Sobre a criação da arte


Façamos uma analogia bem simples para compreender um processo complicado.

A cachaça vem da cana. Sem cana não há cachaça, já que esta depende daquela para existir. Mas não se pode dizer que uma coisa seja igual à outra.

Há um processo que transforma uma noutra. Os elementos básicos da cachaça já estavam na cana, mas a forma bruta é irrecuperável a partir do produto, isto é, a cachaça não pode voltar a ser cana.

O que é esse processo que faz uma coisa ser outra sem se acrescentarem novos elementos? No caso da cachaça, chama-se fermentação e destilação. No caso da arte, criação.

A realidade fornece experiências que chegam a nós pelos sentidos ou por relatos alheios. O artista trabalha esse caldo e o transforma em arte. Podem-se recuperar alguns traços da realidade na obra de arte, mas não totalmente, porque o caminho inverso é impossível de ser trilhado.

Agora uma falha nesta analogia. A cachaça nos embriaga por algumas horas, depois vem a ressaca e tudo volta ao normal. A arte também nos tira de nós mesmos, mas de forma irremediável.

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O quadro acima, pintado por Giovanni Bellini (Giambellino), chama-se “A embriaguez de Noé”. Encontra-se no Musée des Beaux-Arts de Besançon, na França.

Comentários

  1. Não acho que essa analogia tenha essa falha que vc aponta. Não creio que arte por si só tire qualquer um de forma irremediável. Assim como a cachaça, o efeito só dura se a dose continuar. Senão, volta-se ao normal. A diferença é que arte (nem sempre, só às vezes) dá dor de cabeça.

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