Exercício de prosa I
(Para evitar mal entendidos, gostaria de deixar bem claro que este é um texto de ficção. Era para ser um conto, mas acho que, no fim das contas, não passa de uma crônica. Sou como o personagem de Machado de Assis, Pestana, que só consegue produzir polcas, nunca sinfonias. Que pelo menos vocês dancem ao som delas e se divirtam!)
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(sem título)
Você se lembra daquelas garotas? Elas passavam reluzentes no corredor da escola. Até o uniforme às sete e trinta da manhã caía bem nelas.
Grandes coisas! Isso de nada lhes valia no final do ano, quando já estávamos de férias e elas ainda estudavam duas semanas a mais para as provas de recuperação.
Agora, no resto do ano, aquilo lhes valia ouro. Era no mínimo um convite para festa por semana. Chegava segunda-feira, o segundo escalão – as aspirantes não tão bem dotadas de beleza nem dinheiro, porque, injustamente, uma só se manifesta em presença do outro – tratavam de divulgar todos os detalhes sórdidos. Reza a lenda que elas nunca repetiram roupa. E os cabelos tão impecavelmente lisos! As coxas, bem menos santas, firmíssimas. (E não digam que eram graças aos 14 anos, porque nós também tínhamos essa idade!)
Nas nossas brincadeiras, elas pertenciam a um high school de filme americano. Seus nomes seriam Stancey, Britney, Tiffany e todos esses com vocação para cheerleaders. Fazíamos caretas quando elas passavam – entortávamos os olhos e a boca, monstruosas. Estávamos bem seguras de nossa superioridade, não estávamos?
Aqui, agora deste mês do corrente ano.
Cara amiga,
insiro o cabeçalho da carta só agora, porque este é o ponto em que ela realmente começa. Chamemos a primeira parte de prólogo. A croupier não podia distribuir as cartas sem primeiro avisar como todos devem jogar.
Até agora, ou um pouco antes disso, fui fiel às regras. Funcionou. Tive algumas vitórias, não só na vida profissional como na (pasme, minha cara!) pessoal. Quando dizíamos que os íntegros seriam recompensados, mesmo que fosse só para diminuir nossa frustração adolescente, estávamos mais próximas da verdade do que imaginávamos.
O problema é que bati os recordes cedo demais.
No topo do mundo, as coisas parecem tanto mais pacatas, entediantes. Quando me dei conta, estava correndo atrás de um táxi às quatro horas da manhã. Saltão, vestidinho, lápis preto levemente escorrido abaixo dos olhos.
Pode tirar essa cara de espanto e vestir uma mais crédula. Não virei puta, não sou como elas. Você me conhece! Naquela ocasião, eu só voltava de uma noitada com amigos. Agora tenho amigos no plural.
O segredo?
Faça assim. Supondo que você esteja em uma boate, procure um lugar para sentar no bar. Peça um drinque bem masculino, nada colorido ou com fumaça, uísque está de bom tamanho. Agora que suas mãos estão ocupadas, você naturalmente se apresenta a um homem que também esteja sozinho por ali. Sem truques. O uísque já falará por si: afirmará uma firmeza de caráter que talvez você nem tenha, com um toque clássico, estilo Casablanca. A conversa deve ser franca, mais séria do que aqueles palhaços de nariz branco, mais malandra do que a menor que acaba de entrar em coma alcoólico no banheiro.
Quando você menos esperar, a surpresa virá.
Uma vez conheci um menino (hoje a maioria das pessoas do mundo são mais novas do que nós; onde estão nossos coetâneos?) incrivelmente inteligente e sedutor. Noutra noite, ganhei um abraço bem intencionado de um estranho. Como eu decifrei as intenções dele? Simples: olhei para a cara do namorado dele, que parecia aprovar o gesto de carinho.
Mas no geral, não vou te enganar, é uma merda.
Sexta passada, por exemplo, eu ainda estava sóbria quando um gordo-musculoso começou a roçar sua genitália em mim. Deprimente? E pensar isso foi o melhor que consegui naquela noite!
O importante é não perder as esperanças.
Sei que, um dia, ainda vão inventar uma maquiagem que não borre, e eu ainda estarei impecável quando pegar o táxi sozinha às quatro da manhã.
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Concurso cultural: sugira um título para este texto!
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(sem título)
Você se lembra daquelas garotas? Elas passavam reluzentes no corredor da escola. Até o uniforme às sete e trinta da manhã caía bem nelas.
Grandes coisas! Isso de nada lhes valia no final do ano, quando já estávamos de férias e elas ainda estudavam duas semanas a mais para as provas de recuperação.
Agora, no resto do ano, aquilo lhes valia ouro. Era no mínimo um convite para festa por semana. Chegava segunda-feira, o segundo escalão – as aspirantes não tão bem dotadas de beleza nem dinheiro, porque, injustamente, uma só se manifesta em presença do outro – tratavam de divulgar todos os detalhes sórdidos. Reza a lenda que elas nunca repetiram roupa. E os cabelos tão impecavelmente lisos! As coxas, bem menos santas, firmíssimas. (E não digam que eram graças aos 14 anos, porque nós também tínhamos essa idade!)
Nas nossas brincadeiras, elas pertenciam a um high school de filme americano. Seus nomes seriam Stancey, Britney, Tiffany e todos esses com vocação para cheerleaders. Fazíamos caretas quando elas passavam – entortávamos os olhos e a boca, monstruosas. Estávamos bem seguras de nossa superioridade, não estávamos?
Aqui, agora deste mês do corrente ano.
Cara amiga,
insiro o cabeçalho da carta só agora, porque este é o ponto em que ela realmente começa. Chamemos a primeira parte de prólogo. A croupier não podia distribuir as cartas sem primeiro avisar como todos devem jogar.
Até agora, ou um pouco antes disso, fui fiel às regras. Funcionou. Tive algumas vitórias, não só na vida profissional como na (pasme, minha cara!) pessoal. Quando dizíamos que os íntegros seriam recompensados, mesmo que fosse só para diminuir nossa frustração adolescente, estávamos mais próximas da verdade do que imaginávamos.
O problema é que bati os recordes cedo demais.
No topo do mundo, as coisas parecem tanto mais pacatas, entediantes. Quando me dei conta, estava correndo atrás de um táxi às quatro horas da manhã. Saltão, vestidinho, lápis preto levemente escorrido abaixo dos olhos.
Pode tirar essa cara de espanto e vestir uma mais crédula. Não virei puta, não sou como elas. Você me conhece! Naquela ocasião, eu só voltava de uma noitada com amigos. Agora tenho amigos no plural.
O segredo?
Faça assim. Supondo que você esteja em uma boate, procure um lugar para sentar no bar. Peça um drinque bem masculino, nada colorido ou com fumaça, uísque está de bom tamanho. Agora que suas mãos estão ocupadas, você naturalmente se apresenta a um homem que também esteja sozinho por ali. Sem truques. O uísque já falará por si: afirmará uma firmeza de caráter que talvez você nem tenha, com um toque clássico, estilo Casablanca. A conversa deve ser franca, mais séria do que aqueles palhaços de nariz branco, mais malandra do que a menor que acaba de entrar em coma alcoólico no banheiro.
Quando você menos esperar, a surpresa virá.
Uma vez conheci um menino (hoje a maioria das pessoas do mundo são mais novas do que nós; onde estão nossos coetâneos?) incrivelmente inteligente e sedutor. Noutra noite, ganhei um abraço bem intencionado de um estranho. Como eu decifrei as intenções dele? Simples: olhei para a cara do namorado dele, que parecia aprovar o gesto de carinho.
Mas no geral, não vou te enganar, é uma merda.
Sexta passada, por exemplo, eu ainda estava sóbria quando um gordo-musculoso começou a roçar sua genitália em mim. Deprimente? E pensar isso foi o melhor que consegui naquela noite!
O importante é não perder as esperanças.
Sei que, um dia, ainda vão inventar uma maquiagem que não borre, e eu ainda estarei impecável quando pegar o táxi sozinha às quatro da manhã.
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Concurso cultural: sugira um título para este texto!
Eu chamaria isso de 'um quê de inveja tardia'
ResponderExcluirOlá, Suelen!
ResponderExcluirAdorei o texto. Parabéns pelo blog!
Ficarei devendo uma sugestão para o título. Criatividade zero, neste momento...
Passarei por aqui mais vezes!
Um abraço!