Quadro de avisos

Atenção, meus dois ou três leitores: o blog está de volta à ativa.

Sim, também estou cansada de telas e de discursos sem rosto e sem toque, meus dedos doem de tanto digitar, mas é o que temos para hoje. Tentei o silêncio, na esperança de não reforçar a tensão geral. Foi bom por um tempo, até que senti falta de conversar.

Como estou em plena escrita da tese, para contrabalancear essa loucura de ser tão profundamente séria e inteligente (uhhh) por horas a fio, resolvi desengavetar aquele plano de publicar o meu romance "Elegia da gente viva” aqui. Só metade do livro está pronta, a outra vai sendo escrita em paralelo às postagens, então vocês podem palpitar. Talvez eu incorpore alguns desses comentários, se achar que eles forem produtivos para a estrutura geral. Independente disso, feedbacks são sempre bem-vindos. 

Decidi postar aqui no blog, porque não é um grande romance e, ao mesmo tempo, não me parece tão ruim para morrer como arquivo de Word. É uma forma de me forçar a terminá-lo sem que nenhuma árvore pague o preço da minha falta de talento. Aqui no blog, pelo menos, a gente se diverte um pouco. 

Pretendo postar duas vezes por semana, domingos e quartas-feiras.

***

Comentário aleatório, mas nem tanto.

Hoje fui fazer minha aula matinal de yoga e, além do anúncio do Cu-ai (que nervoso me dá de ver aquelas menores de idade rebolando... isso não deveria ser ilegal?), apareceu uma propaganda daquele coach Paulo Vieira. Ele denuncia uma grande conspiração da mídia e promete que, com uma palestra, vai nos libertar da ilusão. Agora, quem vai libertá-lo da ilusão de achar que é o próprio Buda? Isso ele não explica. 

Não é só esse cara, mas os parentes no zap também reproduzem o mesmo discurso antimidiático. Me surpreende todo o ódio que se construiu contra “a grande mídia”, sem, no entanto, chegar nem perto do cerne do problema que nos oprime, que é a desigualdade social promovida pelo capitalismo. Boicotar a Globo e a Folha de S. Paulo como se fossem o demônio não tem nada de revolucionário. Quem ganha com a deslegitimação da imprensa senão as pessoas que já estão confortavelmente instaladas no poder? Esse Paulo Vieira, como tantos outros pseudo-salvadores, é milionário e vai ficar ainda mais rico criando um inimigo contra o qual ele tenha uma solução rápida.

Posso dizer como jornalista que já trabalhou em redação de jornal: não existe nenhuma grande conspiração. Os veículos têm suas linhas editoriais, é verdade. Acho que não é segredo para ninguém que a Globo é anti-PT e foi decisiva para a repercussão da Lava Jato e do impeachment da Dilma, a Folha atualmente é anti-Bolsonaro, a Gazeta do Povo era anti-Requião... E, convenhamos, é melhor ser contra algo, do que lamber os sapatos dos poderosos, tipo o SBT defendendo a reforma trabalhista do Temer, e a Record promovendo pastores que devem milhões em impostos à União. Mas qualquer portal/impresso/TV/rádio sério, por mais que tenha linhas editoriais diversas, defendendo essas ou aquelas causas, vai contratar pessoas com ideias plurais. E o público também tem sua parcela de responsabilidade, pois cabe a ele se informar por diversas fontes e comparar informações para descobrir quais são os veículos sérios, em vez de só reproduzir tudo o que ouve por aí.

Os jornalistas sérios são os que escrevem suas reportagens depois de consultar diversas fontes, isto é, tendo ouvido mais de uma versão do mesmo fato. Fazem isso porque a verdade não é nada transparente. Por exemplo, se você é amigo de um casal que está se separando, verá que as histórias sobre o mesmo casamento serão desencontradas. O casal está mentindo? Talvez, mas não necessariamente, é só porque cada um experimenta a realidade com o filtro das suas emoções.

Então, quando o “presidente”, em seu último pronunciamento, diz que está desde o início da pandemia comprometido em combatê-la, pode ser só uma mentira deslavada, como pode ser que, para ele, incentivar as pessoas a tomar cloroquina e continuar circulando sem máscara é uma forma eficaz de combater a pandemia. É como ele vê a realidade, mas nós não devemos simplesmente aderir sem comparar com outras versões, de preferência a de pessoas que entendam do assunto e tenham algo a acrescentar: gestores públicos, profissionais da saúde, pesquisadores (em especial, epidemiologistas)... Um bom texto jornalístico nunca vai apresentar apenas uma perspectiva. Pelo contrário, quanto mais pessoas forem consultadas, mais chances há de o jornalista dar uma visão, se não imparcial, ao menos complexa da realidade.

Atenção: não confundir reportagem com artigo de opinião. Notícias de blogs tendenciosos que só entrevistam uma única pessoa (isso quando entrevistam) também não são jornalismo. Isso é propaganda disfarçada de jornalismo.

Estamos todos trancados em casa, ou melhor, quem tem o privilégio de fazer home office está, e, mesmo que não estivéssemos, não temos condições de acompanhar de perto as movimentações dos políticos. Então, a imprensa nos faz um serviço essencial de nos dar informações sobre o que está acontecendo nas instâncias de poder. Falam mal do “presidente” porque o odeiam? Talvez, mas principalmente porque é obrigação dela cobrar dos políticos que façam uma boa gestão. Esse sempre foi o acordo democrático. Não é à toa que a imprensa costumava ser chamada de "quarto poder": pois fiscaliza os abusos dos outros três.

Repito: não há nenhuma teoria da conspiração. A função da imprensa sempre foi vigiar e cobrar os poderosos – lembrando que alguns veículos fazem isso com mais ou menos seriedade, então temos que aprender a escolher nossas fontes e a diversificá-las. O que não entendo é por que as pessoas, de repente, começaram a se incomodar com esse serviço democrático? Quem souber, por favor, me diga.

Talvez a pergunta, na verdade, seja: por que as pessoas às vezes se cansam da democracia?

Comentários

  1. Porque democracia dá trabalho e ninguém quer trabalho. Enquanto a água não bate na bunda das pessoas, a maioria tá tranquila.
    Além disso, o medo faz com que as pessoas não pensem racionalmente. Quer controlar alguém? Bota medo nele(a). Vai ficar muito fácil convencê-lo(a).

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    1. Gostei da explicação. Fez td sentido.

      Mas ainda é triste. As pessoas não têm honra, só um instinto de autopreservação meio desajustado (tipo poluir um rio inteiro pra ganhar uns trocos).

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  2. P.S. Já que seus dedos estão doendo de tanto digitar, que tal virar instagramer ou tiktoker? :P

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    1. Vou pensar no assunto... Será q a internet ta pronta pra acolher uma avalanche de imagens de uma pessoa absolutamente ordinária?

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    2. Você quer dizer, MAIS UMA pessoa absolutamente ordinária? É, acho que tem espaço.

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    3. Internet é tipo coração de mãe? Sempre tem espaço pra mais um filho ingrato?

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    4. A julgar pela quantidade de pessoas que estão nessa, é maior que coração de mãe. Hoje todo jovem quer ser famosinho nas xoxo media.

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  3. Não acho que as pessoas estejam cansadas de democracia, mas sim de democracia mediada por instituições. Democracia representativa, no geral. Aí sai Ciência e entra o médico do zap, sai mídia tradicional e entram uns descompensados se filmando e falando a verdade verdadeira enquanto dirigem, saem partidos e entra o genocida.
    Sobre o romance, as mensagens no blog sobre o romance serão também o romance? Com aí o romance dando um nó meio borges sendo um romance sobre um blog em que se publica não um, mas sim o próprio, romance?

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    1. Uau, qm é a pessoa cabeçuda q vem com esse comentário borgiano? Algo a se pensar... Se a arte for entendida como processo, td isto td já é o romance...

      Sobre democracia. Ok, democracia representativa tem tds seus vícios, mas estamos comprometidos com uma democracia participativa sendo q a maioria das pessoas não comparece nem a reunião de condomínio? Fica só a sensação de q estamos engajados... Mas estamos mesmo?

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    2. Democracia representativa tem todos os seus vícios, mas, bem, fora os nove, funcionava (um pouco). O que a gente tá tendo agora é uma democracia de condomínio em que ninguém vai na reunião, todo munto desperdiça água porque "vai ratear mesmo", o grupo de whatsapp do condomínio vai de fofocas sobre a vizinha do 202 que anda recebendo velhos em carrões a teorias mirabolantes sobre como o filho do prefeito vai usar uma fábrica de salsicha pra desvalorizar o prédio e, por fim, botaram de síndico o ex-policial truculento que "fala mesmo, na lata, o que a gente pensa" e anda com um 38tão pra fora da camisa.

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    3. Uma descrição muito viva do nosso país... A qm devo agradecer pelas palavras? Aliás, não garanto q meu romance será nesse nível. Ele foi escrito numa época em q a política não nos atropelava dentro das nossas próprias casas. Tempos mais singelos, em q o maior dos problemas era candy crush.

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