Uma nota sobre relacionamentos


(Desculpo-me desde já com os leitores se os últimos posts estão parecendo a coluna da Danuza Leão. Se for para criticar, que me chamem de Carrie Bradshaw, que tem muito mais estilo.)

Relacionamento é uma palavra pesada. Talvez porque traga implícito o plural, já que você se relaciona com o(s) outro(s). Talvez porque remeta a ideias como compromisso, responsabilidade, sacrifício. Enfim, só coisa bacana. Relacionar-se é como estar num elevador subindo com dez obesos a bordo, chega a dar calafrios diante da iminente catástrofe.

Ainda assim, ninguém quer ficar sozinho – pelo menos, não o tempo inteiro. Mesmo o cara egocêntrico (e sei do que estou falando) precisa do outro para se afirmar.

Ao longo da vida construímos laços diversos: familiares, profissionais, de amizade (qual é o adjetivo correspondente a essa locução?) e amorosos. Esses últimos podem estar presentes nos anteriores, mas o destaco como uma categoria à parte para me referir aos casos que envolvem atração física. Vejam só, os relacionamentos amorosos já se tornaram problemáticos nesta singela classificação e assim o são também pela vida. Não que os outros tipos não tragam conflitos. Claro que sim. Mas por que, em geral, é mais difícil encontrar um grande amor do que um amigo leal?

Uma pausa para buscar o catalisador de sentimentos, um pote de doce de leite, por falta de chocolate.

Aliás, preciso fazer um breve comentário gastronômico. Como todos sabem, a bauruzeira é item essencial do kit de sobrevivência do solitário. Dá para fazer maravilhas com ela, como pão de queijo recheado com requeijão e peito de peru, pão francês com chocolate, sanduíche de dois queijos com azeitona, orégano e pimenta. Recentemente, descobri outra maravilha: pão com doce de leite. Por fora, fica uma casquinha e, por dentro, bem cremoso (a consistência lembra a do pão com chocolate). Se você der um toque de castanha de caju picada e canela, fica similar a churros.

Voltando à pergunta capciosa, eu responderia que a dificuldade deriva de um problema taxonômico. Trocando por miúdos. Se lhe questionarem o que é necessário para ser um bom amigo, você responderá tranquilamente. Agora, se você tiver que elencar as características de um bom amante/namorado/marido, a coisa muda. Mesmo que você escolha uma meia dúzia (ou uma dúzia que seja) de palavras bonitas – fiel, amigo, carinhoso, disponível, bom ouvinte etc. etc. –, isso será garantia de um relacionamento bem-sucedido?

Se o seu companheiro é tudo isso, mas comete um erro qualquer, ele deixa de ser o que era? E mais: as suas necessidades afetivas se mantêm as mesmas ao longo da vida? Pode acontecer de a pessoa não mudar para o mesmo lado que você. E daí, como fica?

Esses são problemas para manter um bom relacionamento. Para começar um, então, vêm tantos outros. O que ele está disposto a oferecer? O que ele espera de mim? Posso confiar nele e baixar a guarda? Está na hora de parar de procurar? No que isso vai dar? E a pergunta básica: ele gosta mesmo de mim?

Parece muita insegurança? Pois eu acredito piamente que mesmo Angelina Jolie já deve ter passado por esse questionário. Quem somos nós para ter certeza de alguma coisa quando há outra pessoa envolvida – e pior, alguém que você acabou de conhecer, que recebeu uma criação diferente da sua, que viveu muitas experiências que você ignora –? Por melhor que você seja, não quer dizer que vai ser tratado com respeito. Por pior que seja, não quer dizer que ninguém vai amá-lo de verdade. Ou seja, a lógica e a justiça simplesmente não funcionam nesse campo!

Nada do que eu poderia dizer com base nas minhas vivências se aplicaria de forma infalível a todos os demais casos. Um filme de que gosto muito é “Harry e Sally: feitos um para o outro” (vejam uma resenha aqui). Apesar do subtítulo ridículo da tradução, o ponto forte da história é justamente o casal não ter nada em comum. Eles sequer simpatizam um com o outro, entretanto, o destino toma rumos estranhos e a coisa toda dá certo.

Uma situação bastante comum é quando um relacionamento se transforma num monstro, absorvendo suas energias e seu tempo. O mesmo pode acontecer com uma possibilidade de relacionamento. Essa última é a pior, acredito, porque leva você àqueles mesmos questionamentos retóricos, faz você rever e analisar cada ação sua e dele e, lógico, sem encontrar qualquer resposta. Se não há fórmulas que nos ajudem, como lidar com isso? Nessas horas, digo apenas (e sem a ironia de “Um homem sério”): aceite o mistério.

Filmes e livros que terminam sem um desfecho claro dão raiva, não é mesmo? Mas a gente nunca vai saber de tudo na vida, por mais que corra atrás das respostas. Em vez de se revoltar com isso, o melhor a fazer é deixar para lá. Cada vez que os pensamentos obsessivos ameaçarem voltar, você os ignora. Demora, eu sei, mas uma hora simplesmente passa.

No fim das contas, escrevi sobre como superar um não-amor em vez de como começar um amor. Relacionamento é assim mesmo: você entra nele com alguns objetivos na cabeça, mas a tendência é ser arrastado para onde você não planejava e nem queria ir.

Esta é a hora em que pegamos todo o meu longo discurso acima, amassamos e jogamos no lixo. Metas e classificações do amor não vão nos ajudar em nada. É como brincar de gato mia no escuro. A chance de você se dar mal é enorme. Você tenta aguçar os ouvidos para antecipar o movimento dos outros, tateia para não se machucar e eventualmente burla as regras olhando por baixo da venda, e nada disso é garantia de vitória. O jogo é estúpido, não recompensa os seus méritos, mas até que pode ser divertido.

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Um adendo. Hoje, na página principal do UOL, tem uma matéria chamada "Dedo podre: por que há mulheres que só escolhem homens errados?". Lembrei-me na hora da personagem Marilda (Andrea Beltrão). Em homenagem a ela, posto abaixo um vídeo que resume bem os problemas dela. Divirtam-se!

Comentários

  1. é, o melhor msm é ficar sozinha ;c

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  2. Bem, pra ter um relacionamento, o importante é se comunicar:

    http://www.youtube.com/watch?v=YzrrExK5yAM

    E não vou te chamar de Carrie Bradshaw, porque lá rolava mais sex.

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