Gomas açucaradas
i. o fim da minha lua-de-mel com o mundo
Chega dessa história de que tudo é lindo e vai bem. Hora de reclamar um pouco.
ii. o debate sobre o “teor político-ideológico dos livros didáticos”
Cheguei ao assunto quando, por um acaso, encontrei jogado num banco da universidade um xerox da seguinte reportagem da Gazeta do Povo:
http://portal.rpc.com.br/gazetadopovo/impressa/parana/conteudo.phtml?tl=1&id=698497&tit=Livros-didaticos-com-teor-politico-ideologico-preocupam-educadores
Li-a e pensei: “Hah, quem daria crédito a uma matéria mal-escrita e sensacionalista como esta?”. Esqueci o assunto, embora tenha comentado qualquer coisa como “li algo ridículo na gazeta hoje” com uma ou outra pessoa.
Então, no último fim de semana, matando um tempo na Internet, vi que o assunto estava repercutindo nacionalmente. Sobre ele, encontrei uma abordagem mais sensata, a do Observatório da Imprensa:
http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/artigos.asp?cod=452JDB009
Infelizmente, hoje não darei uma colher de chá aos leitores preguiçosos. Quem não está a par do assunto, trate de ler o artigo acima (mesmo porque é muito interessante). Vou só dar os meus pitacos (gíria importada de Sampa com a ajuda de uma amiga muambeira).
- O senhor Kamel disse “Ao fim da leitura, tenho certeza de que todos vão entender o que se está fazendo com as nossas crianças e com que objetivo” ao se referir à crítica que faria ao livro “A Nova História Crítica, 8ª série” de Mario Schmidt. Para começar, desde quando alguém de 14 anos é criança? Mesmo que essa nomenclatura seja aceita, em que mundo um jovem de 14 anos é tão acrítico a ponto de ser manipulado por um livro sem questioná-lo?
- Posso não ser a pessoa mais apta para opinar em questões pedagógicas, mas acho totalmente sadio que se ensine nas escolas que na história não há imparcialidade, que há coisas nos bastidores, que o lado vencedor sempre aparece como bom e justo etc. E o que há de errado em também se desenvolver essa criticidade em outras disciplinas? O conhecimento é justamente isto: dúvidas, questionamentos, superação de paradigmas... Na minha modesta opinião, puritanismo na hora de aprender é atraso de vida.
- Que mal há em se apresentar a versão marxista da história? Eu estudei com o livro do Schmidt da quinta à oitava série e nem por isso me tornei marxista. Inclusive tenho muito a agradecer a esse autor por tornar a minha iniciação na história um processo tão prazeroso e por me preparar para leituras mais aprofundadas como o Hobsbawm, por exemplo.
- “O que ele leu ali é de dar medo. Apenas uma tentativa de fazer nossas crianças acreditarem que o capitalismo é mau e que a solução de todos os problemas é o socialismo, que só fracassou até aqui por culpa de burocratas autoritários”, disse Kamel. Oras, quem nunca teve um professor de história que sonhava com o sucesso do socialismo ideal? Muitos desses passaram pela minha vida. Confesso que os julgava ingênuos, mas ainda assim acho admirável possuir uma ideologia no lugar de um pleno ceticismo – que acomete tanta gente por aí e lhe dá a desculpa: “Pra que fazer algo? Nada muda...”.
- E para encerrar: “Nossas crianças estão sendo enganadas, a cabeça delas vem sendo trabalhada, e o efeito disso será sentido em poucos anos”. O que ocorrerá? Uma revolução proletária no Brasil? São pessoas como o senhor Kamel que superestimam os movimentos revolucionários e lhes dão uma força que eles estão longe de possuir. Como colega, vou lhe ensinar um truque que aprendi quando criança para me livrar dos monstros que me assombravam. Basta não acreditar que eles existem, e eles somem! O contrário também é válido. Durante a história isso é feito o tempo todo. Ah, é, me esqueci. O senhor não acredita nessas manipulações, acha que a história é transparente e possível de ser contada objetivamente. Então ignore o meu comentário.
iii. o primeiro item da lista que enviarei ao Sandy Claws

iv. eu me rendo: algo bom neste post
Acrescentei ao lado uns links interessantes. Com o tempo vou melhorando e tal. Mas, por enquanto, a indicação do dia é o site do Ferreira Gullar. Dá para ouvi-lo declamar poemas lá (!!). Emocionante demais...
Eu ainda me pergunto o que faz um "jornalista" como o Ali Kamel, que já está com a vida feita, e que pode mandar na maior empresa de comunicação do país, a redigir um artigo como esse. Será sério esse medo dele de ocorrer uma revolução proletária no Brasil? E outra: ficou óbvio que ele, no mínimo, escondeu algumas verdades, mencionando apenas o que lhe interessava. Então eu me pergunto: será que ele não sabe que há pessoas dispostas, quase que instantaneamente, a desmenti-lo? O que ele tem a ganhar ao pinçar um livro que lhe chegou às mãos por acaso, que pode ser apenas um caso isolado, e ter a coragem de superdimensionar assim o episódio, passando por um idiota com medo de comunista que come criancinha? Acho que os Marinho deviam arranjar mais coisas para ele fazer. Mente vazia é oficina do diabo e da cretinice.
ResponderExcluirAh, também quero esse livro. Mas fico pensando se ele realmente vai atender às minhas expectativas. Geralmente as histórias que interessam ao NYT nem sempre interessam a mim. Os tipos americanos não rendem muito pano pra manga, são muito chatos. Eles que me desculpem.
Beijos!
Bom, como filha de professora que sou, digo que essa história do livro didático é muito, muito, muito antiga... Eu lembro que os livros que eu usei de primeira a quarta foram proibidos pelo MEC e passava até avisos na TV falando que as escolas não poderiam mais adotar os livros daquela série e tal... No fundo eu não liguei... Achava até legal ver meu livro na TV.
ResponderExcluirTempos depois, fui assistir uma aula da pós da minha mãe e, por acaso, naquele dia estavam analisando livros didáticos. A amiga da minha mãe desencavou um livro desses e começou a apontar os erros. Não havia nada que tenha prejudicado a minha mente (acho), mas eu fiquei impressionada com a quantidade de informações erradas. Na unidade sobre a respiração, por exemplo, tinha os desenhos mostrando as coisas ao contrário! E as minhas professoras (despreparadíssimas, hoje eu sei) seguiam aquilo ao pé da letra! E não pense que isso é bobagem. Quando a gente é criança, a gente respira direitinho, depois a gente cresce, vai ficando preguiçoso e o organismo esquece... Uma respiração errada atrapalha muito a vida de uma pessoa (eu que o diga)... Enfim, esse exemplo serve para mostrar como as pessoas que preparam os livros didáticos são extremamente mal preparadas.
Anos depois, minha mãe selecionou um livro para trabalhar com as quintas séries. Quando foi preparar a aula sobre Egito ela reparou em algo que tinha deixado passar quando selecionou o livro e ficou muito preocupada. Tinha um comentário muito racista na explicação sobre os escravos do Egito Antigo! Era algo sobre o fato "absurdo" daquele povo usar brancos como escravos, já que os negros são mais adequados ao serviço braçal e sem reflexão. Dá para acreditar??? Agora, embora eu não ache que isso vá mudar o que alguém pensa, esse tipo de coisa em livros é um estímulo a certas atitudes reprováveis que são bem comuns por aí (e que eu já presenciei até na nossa faculdade).
Continuando... A medida que a pessoa cresce, não veja nada de mal em pegar livros mais "opnativos", desde que o professor saiba trabalhá-lhos (o que nem sempre é o caso). Nesse caso, apenas os alunos capazes de extrair algo mais de um texto é que vão notar, para o resto passa batido. E é para esses alunos mais preparados que o livro é o ideal. As apostilas que tentam ensinar um aluno a ser crítico a partir de suas lições de moral imbecis e vindas do senso comum é que são prejudiciais, acabando, inclusive, com a própria perspectiva crítica do aluno (e é nesse caso que as idéias de Gramsci) bem se encaixam.
Melhor eu parar... Já escrevi demais (quando eu me empolgo)...
huahuuahhua
ResponderExcluirseu post me lembrou o Dário
Gostei muito do seu post. Acompanhei a polêmica do livro didático nas aulas de Didática de facul e achei suas opiniões muito pertinentes.
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