Procissão de fé
Quando a missa começou, lamentei muito não poder fazer anotações. Ideias fervilhavam. Fato inédito nessas últimas semanas, que têm sido de completa masturbação mental (séries + redes sociais).
Para quem estranhou o fato de eu estar voluntariamente assistindo à missa, a explicação é bem simples. No ano passado, quando eu estava desesperada diante da quase certeza de que não seria aprovada no mestrado de Literatura na UF**, prometi que iria na missa todos as semanas de 2011 se me fosse concedida essa graça. Não sei a percentagem da participação divina na conquista, mas, considerando que eu não sou formada em Letras, que passei boa parte do ano doente e que estudei menos do que deveria, acredito que tenha sido grande.
Agora estou quitando minha dívida – melhor pagar a Deus do que ao dono da PUC!
Só faz três domingos que tenho ido à igreja, mas sabe que estou achando essa uma experiência edificante? Não no sentido mais comum, o de me sentir tocada pelo Espírito Santo. Mas tenho aprendido bastante sobre interpretação de texto e retórica – a parte do sermão é minha favorita –, além de treinar a paciência e ainda rever alguns dos meus conceitos sobre cristianismo. Por exemplo: finalmente começa a entrar na minha cabeça que Deus salvará pela fé e não pelas ações. Quando eu lia/ouvia a parábola do filho pródigo, ficava revoltada com o descaso do pai para com o filho leal enquanto o esbanjador era tratado feito rei. Agora ela me parece totalmente coerente com os ensinamentos de Cristo. Você pode cultivar muitas qualidades (inclusive cristãs), mas, se não aceitou Deus em seu coração, elas não lhe valerão no julgamento final.
Se eu acredito nisso tudo? Sinceramente não sei. Para alguém competitiva como eu, é muito frustrante saber que, mesmo me esforçando para praticar o bem, corro o risco de ir para o inferno enquanto pessoas mesquinhas serão salvas apenas por dizerem “sim” no momento certo.
No fim das contas, não faz parte da minha promessa aceitar a doutrina, devo apenas estar de corpo presente na missa. Se eu presto atenção no que é dito e analiso a coerência disso é mais por curiosidade do que para incorporar à minha vida.
Os dois primeiros domingos foram relativamente tranquilos, porque os passei na igreja onde fui catequizada e crismada. Sentia-me em casa, embora houvesse uma coisa diferente que mudava toda a essência da celebração: um novo padre.
Eu cresci ouvindo o Padre O. Ele era conhecido por sua rigidez. Interrompia a missa sempre que via algo fora dos eixos e reclamava em alto e bom tom: os jovens estão vestidos como se estivessem no shopping, as crianças estão fazendo muito barulho, os adultos estão dispersos. Quem não se lembra do clássico episódio em que ele, em plena missa de Páscoa, disse que o coral estava cantando mal?
Sob a gestão do Padre O., construiu-se uma paróquia, a meu ver, inovadora. Ele era capaz de perpetuar o respeito às tradições e, ao mesmo tempo, fazer os sermões mais ousados e fundamentados que já ouvi! Sua fala era crítica, pertinente, enérgica. Aprendi muito sobre política com o Padre O. – e não aqueles clichês de “não podemos desanimar com a corrupção, a comunidade tem que praticar o bem por conta própria”. Também admiro muito ele ter criado o Dominguinho, ação em que voluntários entretinham as crianças no salão enquanto os pais assistiam (em paz) à missa. Naquele tempo, a paróquia era um lugar de convívio. Nós ajudávamos e aprendíamos. Será que fui só eu que mudei ou a minha igreja deixou de ser a reunião das pessoas e se tornou só um lugar?
Assim que assisti à missa com o novo padre, o B., senti muita falta do rigor do O. Muitos reclamavam deste, diziam que ele era desnecessariamente duro. Gente, vejam o que a falta de rigidez faz com uma igreja: pessoas entrando atrasadas (e com a maior naturalidade), crianças correndo pela nave, coral desafinadíssimo.
Alguém precisa dizer aos fiéis que música é arte. Não tem essa de “dar espaço para todos”; canta quem tem talento. Na época do Padre O., havia um teste para entrar no coral. Era dificílimo. Em compensação, por volta do ano de 2000, reunia jovens muito talentosos que depois fizeram algum sucesso Brasil afora. A arte nos aproxima de Deus. Apreciar música ruim é sinal de que nossos sentidos estão sedados, logo, despreparados para receber o divino quando ele se manifestar diante de nós. Nisso posso dizer com certeza que creio.
Fiquei tão irritada com as “músicas” e a muvuca que nunca estive tão pecadora (praticando a ira, ou cricrice se preferirem) dentro de uma igreja! Fiquei pensando que o Padre B. era tipo aqueles pais de família que apanham dos próprios filhos. Tive muito dó de vê-lo ali na frente falando enquanto as crianças brincavam e gritavam como se estivessem em um play center.
Hoje fui a uma igreja diferente, no bairro onde moro há cinco anos. Acredita que eu nunca havia nem entrado? A primeira impressão foi boa. A arquitetura, embora não seja muito antiga, tem claras inspirações góticas. Muitos vitrais, portas e janelas em formato de ogiva, pinturas com cores, proporções e perspectiva bem típicas da arte medieval... enfim, lembrei de todas as lições básicas de história da arte. Isso me entreteve, foi bom para matar o tempo, já que tenho o costume de sempre chegar bem antes de a missa começar.
Mas o encanto logo se foi. Quando me dei conta, já estava praticando meu passatempo favorito: ser rabugenta.
A cantora conseguia ser pior do que os da igreja anterior e com o agravante de ela estar sozinha e sem o acompanhamento de instrumentos musicais. O padre era absurdamente gordo (sinal de fraqueza moral, a meu ver) e a voz dele me irritava.
Tive que respirar fundo, senão teria um ataque de desespero ali mesmo. Sorte que eu sentei bem na frente, não via quase ninguém. Tenho fobia de multidão.
Mais calma, pude ver as qualidades da nova igreja. Primeiro: não havia crianças nem jovens. Podem falar o que for dos idosos, mas na igreja eles se comportam de forma primorosa. Sim, adorei estar cercada por hexa, hepta e octogenários. Senti-me bem enturmada.
Segundo ponto positivo: o padre se saiu um bom orador (não excepcional, infelizmente). Ele não foi enérgico em sua fala, mas conseguiu ser firme. Embora não tenha usado recursos de linguagem muito criativos, foi didático.
Em suma, sobrevivi ao terceiro domingo do ano. Ainda faltam 49.
Para quem estranhou o fato de eu estar voluntariamente assistindo à missa, a explicação é bem simples. No ano passado, quando eu estava desesperada diante da quase certeza de que não seria aprovada no mestrado de Literatura na UF**, prometi que iria na missa todos as semanas de 2011 se me fosse concedida essa graça. Não sei a percentagem da participação divina na conquista, mas, considerando que eu não sou formada em Letras, que passei boa parte do ano doente e que estudei menos do que deveria, acredito que tenha sido grande.
Agora estou quitando minha dívida – melhor pagar a Deus do que ao dono da PUC!
Só faz três domingos que tenho ido à igreja, mas sabe que estou achando essa uma experiência edificante? Não no sentido mais comum, o de me sentir tocada pelo Espírito Santo. Mas tenho aprendido bastante sobre interpretação de texto e retórica – a parte do sermão é minha favorita –, além de treinar a paciência e ainda rever alguns dos meus conceitos sobre cristianismo. Por exemplo: finalmente começa a entrar na minha cabeça que Deus salvará pela fé e não pelas ações. Quando eu lia/ouvia a parábola do filho pródigo, ficava revoltada com o descaso do pai para com o filho leal enquanto o esbanjador era tratado feito rei. Agora ela me parece totalmente coerente com os ensinamentos de Cristo. Você pode cultivar muitas qualidades (inclusive cristãs), mas, se não aceitou Deus em seu coração, elas não lhe valerão no julgamento final.
Se eu acredito nisso tudo? Sinceramente não sei. Para alguém competitiva como eu, é muito frustrante saber que, mesmo me esforçando para praticar o bem, corro o risco de ir para o inferno enquanto pessoas mesquinhas serão salvas apenas por dizerem “sim” no momento certo.
No fim das contas, não faz parte da minha promessa aceitar a doutrina, devo apenas estar de corpo presente na missa. Se eu presto atenção no que é dito e analiso a coerência disso é mais por curiosidade do que para incorporar à minha vida.
Os dois primeiros domingos foram relativamente tranquilos, porque os passei na igreja onde fui catequizada e crismada. Sentia-me em casa, embora houvesse uma coisa diferente que mudava toda a essência da celebração: um novo padre.
Eu cresci ouvindo o Padre O. Ele era conhecido por sua rigidez. Interrompia a missa sempre que via algo fora dos eixos e reclamava em alto e bom tom: os jovens estão vestidos como se estivessem no shopping, as crianças estão fazendo muito barulho, os adultos estão dispersos. Quem não se lembra do clássico episódio em que ele, em plena missa de Páscoa, disse que o coral estava cantando mal?
Sob a gestão do Padre O., construiu-se uma paróquia, a meu ver, inovadora. Ele era capaz de perpetuar o respeito às tradições e, ao mesmo tempo, fazer os sermões mais ousados e fundamentados que já ouvi! Sua fala era crítica, pertinente, enérgica. Aprendi muito sobre política com o Padre O. – e não aqueles clichês de “não podemos desanimar com a corrupção, a comunidade tem que praticar o bem por conta própria”. Também admiro muito ele ter criado o Dominguinho, ação em que voluntários entretinham as crianças no salão enquanto os pais assistiam (em paz) à missa. Naquele tempo, a paróquia era um lugar de convívio. Nós ajudávamos e aprendíamos. Será que fui só eu que mudei ou a minha igreja deixou de ser a reunião das pessoas e se tornou só um lugar?
Assim que assisti à missa com o novo padre, o B., senti muita falta do rigor do O. Muitos reclamavam deste, diziam que ele era desnecessariamente duro. Gente, vejam o que a falta de rigidez faz com uma igreja: pessoas entrando atrasadas (e com a maior naturalidade), crianças correndo pela nave, coral desafinadíssimo.
Alguém precisa dizer aos fiéis que música é arte. Não tem essa de “dar espaço para todos”; canta quem tem talento. Na época do Padre O., havia um teste para entrar no coral. Era dificílimo. Em compensação, por volta do ano de 2000, reunia jovens muito talentosos que depois fizeram algum sucesso Brasil afora. A arte nos aproxima de Deus. Apreciar música ruim é sinal de que nossos sentidos estão sedados, logo, despreparados para receber o divino quando ele se manifestar diante de nós. Nisso posso dizer com certeza que creio.
Fiquei tão irritada com as “músicas” e a muvuca que nunca estive tão pecadora (praticando a ira, ou cricrice se preferirem) dentro de uma igreja! Fiquei pensando que o Padre B. era tipo aqueles pais de família que apanham dos próprios filhos. Tive muito dó de vê-lo ali na frente falando enquanto as crianças brincavam e gritavam como se estivessem em um play center.
Hoje fui a uma igreja diferente, no bairro onde moro há cinco anos. Acredita que eu nunca havia nem entrado? A primeira impressão foi boa. A arquitetura, embora não seja muito antiga, tem claras inspirações góticas. Muitos vitrais, portas e janelas em formato de ogiva, pinturas com cores, proporções e perspectiva bem típicas da arte medieval... enfim, lembrei de todas as lições básicas de história da arte. Isso me entreteve, foi bom para matar o tempo, já que tenho o costume de sempre chegar bem antes de a missa começar.
Mas o encanto logo se foi. Quando me dei conta, já estava praticando meu passatempo favorito: ser rabugenta.
A cantora conseguia ser pior do que os da igreja anterior e com o agravante de ela estar sozinha e sem o acompanhamento de instrumentos musicais. O padre era absurdamente gordo (sinal de fraqueza moral, a meu ver) e a voz dele me irritava.
Tive que respirar fundo, senão teria um ataque de desespero ali mesmo. Sorte que eu sentei bem na frente, não via quase ninguém. Tenho fobia de multidão.
Mais calma, pude ver as qualidades da nova igreja. Primeiro: não havia crianças nem jovens. Podem falar o que for dos idosos, mas na igreja eles se comportam de forma primorosa. Sim, adorei estar cercada por hexa, hepta e octogenários. Senti-me bem enturmada.
Segundo ponto positivo: o padre se saiu um bom orador (não excepcional, infelizmente). Ele não foi enérgico em sua fala, mas conseguiu ser firme. Embora não tenha usado recursos de linguagem muito criativos, foi didático.
Em suma, sobrevivi ao terceiro domingo do ano. Ainda faltam 49.
haja paciencia pra ficar indo todo domingo para a missa...
ResponderExcluirDesejo muita força de vontade para você. Esse tipo de experiência é bastante interessante! A propósito, uma vez eu fui à missa no asilo. Se eu não me engano, acontece todos os dias, talvez você pudesse ir em uma algum domingo.
ResponderExcluirSub!
ResponderExcluirNossa, que empenho: pense muito bem antes de sair sábado à noite agora...
Pois é, na missa há muita distração, mas sempre há alguma mensagem para se refletir!
Boa sorte na sua promessa \o/
Que post de carola, hahahaha.
ResponderExcluirDependendo do deus, eu prefiro não ser salvo mesmo.