Breve manual para ler Laurence Sterne


Você conhece Laurence Sterne? É o cara da pintura acima (feita por Joshua Reynolds em 1760). Há um ano, eu mesma vivia minha pacata vida sem nunca ter ouvido falar dele. Agora, se você, ao contrário de mim, é um leitor atento, provavelmente achará o nome familiar. Isso porque ele é mencionado em Memórias póstumas de Brás Cubas. Segundo o defunto-autor, o pastor inglês lhe serviu de fonte de inspiração para o modo de escrever.

No meio acadêmico, esse estilo ficou conhecido como forma livre. Sterne, ou Tristam Shandy, que é seu personagem-narrador, descreve sua escrita como digressiva-progressiva. Isto é, o narrador foge o tempo todo do assunto principal, conta várias historietas paralelas, volta no tempo, conversa com o leitor (xingando-o e justificando-se para ele), mas sem cair no mero enchimento de linguiça. As divagações trazem coisas importantes para a história. Eu diria até que elas são o propósito do livro em si.

Só que, convenhamos, essa escrita de bêbado – que vai pra lá, vem pra cá e parece não chegar a lugar algum – tanto nos irrita quanto diverte. Para acompanhar o ritmo, é preciso estar muito bem treinado. Taí o propósito deste post: ajudar quem gostaria de ler Laurence Sterne.

Um dia, numa conversa sobre a dificuldade de progredir na leitura de A vida e as opiniões do cavaleiro Tristam Shandy (principal livro de Sterne), uma colega comentou que o livro dela estava todo amassado. Achei engraçado, porque o meu também sofrera uma ou outra lesão. Acontece assim. Você se senta para ler. Passam algumas páginas e a coisa não toma forma alguma na sua cabeça, é só um amontoado de palavras sem conexão. Aí você resolve se deitar, esperando que a posição mais confortável deixe o seu cérebro mais esperto. De repente, pá! Você é acordado pelo barulho do catatau de 500 e muitas páginas batendo no chão.

O que um livro que era para ser engraçado tem de tão difícil? Enumeraremos a seguir as barreiras que você tem que superar se quiser chegar à página 599 de A vida e as opiniões..., aquela que diz “FIM”, e também algumas dicas para vencê-las (este é um post de auto-ajuda literária!):

1. Falta de enredo. Mentalize que um livro pode ser muito agradável sem enredo. Exemplos? Poesia em geral, alguns sermões religiosos (amo!), filosofia. Ensaios, de Montaigne, é um belo começo para treinar o desapego ao enredo. Alô, pessoas que, como eu, cresceram vendo novelas da Globo: há coisas interessantes na vida além de ver a concretização do amor entre os mocinhos!

2. 617 notas de rodapé. Todas aquelas notas parecem estar gritando que nós somos uns estúpidos que não têm as referências necessárias para entender o livro. Isso é muito frustrante. A solução é ser humilde. Admita que você não poderia saber tudo aquilo e se abrace às notas como auxiliares na leitura.

3. Zilhões de referências. Se você tentar executar a dica acima ao pé da letra, vai se deparar com outro problema: são tantas referências que passará mais tempo preocupado tentando assimilá-las do que se divertindo com a narrativa. Cuidado com os extremos! A leitura exige, sim, atenção máxima, só que também, para fruí-la, aproveite a comicidade da situação. As primeiras páginas, por exemplo, relatam a concepção do narrador. Quando você visualiza a cena em si, sem se preocupar com o modo como ela é narrada, com certeza estará diante de um belo espetáculo pastelão (alle irmãos Marx). Sim, é permitido rir com um cânone da literatura! A beleza de Sterne, Machado, Rabelais e todos esses caras imortais é a oportunidade de eles nos oferecem de ter diversão. Pense só! Eles, muito provavelmente, foram mil vezes mais inteligentes que nós, mas, ainda assim, se renderam ao humor, proporcionando momentos em todos somos são iguais pelo riso.

4. Frases longas, cheias de sinais gráficos. Eu acredito piamente que esse jeito de escrever deveria ser uma facilidade e não uma dificuldade. Experimente ler um trecho do referido livro em voz alta. Percebeu que ele escreve igualzinho a uma pessoa falando? Tá, pode não ser igual a uma sujeito qualquer, mas talvez lembre muito aquele seu amigo de tendências alcoólatras que conta mil histórias longuíssimas no bar.

Pronto! Acho que essa última imagem resumiu bem o narrador de Sterne. Espero, com isso, ter deixado claro quão divertido é A vida e as opiniões...

Hoje faz x semanas que meu livro não cai no chão. Eu também era incrédula, mas depois que me rendi ao humor, minha vida literária nunca mais foi a mesma. É só acreditar!

PS: Se alguém se aventurar na leitura, gostaria muito de saber como foi a experiência.

Comentários

  1. Quero ler, mas vc me deixou com medo ;c

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  2. Nem vou colocar na lista de pretensões, pq a minha pilha física de livros a serem lidos nem diminuiu.

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