismo, é assim no bolsonarismo. A imaginação é a arte do pensamento. E é com ela que vamos começar a resgatar o futuro. Imaginar não é ato passivo, ao contrário. Imaginar é agir ―imagin/ação.
Não podemos esquecer do segredo revelado pela pandemia: o de que é possível parar ―e, principalmente, o de que é possível mudar. E lembremos, como um mantra, todos os dias, das palavras de Ailton Krenak: “O futuro é agora, pode não haver amanhã”.
Lançamos algumas bases para a sociedade que queremos criar, a partir de princípios que são inegociáveis: 1) com racismo não há democracia, como apontou o manifesto antirracista da Coalizão Negra por Direitos; 2) com especismo (que é o racismo com outras espécies) não há democracia; 3) é imperativo eliminar a desigualdade racial, social, de gênero e entre espécies; 4) resgatar o futuro é responsabilidade coletiva de todas e de todos que estão vivos nesta época; 5) nos compreendemos como natureza e queremos um mundo para todos os humanos e não humanos que habitam o planeta; 6) a Amazônia, como conceito amplo, é o centro do mundo.
Lutaremos.
A partir de cinco propostas para adiar o fim do mundo, sugerimos que cada uma e cada um façam perguntas e respostas em vídeos ―cinco vídeos de no máximo um minuto cada um. Estes são os pontos de partida: 1) Antídotos contra o fim do mundo: imagine como quer viver; 2) Democracia: proponha políticas públicas, assim como mudanças nas leis e nas normas, para reduzir as desigualdades de raça, gênero e classe e para que a democracia seja mais do que votar a cada eleição; 3) Consumo: indique alternativas para eliminar as práticas de consumo que escravizam a nossa e as outras espécies; 4) Emergência climática: sugira ações para impedir a destruição da natureza, garantindo a continuidade de todas as formas de vida no planeta; 5) Insurreição: defina a melhor ação de desobediência civil para criar o futuro onde você quer viver. Você pode fazer um vídeo para cada tema ou escolher apenas aqueles pontos com os quais você se identifica mais. Ou, ainda, pode responder apenas uma pergunta:
Que futuro você quer libertar?
Os vídeos devem ser postados com as hashtag #liberteofuturo e #freethefuture. E enviados para o número de celular e email indicados na nossa plataforma.
Cada uma, cada um está convidada/o a se juntar a nós, imaginando o futuro e promovendo ações a partir da imaginação. Entre na nossa plataforma, torne-a sua, sendo +1, e chame +1. Junte sua turma de amigos, sua família, seu coletivo, sua organização, sua empresa, seu time de futebol, sua confraria do boteco, seu grupo da igreja e crie futuros. Se quiser dar um passo além, inscreva-se nos “laboratórios sociais liberte o futuro”. Aqui está nosso endereço: www.liberteofuturo.net e www.freethefuture.net. Nos busque nas redes: instagram, facebook e twitter: @liberteofuturo. Nos encontre pela hashtag #liberteofuturo e #freethefuture. Nossa plataforma já começa a se tornar um mostruário da imaginação do futuro neste momento histórico, uma coleção de pensamentos que poderá inspirar ações e estimular pesquisas. Estamos criando um grande museu vivo sobre a imaginação.
Para quem acha difícil, é difícil mesmo. Certamente não mais difícil, porém, do que viver num presente sem futuro. Para os céticos, quero dizer o seguinte. Em março, nada disso existia. E, hoje, já somos dezenas e criamos beleza. Nossa plataforma já tem mais de 200 vídeos de gente imaginando o futuro antes mesmo do lançamento. Ousamos. Somamos o que sabíamos e ousamos fazer o que não sabíamos. Criamos algo que não existia. O futuro que começamos a imaginar três meses atrás já é presente.
Vem com a gente libertar o futuro?
Disponível em: https://brasil.elpais.com/brasil/2020-07-05/liberteofuturo.html
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Agora, vou expressar minha usual dose de descrença.
Tenho medo de, se o movimento tomar grandes proporções, ele ser instrumentalizado por um projeto político tradicional de esquerda, da mesma forma que a direita fez com as manifestações de junho de 2013. Naquela época, eu saí à rua para protestar contra o aumento do preço das passagens de ônibus, mas jamais apoiei o impeachment de Dilma. Inclusive admirei que a presidente tenha dado uma resposta rápida com seu pacote anticorrupção, mas o fato é que o golpe já estava articulado dentro das instâncias de poder (já disse o profeta Jucá...). O povo foi só massa de manobra, o argumento-desculpa para pôr em prática o que os donos do poder queriam.
Aderir a um coletivo não é sempre correr esse risco de manipulação?
Não aderir não é deixar esse governo destruidor passar por cima de todos nós, porque não conseguimos mobilizar uma resposta à altura?
Ah, humanidade...
Só li o seu post, não entrei nos links, mas me parece mais um discurso que parece (de certo ponto de vista) bonito, mas não vai dar em nada.
ResponderExcluirAliás, acho até divertido (ironicamente) a articulação usar ferramentas (youtube, social media, bla bla) que geram tantos dos bilionários donos do futuro. Cooptar ferramentas do dono das terras pra provocar uma revolução contra o próprio funcionou no passado, mas agora, quando um click faz a ferramenta sumir das mãos, me faz sorrir a la House.
Acho que movimentos pra imaginar um futuro melhor são válidos, mas quando começam a misturar muita coisa, se perdem. O que funciona num mundo complicado é resolver uma coisa de cada vez. E isso demora. E ninguém quer esperar algumas gerações pra ter resultado. (Não os culpo demais, afinal, estaremos mortos quando o resultado chegar.)
Será que mais alguém lê seus posts enormes? Quase pulei esse, me deu preguiça ao ver o tamanho.
Pois é, vamos ver se vai dar em algo, no que vai dar... A Eliane Brum sempre levanta umas causas legais, mas no fim das contas ela é uma mulher falando lá da Amazônia, parece que as esferas de poder ignoram a pessoa e o lugar por completo.
ExcluirO que vc comentou sobre o uso de ferramentas que pertencem a bilionários fez todo o sentido. Inclusive eu sou bem offline e não me senti à vontade para gravar um vídeo meu, então de certa forma eu acabo excluída do movimento (para variar).
Tb concordo com o que vc disse sobre a importância de enfatizar uma causa por vez. No fim das contas, acho que esse #liberteofuturo é mais uma ouvidoria para depois ver o que dá para fazer em cima. Acho que não tem um plano, é só ver o que rola.
E, por fim, respondo: ninguém mais lê meus posts. Eu acabo escrevendo para leitores imaginários e você. É terapêutico para mim, espero que não seja muito desagradável para vc. Obrigada pelo esforço! Ah, e principalmente obrigada por fazer comentários tão atentos e elaborados. Sempre me dão no que pensar...
Eu leio tudo tbm! Só não comento
ResponderExcluirEis meus dois ou três leitores:
ExcluirO primeiro lê e comenta.
A segunda lê, mas não comenta.
O/a terceiro/a não lê nem comenta.
Mas o principal: onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, aí estou eu no meio deles... ;)
(estou começando a acompanhar agora seus textos, são mt bons inclusive e vou comentar assim que possível)Entendo seu ceticismo, também sou pessimista em relação ao mundo e a humanidade, partilho de uma cartilha anarquista e sempre levo "patada" dos "dois" lados, acho que os bilionários devem ser guilhotinados etc, etc... perdi a fé na humanidade não sei se por depressão ou por ser introvertido, não consigo ter esperanças, qualquer texto com um verbo de alegria é motivacional de mais ou falso. Como aspirante a cientista eu tenho um visão lógica, racional, fria e técnica do mundo,
Excluirou seja, tudo perde a magia pra mim e o amontoado de moléculas orgânicas que compõe os nossos corpos e os seus limites biofísicos impõe o conformismo e a dificuldade exacerbada de diminuir a entropia do sistema socio-econômico em colapso. Atualmente estou estudando alguns filósofos da ciência (como por exemplo Mario Bunge) que me dão algum átomo de esperança na humanidade...(desculpa pelos erros de gramática ou por alguma animosidade, queria desabafar um pouco hahaha).
Olá, sr. Anónimo! Como vc conheceu o blog? (Por curiosidade)
ExcluirBom saber que há mais pessoas que escapam à polarização, isso me dá esperanças de algum rumo diferente dos que estão mais evidentes hj.
A crise da modernidade é justamente desencadeada pela ciência. Somos só uns animais (Darwin) num planeta qualquer (Copérnico), e não o centro de tudo. Isso abalou a mente de muita gente, q vive até hj num negacionismo, tentando colocar à força seus valores como se fossem verdades. Prefiro ir com a tranquilidade se Kant: não temos acesso direto ao objeto, mas o q nossa mente é capaz de produzir mesmo assim? Há muita beleza nisso, a meu ver. A formiga não vale mais que o homem, então estudar uma e outro são atividades igualmente empolgantes e misteriosas. Os estudos, ainda mais na época da ignorância, me mantêm sã e alegre. Espero q vc tb encontre alívio nos seus estudos de ciência e filosofia. Um abraço.
Sou ex aluno do PIBID (frequentava o período da noite), a turma leu Lavoura arcaica , fui procurar sobre você e a professora Delvir na internet depois de anos e acabei encontrando seu blog recentemente. As aulas do PIBID me motivaram a estudar literatura, fato que marcou bastante minha adolescencia =).
ExcluirÉ sempre uma alegria ter notícias de ex-alunos! Que bom q as aulas do pibid te aproximaram da literatura... Pode me dizer seu nome e o que está estudando ou com o que está trabalhando? Fiquei curiosa... A turma do pibid era pequena, mas um segredo sobre professores é que, depois de uns anos, nós tendemos a misturar os nomes dos alunos todos...
ExcluirEste comentário foi removido pelo autor.
ExcluirOi, Henrique! Que bom ter notícias suas, sempre fico curiosa para saber dos meus ex-alunos. Mas pensou que creep se professor stalkeasse aluno? Além de muita loucura, haja tempo!
ExcluirAcho excelente que vc seja um cientista com pezinho nas ciências humanas. O excesso de especialização é ótimo para desenvolver tecnologias, mas péssimo qd se trata de difundir esses saberes na sociedade. Talvez seja até por isso que a ciência se tornou tão exótica para as pessoas...
Qt à literatura pop, esse assunto é longo, mas vou simplificar bastante em nome da síntese. Basicamente, os críticos e os acadêmicos reforçam essa ideia de que os "verdadeiros textos literários" são difíceis e para poucos, pq isso legitima a autoridade deles, como se fossem pessoas mais iluminadas e capazes do que as outras. Mas o que determina se algo é literário ou não varia muito de acordo com o contexto, inclusive estudo isso no meu doutorado. Balzac, por exemplo, já foi pop, hoje é cult. Então, valores são construídos e reconstruídos. O leitor é quem decide o que quer ler, e esse é o gesto democrático da literatura. Eu, como professora, posso pedir para lerem um título específico, mas os alunos sempre têm a liberdade de não ler.
Pessoalmente, gosto dos textos difíceis, pq eles me intrigam, me dão vontade de ir além dos meus limites. Mas tem horas em que também só quero ser entretida e relaxar. A arte tem essas duas funções e tantas outras...
Mas me conte, como foi a experiência de ler Lavoura Arcaica no Ensino Médio? Muito doloroso?
Este comentário foi removido pelo autor.
ExcluirQue bom, obrigada pelo retorno! :)
ExcluirPapel do professor de literatura, a meu ver, é como um personal trainer: instrui, motiva, acompanha, mas qm vai suar mesmo é o atleta. Chamam universidade se academia, pq é msm uma questão de exercitar e aprimorar. O processo pode ser meio doloroso, mas o resultado vale a pena. Ou deveria valer...