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Uma nota sobre relacionamentos

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(Desculpo-me desde já com os leitores se os últimos posts estão parecendo a coluna da Danuza Leão. Se for para criticar, que me chamem de Carrie Bradshaw, que tem muito mais estilo.) Relacionamento é uma palavra pesada. Talvez porque traga implícito o plural, já que você se relaciona com o(s) outro(s). Talvez porque remeta a ideias como compromisso, responsabilidade, sacrifício. Enfim, só coisa bacana. Relacionar-se é como estar num elevador subindo com dez obesos a bordo, chega a dar calafrios diante da iminente catástrofe. Ainda assim, ninguém quer ficar sozinho – pelo menos, não o tempo inteiro. Mesmo o cara egocêntrico (e sei do que estou falando) precisa do outro para se afirmar. Ao longo da vida construímos laços diversos: familiares, profissionais, de amizade (qual é o adjetivo correspondente a essa locução?) e amorosos. Esses últimos podem estar presentes nos anteriores, mas o destaco como uma categoria à parte para me referir aos casos que envolvem atração física. Vejam...

Ter 30 anos (a classe média no divã)

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Qual foi o aniversário mais feliz da sua vida? Eu acredito que, até os 19 anos, a comemoração seja uma curva ascendente de alegria. Com um ano, tem uma festa superlegal só para você. Aos dois, entende um pouco o que está acontecendo e até brinca. Aos três, ganha um brinquedo de pilha. Aos quatro, um com pecinhas pequenas. Aos cinco, você exibe sua primeira janelinha. Aos seis, consegue ler tudo o que vê pela frente. Aos sete, expõe orgulhoso um gesso cheio de assinaturas. Aos oito, já é grande o suficiente para receber jogos mais elaborados. Aos nove, dá-se ao luxo de dizer “este ano não quero nada, tem gente precisando mais do que eu”. Aos dez, já lê livro sem ilustração. Aos onze, comenta com os adultos a estratégia do seu time de futebol. Aos doze, todos ficam impressionados com os dez centímetros ganhos de repente e dizem que parece moço. Aos treze, compõe seu primeiro soneto. Aos quatorze, paga seus próprios gibis com os trocados das aulas particulares de matemática. Aos quinze...

O maravilhoso e a verdade

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Enquanto não escrevo um texto de punho próprio, deixo aqui um trecho do livro "As viagens de Gulliver", de Jonathan Swift. Neste excerto, ele faz humor sobre advogados. No romance em questão, esses eram profissionais de ética muito duvidosa que habitavam um dos países que Gulliver visita. É fascinante como a literatura maravilhosa, ao distorcer a realidade, está, na verdade, olhando-a através de uma lupa muito potente. Espero que o trecho os divirta tanto quanto me divertiu. Eu disse existir entre nós uma sociedade de homens educados desde a juventude na arte de prova, por meio de palavras multiplicadas para esse fim, que o branco é preto, e que o preto é branco, segundo eram pagos para dizer uma coisa ou outra. Todo o resto do povo é escravo dessa sociedade. Por exemplo, se o meu vizinho tenciona ficar com a minha vaca, contrata um advogado para prova que deve tirar-me a vaca. Nesse caso, tenho de contratar outro advogado para defender os meus direitos, pois é contrário...

Benditos os enrustidos e os atormentados...

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... porque eles nos agraciam com boa ficção! No finalzinho do ano passado, a Companhia das Letras editou os “28 contos de John Cheever”, selecionados por Mario Sergio Conti. O livro teria passado despercebido por mim não fosse a revista piauí ter publicado agora em janeiro trechos do diário do autor. O texto era tão delicioso que eu precisava descobrir se ele era tão bom ficcionista quanto memorialista. Comprei o compêndio de contos no dia seguinte e, apesar das altas expectativas, ele conseguiu me fascinar ainda mais. Nos relatos íntimos, publicados originalmente na década de 1990 pelos filhos, acompanhamos o esfacelamento de um homem que tinha uma vida perfeita. Casamento duradouro, filhos saudáveis e bem encaminhados, uma bela casa no subúrbio, talento reconhecido, nenhum problema financeiro. Isso era o que todos viam. O diário mostra que o bom cidadão convivia quase harmonicamente com o alcoólatra, o adúltero e o pederasta. Da mesma forma que ele vivia em estado de contradiç...

Pelo fim do preconceito com “Somewhere”

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“Um lugar qualquer” (Somewhere) é o novo filme de Sofia Coppola, que estreou ontem no Brasil. Apesar de não ser grande fã da diretora, estava curiosa para ver o que ela havia aprontado desta vez, dado o seu currículo de produções originais e cuidadosas. De apenas uma coisa tinha certeza: não se trataria de um blockbuster – “então o que seria?”, eu me perguntava. Convidei algumas pessoas para me acompanhar, mas ninguém se animou a ir (ainda que o ingresso custasse apenas R$ 3), alegando que seria chato. Não há muito que dizer contra esse comentário. De fato, Sofia traz como constante em seus filmes retratos da solidão, do tédio e da incomunicabilidade entre as pessoas. O seu ritmo é um pouco diferente do hollywoodiano e mais próximo do europeu, com cenas longas, poucos diálogos, quase nenhuma ação. Ela praticamente reduz o movimento (representado no cinema por 24 fotografias por segundo) de volta à imagem estática. Tudo o que eu disse até agora talvez só confirme a corrente do “é c...

Se não me amares, eu te amarei

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Acima, vídeo de Maria Callas cantando “L’amour est un oiseau rebelle (Habanera)”. Esta música é da ópera “Carmen”, composta por Georges Bizet entre 1863 e 1864. O ritmo soa familiar, não? Em parte, porque foi importado de terras americanas, mais especificamente de Cuba; e também porque a história da cigana espanhola já faz parte do imaginário popular. Mesmo se você não frequenta teatros, acaba conhecendo uma ou outra coisa a respeito. Carmen é uma cigana espanhola que tem fama de devoradora de corações. De fato, ela é bastante bonita, independente e forte. Embora dúzias de pretendentes a sigam, ela não se prende a ninguém nem faz sacrifícios pelo amado da vez. Eu acredito que ela até ame, mas de forma descompromissada, isto é, não tenta fazer aquilo durar para sempre. Don José é bom filho e soldado. Está comprometido com a também honesta (e insossa) Micaela, mas tem a “sorte” de ser escolhido por Carmen. Ela lhe atira uma rosa enfeitiçada que o faz amá-la imediatamente. Assim, e...

Por que “Cisne negro” é duca

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 Fevereiro, mês feliz para os cinéfilos. É quando estreia a maioria dos grandes concorrentes ao Oscar. Até agora, consegui assistir a “Biutiful” e “Cisne negro”. Trata-se de duas produções super-estimadas pela crítica. Quando a gente finalmente vai vê-las, dá aquele medo de se deparar com filmes simplesmente bons, e não extraordinários. O primeiro tinha todos os ingredientes para ser duca (subúrbio, conflitos raciais, misticismo versus realidade), mas, para mim, acabou sendo simplesmente bom. O segundo, apesar da expectativa igualmente alta, conseguiu surpreender. Talvez seja falta de repertório cinematográfico meu, mas achei muito original a ambientação de balé – não confundamos com dança de salão ou de rua, que suscita outros tipos de conflitos. Uma trama sobre bailarinas tem todos os pontos positivos de filmes clássicos de boxeadores (treinos rigorosos; escoriações; pressão do treinador, da família e dos opositores; busca de um estilo próprio; o esporte e a vida do atleta...

A conjunção de cérebro e coração

No início do ano passado, inscrevi-me para um curso intensivo de italiano. Três semanas, quatro horas diárias, e teria meu diploma na língua. Eu havia acabado de chegar à cidade, quando fiquei sabendo que a turma fora cancelada. Era janeiro, as aulas já estavam pagas, eu terminara a faculdade há um mês, era mais uma desempregada na cidade grande. O que me restava fazer? Tomei a decisão mais estranha naquele momento: pedi para me transferirem para a turma de alemão. Embora eu tenha a pretensão de me tornar poliglota, alemão não estava entre minhas prioridades. Não tenho raízes germânicas, nem me identifico com a cultura. Da literatura daquele país, só conhecia o básico de Thomas Mann (“A montanha mágica”), Johann Goethe (“Werther” e “Fausto”) e Franz Kafka (“A metamorfose” e “O processo”). Ainda tentei ler algo de Günter Grass (“A ratazana”), mas não foi amor à primeira vista – não por culpa dele, eu que tenho algum problema com contemporâneos. De qualquer forma, segui com o cur...

Exercício de prosa I

(Para evitar mal entendidos, gostaria de deixar bem claro que este é um texto de ficção. Era para ser um conto, mas acho que, no fim das contas, não passa de uma crônica. Sou como o personagem de Machado de Assis, Pestana, que só consegue produzir polcas, nunca sinfonias. Que pelo menos vocês dancem ao som delas e se divirtam!) -- (sem título) Você se lembra daquelas garotas? Elas passavam reluzentes no corredor da escola. Até o uniforme às sete e trinta da manhã caía bem nelas. Grandes coisas! Isso de nada lhes valia no final do ano, quando já estávamos de férias e elas ainda estudavam duas semanas a mais para as provas de recuperação. Agora, no resto do ano, aquilo lhes valia ouro. Era no mínimo um convite para festa por semana. Chegava segunda-feira, o segundo escalão – as aspirantes não tão bem dotadas de beleza nem dinheiro, porque, injustamente, uma só se manifesta em presença do outro – tratavam de divulgar todos os detalhes sórdidos. Reza a lenda que elas nunca repeti...

Breve manual para ler Laurence Sterne

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Você conhece Laurence Sterne? É o cara da pintura acima (feita por Joshua Reynolds em 1760). Há um ano, eu mesma vivia minha pacata vida sem nunca ter ouvido falar dele. Agora, se você, ao contrário de mim, é um leitor atento, provavelmente achará o nome familiar. Isso porque ele é mencionado em Memórias póstumas de Brás Cubas . Segundo o defunto-autor, o pastor inglês lhe serviu de fonte de inspiração para o modo de escrever. No meio acadêmico, esse estilo ficou conhecido como forma livre. Sterne, ou Tristam Shandy, que é seu personagem-narrador, descreve sua escrita como digressiva-progressiva. Isto é, o narrador foge o tempo todo do assunto principal, conta várias historietas paralelas, volta no tempo, conversa com o leitor (xingando-o e justificando-se para ele), mas sem cair no mero enchimento de linguiça. As divagações trazem coisas importantes para a história. Eu diria até que elas são o propósito do livro em si. Só que, convenhamos, essa escrita de bêbado – que vai pra lá,...