A conjunção de cérebro e coração

No início do ano passado, inscrevi-me para um curso intensivo de italiano. Três semanas, quatro horas diárias, e teria meu diploma na língua.

Eu havia acabado de chegar à cidade, quando fiquei sabendo que a turma fora cancelada. Era janeiro, as aulas já estavam pagas, eu terminara a faculdade há um mês, era mais uma desempregada na cidade grande. O que me restava fazer?

Tomei a decisão mais estranha naquele momento: pedi para me transferirem para a turma de alemão.

Embora eu tenha a pretensão de me tornar poliglota, alemão não estava entre minhas prioridades. Não tenho raízes germânicas, nem me identifico com a cultura. Da literatura daquele país, só conhecia o básico de Thomas Mann (“A montanha mágica”), Johann Goethe (“Werther” e “Fausto”) e Franz Kafka (“A metamorfose” e “O processo”). Ainda tentei ler algo de Günter Grass (“A ratazana”), mas não foi amor à primeira vista – não por culpa dele, eu que tenho algum problema com contemporâneos.

De qualquer forma, segui com o curso, bem aos tropeços. Minha hipótese para tamanha dificuldade se baseia no fato de eu não consumir, por livre e espontânea vontade, a produção cultural em língua alemã.

Os americanos nos deram o rock n’roll, Hollywood e as sitcoms; os franceses, vinhos, queijos, Carla Bruni, Baudelaire e Proust; os italianos, Umberto Eco, a tragicomédia, belos jogadores de futebol, Pinocchio e La Traviata.

E a Alemanha? Fazendo uma breve analogia de ideias: nazismo, repolho azedo, Angela Merkel (cara de antipática), Rammstein, gente branquela nua nos parques, Özil. Alguma coisa salva?

Esses dias atrás, porém, quando parei para pensar nos meus compositores favoritos, apareceu uma porção de nomes alemães (ou austríacos, que dá mais ou menos na mesma, considerando a unificação tardia da Alemanha). Beethoven (“Nona sinfonia”, “Sonata ao luar”, “Fur Elise”), Bach (“A paixão de São Mateus”), Mozart (“A flauta mágica”, “As bodas de Figaro”), Wagner (“O crepúsculo dos deuses”), Schubert, Mahler, Mendelssohn.

Dos quatro primeiros, nem precisa falar nada: são verdadeiros monstros do cânone. Todo mundo conhece seus nomes ou alguma de suas músicas, mesmo que inconscientemente (graças aos desenhos da Disney e da Warner Bros). Os dois últimos eu mesma só fui conhecer mais recentemente. Schubert por sua missa, que tive o privilégio de assistir ao vivo (vejam-na aqui - http://www.youtube.com/watch?v=wf1VWmOFDg0&playnext=1&list=PL83D75CF31FD0A105). Mahler e Mendelssohn pela internet.

Gustav Mahler (1860-1911), que ainda estou descobrindo, surpreendeu-me por seus ciclos de canções. Vocês podem escutar algumas delas na Rádio Uol: http://www.radio.uol.com.br/#/busca/album/Mahler:%20Song%20Cycles.

As quatro primeiras músicas da lista indicada acima formam o ciclo chamado “Lieder eines fahrenden Gesellen”, ou, em bom português, “Canções de um caminhante”. Elas são cantadas por um homem cujo grande amor acaba de se casar. Ele, então sai caminhando pesaroso pelos campos. No fundo, ele sabe que nunca será plenamente feliz. Dizem que Mahler se inspirou numa desilusão amorosa que ele sofreu pela cantora Johanna Richter.

Essas músicas, que misturam as cores do campo com o negrume da rejeição, provocam uma emoção também complexa no ouvinte. Há uma beleza leve (talvez pela ideia da caminhada pelas paisagens bucólicas) ao lado do desolamento e da trajédia. E isso a gente não encontra em música de péssima qualidade, que tende a ser plana. Preciso dar um exemplo contemporâneo? Há tantos, é só pegar uma balada sertaneja de sua preferência.

Mahler não se limitou a expressar a dor que ele sentiu realisticamente. Ele a lapidou com o coração e o cérebro, resultando numa conjunção perfeita, tocante. A gente nem precisa entender o que está sendo cantado para sofrer/sublimar junto.

Para quem, assim como eu, não tem o alemão tão afiado, poderá ver neste link a letra das quatro músicas traduzidas para o inglês: http://en.wikipedia.org/wiki/Lieder_eines_fahrenden_Gesellen.

No final das contas, começo a achar que a cultura germânica não é de todo esnobe.

Comentários

  1. Os alemães nos deram a oktober fest. I rest my case.

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  2. Eles tb deram pra gente o salsichao

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  3. Patrícia3/2/11 19:49

    Vi agora esse Özil. ô cara feio!

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  4. Verdade!! Oktober apavoraaa!
    E Rammstein também =D

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  5. Anônimo5/2/11 10:28

    Eu tinha essa mesma ideia sobre a cultura alemã quando comecei a estudar alemão. Tive medo que fosse um curso sacal como foi o de francês. Até hoje odeio a cultura francesa: seus livros, filmes e música, todos muito afetados pro meu gosto.
    Quanto à literatura, não me apareceu mais nada além de Sebald, Ingo Schulze e livros sobre o país, como o Stasilândia, da Anna Funder. Na música, fiquei mesmo só no Rammstein e em outras bandas de NDH, porque é jovem e jovem gosta de violência! Mas o cinema foi uma surpresa: só estava acostumado com os filmes chatos: Kaspar Hauser, o pior do Fritz Lang, etc. Comecei pelo Grupo Baader-Meinhof e achei demais, depois vi A Vida dos Outros, Edukators, etc. Hoje, meu diretor favorito é o Michael Haneke, que é austríaco, mas tudo bem.
    Ah, ano passado fui no guaíra assistir ao Titã, do Mahler. Bacana. Mas Schubert é chatão, durmo direto com as músicas dele.
    Beijo, Suelen!

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  6. Anônimo5/2/11 14:01

    comassim?? Ozil joga muito, haha
    ana

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  7. uma futura comunicóloga esquecendo de citar Karl Korsch, Max Horkheimer e Theodor Adorno e citando o Özil.

    (Ok, ele joga bem e a copa do mundo é recente ainda, mas enfim.. belo blog.)

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  8. como a cultura Alemã pode ser reduzida a repolho roxo e ao nazismo? é uma má indução aos leigos ahaha um tanto quanto imparcial. Bom, se tivesse citado malzbier e Karl Marx estaria perdoada.

    Maneling

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  9. Deutsch ist ganz einfach, aber das nicht so schlimm ist.

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