"Essa vida é mesmo...
... um barco de merda, navegando em um mar de mijo, impulsionado por uma forte vendaval de peidos."
(Waly Salomão, "Self-portrait", in: Me segura q'eu vou dar um troço)
**
Depois do verso do maravilhoso Waly Sailormoon, fica difícil colocar algum conteúdo mais relevante, mas preciso dar notícias a vocês sobre a minha tentativa de resistir ao consumismo.
Obviamente eu fracassei.
Fiquei uma semana inteira sem abrir sites aleatórios de compras e aproveitei também o embalo para suspender o hábito de checar o noticiário a cada hora. Isso, em tempos de internet, foi um uma internidade (sorry...), deu tempo de o "presidente" fazer um zilhão de merdas e de passarem uns cinco caras pelo Ministério da Saúde. Ou seja, o ciclo "normal" de acontecimentos do Brasil pós-2016. A diferença é que não gastei meu tempo formando opiniões sobre a atitude de um bando de ignorantes raivosos. Alienação? Só desisti de esperar qualquer bom senso dessa turma. Para que falar se não há diálogo? A única medida cabível neste momento é o impeachment (mais um... e assim continuará enquanto não aprendermos a votar), ainda que seja uma grande sinuca de bico que nos coloca direto no colo dos militares. Estamos em xeque-mate, fingindo que ainda existe alguma possibilidade de jogo pela frente. Quando se disse, nas últimas eleições, que o Mourão era uma blindagem anti-impeachment, eles sabiam o que estavam fazendo... Por outro lado, penso que o verdadeiro plano, supondo que essa gente tenha alguém inteligente por trás, era baixar tanto o nível da política a ponto de fazer os militares parecerem uma opção viável até para a população progressista. Mas eles não contavam com a nossa infinita tolerância com o mal (não há outro termo, sejamos diretos). Imagino que o "presidente" deva estar agora fundindo os miolos, todos os dois, para pensar num absurdo ainda maior para a gente finalmente reagir, só que o brasileiro é mesmo um gigante adormecido, a gente tomou uma caixa de Dramin torcendo para acordar só em 2022, ou nem acordar.
Mas por que estou falando disso? É outro vício destes tempos... Todo mundo se acha comentador de política.
Voltando ao assunto principal do post, não olhar esses sites de compras e notícias foi muito proveitoso para meu estado de espírito. Me permiti viver as angústias ao meu modo em vez de entrar no delírio coletivo.
Eu fracassei no momento em que lembrei que uma amiga estava para ter bebê e eu precisaria comprar um presente. Pronto, passei a noite toda olhando sites e perfis de instagram. Não comprei nada, porque as opções são infinitas e eu sinto que preciso percorrer todas elas antes de me decidir. Acordei num estado de ansiedade, já pronta para continuar olhando, olhando...
Duas questões decorreram dessa experiência.
Primeira. Entendi que não se trata de mero consumismo, desejo de ter mais coisas, já que muitas vezes não chegamos a realizar a compra propriamente. Num mundo em que estamos imobilizados em nossas casas, parece que esses sites vieram para nos iludir de que temos alguma liberdade de escolha. Parem pra pensar na vida que levamos, não poderia ser mais padronizada, até os sonhos parecem ser os mesmos, as casas, os cachorros, os momentos de lazer, tudo com um filtro estilo instagram. O modo como os produtos se nos apresentam, numa infinidade de opções, criam a ilusão de que ainda podemos encontrar um modo de vida autêntico. Respondo: não podemos, já que a esfera pública grita nos nossos ouvidos 24 horas por dia, e somos apenas umas baratinhas reagindo aos estímulos vindos daí [1]. Nós mesmos não propomos nada de novo, somos escravos das pautas alheias. A porta da nossa casa está escancarada pra qualquer um entrar.
Segunda. Fiquei me perguntando se não existe alguma lei que proíba a exposição de crianças nas redes sociais. Os pais, sobretudo as celebridades, violam a privacidade de seus filhos desde a gestação, expondo-os ao escrutínio de estranhos. Imagino que seja um treinamento para que cresçam esvaziados e continuem cedendo todo o poder à esfera pública. O que ganham com isso? Uma postagem com um bebê fofo usando uma roupinha da coleção nova da marca $$$ deve gerar muito engajamento, então esses pais ganham dinheiro às custas dos filhos, ou migalhas de afeto, no caso de não-celebridades. Crianças prostituídas pelos próprios pais, rebelai-vos! Reivindicai o próprio corpo, pois esse obviamente não vos pertence! Bebês de todo mundo, uni-vos!
Em resumo, não comprei ainda o presente, e estou muito chateada pelas horas que perdi e que não voltarão. Espero que vocês não tenham essa mesma sensação de perda após ler este post.
Nademos, que até o barco de merda já se desfez.
**
[1] Heidegger já disse tudo isso há quase cem anos. Pra quem tem preconceito por sua breve adesão ao nazismo, a Escola de Frankfurt, que foi perseguida pelos nazistas, também disse isso. Curioso que nazismo é mesmo a violência pura, dado que eles perseguiram até o próprio Heidegger, seu apoiador, no momento em que este quis ter alguma ideiazinha própria. E alguém achava que Bolsonaro seria diferente? Desculpem ter mencionado o nome do diabo.
(Waly Salomão, "Self-portrait", in: Me segura q'eu vou dar um troço)
**
Depois do verso do maravilhoso Waly Sailormoon, fica difícil colocar algum conteúdo mais relevante, mas preciso dar notícias a vocês sobre a minha tentativa de resistir ao consumismo.
Obviamente eu fracassei.
Fiquei uma semana inteira sem abrir sites aleatórios de compras e aproveitei também o embalo para suspender o hábito de checar o noticiário a cada hora. Isso, em tempos de internet, foi um uma internidade (sorry...), deu tempo de o "presidente" fazer um zilhão de merdas e de passarem uns cinco caras pelo Ministério da Saúde. Ou seja, o ciclo "normal" de acontecimentos do Brasil pós-2016. A diferença é que não gastei meu tempo formando opiniões sobre a atitude de um bando de ignorantes raivosos. Alienação? Só desisti de esperar qualquer bom senso dessa turma. Para que falar se não há diálogo? A única medida cabível neste momento é o impeachment (mais um... e assim continuará enquanto não aprendermos a votar), ainda que seja uma grande sinuca de bico que nos coloca direto no colo dos militares. Estamos em xeque-mate, fingindo que ainda existe alguma possibilidade de jogo pela frente. Quando se disse, nas últimas eleições, que o Mourão era uma blindagem anti-impeachment, eles sabiam o que estavam fazendo... Por outro lado, penso que o verdadeiro plano, supondo que essa gente tenha alguém inteligente por trás, era baixar tanto o nível da política a ponto de fazer os militares parecerem uma opção viável até para a população progressista. Mas eles não contavam com a nossa infinita tolerância com o mal (não há outro termo, sejamos diretos). Imagino que o "presidente" deva estar agora fundindo os miolos, todos os dois, para pensar num absurdo ainda maior para a gente finalmente reagir, só que o brasileiro é mesmo um gigante adormecido, a gente tomou uma caixa de Dramin torcendo para acordar só em 2022, ou nem acordar.
Mas por que estou falando disso? É outro vício destes tempos... Todo mundo se acha comentador de política.
Voltando ao assunto principal do post, não olhar esses sites de compras e notícias foi muito proveitoso para meu estado de espírito. Me permiti viver as angústias ao meu modo em vez de entrar no delírio coletivo.
Eu fracassei no momento em que lembrei que uma amiga estava para ter bebê e eu precisaria comprar um presente. Pronto, passei a noite toda olhando sites e perfis de instagram. Não comprei nada, porque as opções são infinitas e eu sinto que preciso percorrer todas elas antes de me decidir. Acordei num estado de ansiedade, já pronta para continuar olhando, olhando...
Duas questões decorreram dessa experiência.
Primeira. Entendi que não se trata de mero consumismo, desejo de ter mais coisas, já que muitas vezes não chegamos a realizar a compra propriamente. Num mundo em que estamos imobilizados em nossas casas, parece que esses sites vieram para nos iludir de que temos alguma liberdade de escolha. Parem pra pensar na vida que levamos, não poderia ser mais padronizada, até os sonhos parecem ser os mesmos, as casas, os cachorros, os momentos de lazer, tudo com um filtro estilo instagram. O modo como os produtos se nos apresentam, numa infinidade de opções, criam a ilusão de que ainda podemos encontrar um modo de vida autêntico. Respondo: não podemos, já que a esfera pública grita nos nossos ouvidos 24 horas por dia, e somos apenas umas baratinhas reagindo aos estímulos vindos daí [1]. Nós mesmos não propomos nada de novo, somos escravos das pautas alheias. A porta da nossa casa está escancarada pra qualquer um entrar.
Segunda. Fiquei me perguntando se não existe alguma lei que proíba a exposição de crianças nas redes sociais. Os pais, sobretudo as celebridades, violam a privacidade de seus filhos desde a gestação, expondo-os ao escrutínio de estranhos. Imagino que seja um treinamento para que cresçam esvaziados e continuem cedendo todo o poder à esfera pública. O que ganham com isso? Uma postagem com um bebê fofo usando uma roupinha da coleção nova da marca $$$ deve gerar muito engajamento, então esses pais ganham dinheiro às custas dos filhos, ou migalhas de afeto, no caso de não-celebridades. Crianças prostituídas pelos próprios pais, rebelai-vos! Reivindicai o próprio corpo, pois esse obviamente não vos pertence! Bebês de todo mundo, uni-vos!
Em resumo, não comprei ainda o presente, e estou muito chateada pelas horas que perdi e que não voltarão. Espero que vocês não tenham essa mesma sensação de perda após ler este post.
Nademos, que até o barco de merda já se desfez.
**
[1] Heidegger já disse tudo isso há quase cem anos. Pra quem tem preconceito por sua breve adesão ao nazismo, a Escola de Frankfurt, que foi perseguida pelos nazistas, também disse isso. Curioso que nazismo é mesmo a violência pura, dado que eles perseguiram até o próprio Heidegger, seu apoiador, no momento em que este quis ter alguma ideiazinha própria. E alguém achava que Bolsonaro seria diferente? Desculpem ter mencionado o nome do diabo.
Melhor presente é dinheiro. A pessoa gasta com o que ela quiser/precisar, você sabe exatamente o quanto o presente vale e não tem problema de trocar.
ResponderExcluirNão descobriu ainda o pinterest pra ficar perdendo tempo?
Eu concordo com vc, mas tenho medo de ser mt impessoal.
ExcluirPinterest roubou meu verão de 2018, eu gostava de ver casas rústicas. Nunca mais, entrou pra lista negra de sites.