Abortos: Primeiro amor

Para G.

Quem disse que amor de criança é leviano? Só muda a proporção. Se em uma semana a meninada pode trocar de número de sapato, imagine o significado de um bimestre! Dá até para completar álbum de figurinhas, ou seja, é uma vida inteira. Desde que começou a gostar de Anabel, Matheus agia da forma mais sensata: sendo um canalha. Na queimada, jogava a bola com força na cabeça da garota, isso quando não a xingava de nomes feios que ele nem sabia o que significavam. As provocações duraram nove semanas, até a véspera das férias, quando o menino encontrou uma carta cor de rosa em sua mochila. Mal terminou de ler, saiu pelo pátio gritando: “Ela me ama! Ela me ama!”. Então vieram as férias, e eles perderam o contato, pois isso foi naqueles tempos em que telefone e computador não eram brinquedos de criança. Reencontram-se só no ano seguinte, início da quinta série, mas não tinham nada para dizer um ao outro. E assim aprenderam que o melhor era gostar em silêncio, para o sentimento não gastar tão rápido.

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Comentários

  1. nossa! me lembrei de um conto da clarice lispector em que, se não me engano, um menino se apaixona pela professora, ou é uma menina que se apaixona pelo professor, sim, é uma menina, mas não tenho certeza quanto à paixão, há uma cena em que ela está no pátio da escola, ela está insegura, enfim, algo neste conto me lembrou aquele. ah, é um textinho que 'tá no felicidade clandestina. já o leu?

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