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Se não me amares, eu te amarei

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Acima, vídeo de Maria Callas cantando “L’amour est un oiseau rebelle (Habanera)”. Esta música é da ópera “Carmen”, composta por Georges Bizet entre 1863 e 1864. O ritmo soa familiar, não? Em parte, porque foi importado de terras americanas, mais especificamente de Cuba; e também porque a história da cigana espanhola já faz parte do imaginário popular. Mesmo se você não frequenta teatros, acaba conhecendo uma ou outra coisa a respeito. Carmen é uma cigana espanhola que tem fama de devoradora de corações. De fato, ela é bastante bonita, independente e forte. Embora dúzias de pretendentes a sigam, ela não se prende a ninguém nem faz sacrifícios pelo amado da vez. Eu acredito que ela até ame, mas de forma descompromissada, isto é, não tenta fazer aquilo durar para sempre. Don José é bom filho e soldado. Está comprometido com a também honesta (e insossa) Micaela, mas tem a “sorte” de ser escolhido por Carmen. Ela lhe atira uma rosa enfeitiçada que o faz amá-la imediatamente. Assim, e...

Por que “Cisne negro” é duca

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 Fevereiro, mês feliz para os cinéfilos. É quando estreia a maioria dos grandes concorrentes ao Oscar. Até agora, consegui assistir a “Biutiful” e “Cisne negro”. Trata-se de duas produções super-estimadas pela crítica. Quando a gente finalmente vai vê-las, dá aquele medo de se deparar com filmes simplesmente bons, e não extraordinários. O primeiro tinha todos os ingredientes para ser duca (subúrbio, conflitos raciais, misticismo versus realidade), mas, para mim, acabou sendo simplesmente bom. O segundo, apesar da expectativa igualmente alta, conseguiu surpreender. Talvez seja falta de repertório cinematográfico meu, mas achei muito original a ambientação de balé – não confundamos com dança de salão ou de rua, que suscita outros tipos de conflitos. Uma trama sobre bailarinas tem todos os pontos positivos de filmes clássicos de boxeadores (treinos rigorosos; escoriações; pressão do treinador, da família e dos opositores; busca de um estilo próprio; o esporte e a vida do atleta...

A conjunção de cérebro e coração

No início do ano passado, inscrevi-me para um curso intensivo de italiano. Três semanas, quatro horas diárias, e teria meu diploma na língua. Eu havia acabado de chegar à cidade, quando fiquei sabendo que a turma fora cancelada. Era janeiro, as aulas já estavam pagas, eu terminara a faculdade há um mês, era mais uma desempregada na cidade grande. O que me restava fazer? Tomei a decisão mais estranha naquele momento: pedi para me transferirem para a turma de alemão. Embora eu tenha a pretensão de me tornar poliglota, alemão não estava entre minhas prioridades. Não tenho raízes germânicas, nem me identifico com a cultura. Da literatura daquele país, só conhecia o básico de Thomas Mann (“A montanha mágica”), Johann Goethe (“Werther” e “Fausto”) e Franz Kafka (“A metamorfose” e “O processo”). Ainda tentei ler algo de Günter Grass (“A ratazana”), mas não foi amor à primeira vista – não por culpa dele, eu que tenho algum problema com contemporâneos. De qualquer forma, segui com o cur...

Exercício de prosa I

(Para evitar mal entendidos, gostaria de deixar bem claro que este é um texto de ficção. Era para ser um conto, mas acho que, no fim das contas, não passa de uma crônica. Sou como o personagem de Machado de Assis, Pestana, que só consegue produzir polcas, nunca sinfonias. Que pelo menos vocês dancem ao som delas e se divirtam!) -- (sem título) Você se lembra daquelas garotas? Elas passavam reluzentes no corredor da escola. Até o uniforme às sete e trinta da manhã caía bem nelas. Grandes coisas! Isso de nada lhes valia no final do ano, quando já estávamos de férias e elas ainda estudavam duas semanas a mais para as provas de recuperação. Agora, no resto do ano, aquilo lhes valia ouro. Era no mínimo um convite para festa por semana. Chegava segunda-feira, o segundo escalão – as aspirantes não tão bem dotadas de beleza nem dinheiro, porque, injustamente, uma só se manifesta em presença do outro – tratavam de divulgar todos os detalhes sórdidos. Reza a lenda que elas nunca repeti...

Breve manual para ler Laurence Sterne

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Você conhece Laurence Sterne? É o cara da pintura acima (feita por Joshua Reynolds em 1760). Há um ano, eu mesma vivia minha pacata vida sem nunca ter ouvido falar dele. Agora, se você, ao contrário de mim, é um leitor atento, provavelmente achará o nome familiar. Isso porque ele é mencionado em Memórias póstumas de Brás Cubas . Segundo o defunto-autor, o pastor inglês lhe serviu de fonte de inspiração para o modo de escrever. No meio acadêmico, esse estilo ficou conhecido como forma livre. Sterne, ou Tristam Shandy, que é seu personagem-narrador, descreve sua escrita como digressiva-progressiva. Isto é, o narrador foge o tempo todo do assunto principal, conta várias historietas paralelas, volta no tempo, conversa com o leitor (xingando-o e justificando-se para ele), mas sem cair no mero enchimento de linguiça. As divagações trazem coisas importantes para a história. Eu diria até que elas são o propósito do livro em si. Só que, convenhamos, essa escrita de bêbado – que vai pra lá,...

Procissão de fé

Quando a missa começou, lamentei muito não poder fazer anotações. Ideias fervilhavam. Fato inédito nessas últimas semanas, que têm sido de completa masturbação mental (séries + redes sociais). Para quem estranhou o fato de eu estar voluntariamente assistindo à missa, a explicação é bem simples. No ano passado, quando eu estava desesperada diante da quase certeza de que não seria aprovada no mestrado de Literatura na UF**, prometi que iria na missa todos as semanas de 2011 se me fosse concedida essa graça. Não sei a percentagem da participação divina na conquista, mas, considerando que eu não sou formada em Letras, que passei boa parte do ano doente e que estudei menos do que deveria, acredito que tenha sido grande. Agora estou quitando minha dívida – melhor pagar a Deus do que ao dono da PUC! Só faz três domingos que tenho ido à igreja, mas sabe que estou achando essa uma experiência edificante? Não no sentido mais comum, o de me sentir tocada pelo Espírito Santo. Mas tenho apren...

Logotipo inovador?

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Tanta gente chamou o logotipo das Olimpíadas Rio-2016 de inovador. Será que ninguém mais percebeu que é o quadro "A dança", de Matisse, estilizado? A mesma composição, as mesmas cores... Inovador foi Matisse, o resto é cópia. Comparem:

Sessão da tarde

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Este filme faz uma apologia a "Odisseia", de Homero. Um jovem viaja pelo caos da cidade grande, cruzando com os monstros medonhos que povoam Curitiba, em busca de glória e acolhimento familiar.

Presente de Natal

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Eu lhes apresento Gigi. Quarenta dias de vida, órfã e barbuda.

Sonho natalino

Estamos em meados de dezembro, época ideal para fazer posts declarando meu amor à humanidade. Mas vocês não contavam com o fato de que eu não tenho televisão e nem rádio. Logo, I’m not in the mood. O que uma coisa tem a ver com a outra? Pasmem com o que eu constatei após passar quase um ano sem essas mídias: é impossível entrar no clima natalino sem o estímulo das propagandas. Quem nunca chorou com um comercial de peru (e eu nem gosto de peru...)? Sim, até os anúncios de ofertas de supermercado ajudam a gente a se emocionar e a esperar ansiosamente pelo dia 25 de dezembro! Faço, então, um agradecimento especial aos publicitários, que possibilitaram o meu sonho natalino durante a infância. Foi um inferno para os meus pais, principalmente quando eu inventava que queria casa da Barbie, boneca que chorava, bicicleta e tantos outros brinquedos absurdamente caros, mas, para mim, foram anos felizes. (Como é lindo o egocentrismo da juventude classe-mediana!) ** Como vocês podem ver, ...