Brincar de Barbie depois dos 20 anos (ou como ser tia)
Para Bia e Liv
Hoje é um dia muito especial. À noite o príncipe vai escolher a princesa mais bela e virtuosa e vai se casar com ela. Não, o casamento será só depois. Hoje é o baile, dia da escolha. Todas estarão usando seus melhores vestidos, sapatos riquíssimos, joias, sedas, perfumes, tudo muito especial.
Clarissa é princesa. Sua amiga Daisy também, mas daquele tipo egoísta, com vocação para bruxa. Só foi convidada porque o pai dela é primeiro ministro, muito estimado pelo rei. Clarissa é de uma origem nobre mas poucos se lembram disso. A riqueza da família se perdera em batalhas no oriente; a honra, por sua vez, só crescia. Pobre e boa. Bonita também. O pai exerce um cargo menor na complicada burocracia real. Alcoólatra, triste, talvez digno quando a oportunidade se lhe apresentar.
Daisy emprestou à outra seu pior vestido, há muito cotado para a lixeira, um modelito que já não se usava mais, meio infantil, cor-de-rosinha. Piedade? Não, tudo cálculo. Mantendo a mendiga por perto, sua riqueza se realçaria. Além do mais, queria que a amiga testemunhasse o triunfo para poder depois confirmar cada detalhe gabado nas altas rodas femininas, quando a megera ostentasse a aliança no anelar. A ingênua chorou de gratidão.
Vão-se as duas na carruagem, de mãos dadas. Daisy nunca imaginara que sentiria tanta simpatia por outra criatura como naquele momento. Mas também, quem não teria compaixão por aquela coisinha ridícula, inofensiva, com os olhinhos brilhantes de esperança infundada?
Quem não teria?
Provavelmente o príncipe não gostaria de ver em seu baile tal piada. Talvez até sentisse nojo diante daquela blasfêmia a sua real figura! Coitadinha, Daisy protegeria Clarissa, faria o marido tratar a amiga como se estivessem no mesmo nível, e a outra lhe deveria a vida em paga pelo favor.
“Daisy? Estive pensando... Vamos prometer que, independente do que aconteça, isto é, de quem o príncipe escolher, vamos continuar unidas! Promete?”
“Como não!”
Como não? Eu digo como não. O protagonista daquela noite era um príncipe entediado, que bocejava diante das damas mais elegantes da Itália, já cansado de tanto frequentar os bailes da Dinamarca, os pubs do Reino Unido e os cabarés da França. Agora mais aquele circo! Ideia do pai, claro! Por suas andanças, perdera a fé no amor, vira que ao despir todos os frufrus restava só um ego falante, gordo, irritante. As beldades lavavam a cara e – qual o que! – esta se escorria com o ruge. Havia criatura com nervos pra beijar uma cratera no meio do crânio, aquele vazio em lugar de supostos lábios, olhos, nariz, bochechas? Alguns se acostumavam, ele não.
Para encurtar a história, relato o que, a esta altura, já está óbvio. O príncipe foi atraído por aquela moça sincera, Clarissa. Não viu um vestido feio e sim a nobreza, a bondade e um belo par de seios. Fez sua escolha. Casaram-se. O sogro foi promovido a primeiro ministro. Muitos dentes rangeram. Quem pôde foi feliz.

"Não viu um vestido feio e sim a nobreza, a bondade e um belo par de seios."
ResponderExcluirProvavelmente, deve ter visto mais esses últimos atributos.
Uau! x 10
ResponderExcluirSP