Bem-aventurança já disponível na biblioteca mais próxima!
Felizes aqueles que estão satisfeitos em simplesmente viver. Quando a gente acrescenta advérbios além do “simplesmente”, a felicidade corre perigo – se não de desaparecer ao menos de se relativizar.
A notícia ruim: ninguém permanece neste estágio inicial, vazio. Tão logo quanto nascemos e jogamos o primeiro bocado de ar para o pulmão, vêm muitas coisas e estímulos e desejos e coisas e coisas e coisas. Tudo nos leva para longe de nós mesmos.
Agora a notícia boa: é possível encontrar caminhos (sim, no plural!) de volta. Inclusive, vou lhes acenar a seguir uma opção.
Entre os muitos papéis que a arte exerce, interessa-nos sua função de recuperar o viver simplesmente, a felicidade absoluta ou a sublimação. Ao usar esses termos, afasto-me do uso recorrente na sociedade de massa, que associa lazer e arte, a qual acaba por se reduzir a entretenimento. Não digo que arte deva ser tediosa, mas o seu efeito sobre nós também não é tão imediatamente prazeroso. O caminho da catarse é praticamente uma via crucis. E, na condição de cristã, eu não poderia ter encontrado expressão melhor, pois acredito piamente que o objetivo final da arte é semelhante ao da religião: uma espécie de ascensão processual ao divino, ao tudo e, por fim, ao nada.
O absoluto é um esvaziamento portanto. Os modernistas muito teorizaram sobre isso e chegaram à conclusão de que a arte deveria se despojar de conteúdo. Em outras palavras, propuseram o tal esvaziamento. Segundo eles, não caberia à arte representar coisas, mas simplesmente ser, existir como forma pura: efeito estético e não histórico. Para ilustrar de forma bem didática as implicações práticas disso, lembramos as pinturas abstratas e os poemas concretos – engraçada a oposição dos termos “abstrato” e “concreto” para fazer referência a obras regidas por ideais semelhantes.
Na literatura em prosa, porém, o desafio é maior. Afinal, como escrever um livro sobre nada? Apareceram romances fragmentários e menos voltados para o desenvolvimento do enredo. Alguns dos exemplos maiores são o Finnegans Wake, de James Joyce, e os nouveaux romans. Só que, apesar das inovações propostas, o enredo está sempre lá, ainda que minimamente. Talvez um dia consigam realmente produzir um romance feito de frases esvaziadas de conteúdo, mas daí será preciso que também inventem um leitor preparado para isso.
O romance, a meu ver, é o filho problemático da literatura. E adivinhem? Tinha que ser o caçula... Não é à toa que, na minha prova de mestrado, achei mais prático responder a questão sobre teatro. Se quero discorrer sobre Rumo ao farol, de Virginia Woolf, em apenas duas horas e sem consulta? Não, obrigada. Mas para não simplificar demais a discussão, também não vou entrar nas teorias da ficção neste post – e provavelmente em nenhum futuro, pois, a meu ver, blogs devem contribuir com panoramas, não com aprofundamentos.
Para nós, basta saber que (ainda) não existe forma pura na prática do romance. Então como ele pode nos levar ao tal esvaziamento prometido pela arte?
Esse esvaziamento se dá por outras vias. Não sou muito familiarizada com as teorias da leitura, por isso me corrijam se eu falar alguma bobagem. Na verdade, não me levem tão a sério, é mais um palpite não-científico. Acredito que, para sermos atingidos (interpretem esse particípio verbal como preferirem, mas uma luz: me refiro ao processo de sublimação) por um romance, devemos ignorar nossa individualidade e nossa moral. Você pode se identificar com os personagens, e isso será ótimo para manter vivo o interesse em obras de fôlego, contudo isso não é essencial – assim como coletes são legais (há controvérsias, principalmente pós-Fiuk) e até têm alguma função, mas não esquentam o corpo.
Madame Bovary é especialmente difícil de analisar, porque nos tenta a discutir coisas como “Emma tinha razão?”, “Era mesmo necessário puni-la?”. Gente, isso é papo de boteco, não análise literária. Agora, espertinha, quais são as questões pertinentes? Sei lá eu!
Não se lê sobre adultério por gostar do assunto – talvez seja o caso para alguns, mas não é a motivação em geral. Por algum estranho processo intelectual ou emocional, a gente se envolve em histórias sobre acertos e cagadas de pessoas que nem existem, e isso nos liberta de nós mesmos. Só assim, quietinhos, com o nariz enfiado num bom livro, a gente vive simplesmente. E será uma vida feliz e completa, isso eu garanto.
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Um dia as pessoas ainda vão pagar para ler as bobagens que vocês leem aqui for free.
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Uma sugestão. Esta artista, Fernanda Brenner, tem ótimas ilustrações sobre o universo hipster. E o mais legal é o tom crítico (eu juro que vi certo sarcasmo!). Segue abaixo uma ilustração dela e aqui o site com o portfolio.
Arte deveria se despojar de conteúdo? Que besteira, não é à toa que a modernidade anda uma merda. Perdoe-me os palavrões, mas ainda estou influenciado pela biografia do Steve Jobs, que tem muita 'merda' escrita. Em ambos os sentidos.
ResponderExcluirArte não precisa, necessariamente, ter conteúdo (mas ajuda). Mas não necessita, nem deveria ser apenas forma.
De fato, as melhores são aquelas que são suficientemente maleáveis para quem aprecia, incutir algum conteúdo nela. É assim em todas as formas. Mesmo numa pintura abstrata, se o observador não conseguir intuir alguma emoção nela (e não se enganem, emoção vem acompanhada de alguma história), a pintura vai ser apenas um monte de rabiscos. Claro que o referencial do observador é quase tudo, mas quanto mais "apenas forma", mais difícil para o observador conseguir incutir alguma coisa ali. Por isso tanta gente acha arte moderna besteira. Quanto mais "apenas forma", maior o número de opções. E pessoas se perdem num mar de opções e não escolhem nenhuma.
Imagine apenas um ponto preto numa tela branca. Sem título, sem legenda. Forma pura. História zero. Infinitas possibilidades de interpretação, e a escolhida provavelmente será nenhuma (a não ser que o bacana queira impressionar a namorada e comece um blábláblá vazio e sem sentido). Você até poderia chamar isso de arte, mas seria uma que nem de longe cumpriu o objetivo: de transcender, de elevar, da catarse enfim.
Aplique isso à literatura. Um bom romance é aquele que tem uma história, mas que dá margem à interpretações, às histórias que o leitor imagina paralelas, à busca de referências e metáforas. Independente se o autor procurava esses vários "plus a mais", porque isso não é nem responsabilidade dele, mas do referencial do leitor.
Seres humanos pensam em termos de histórias. Se não há uma, ou a pessoa não consegue inventar uma, simplesmente a coisa em questão é abandonada. Jogada fora. Se for arte, seria uma arte de merda, que não cumpriu nada, sem objetivo. E acredito que tudo tenha que ter um objetivo, senão está apenas desperdiçando recursos. Assim com tem gente que só desperdiça oxigênio transformando em CO2.
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E seriam as ASCII arts os poemas concretos da nova geração? Creio que sim...
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Nunca levo muito a sério aqueles que são puramente acadêmicos, nem ninguém deveria. A frase 'quem consegue faz, quem não consegue ensina' tem um bom fundo de verdade. E digo isso conhecendo, pois tb tenho título de mestrado (o que tb é uma grande merda, pra falar a verdade).
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Se um dia as pessoas pagarem pra ler as coisas daqui, ganharei royalties pelos comentários?
Gostei muito dos seus comentários, principalmente sendo referentes a este post, que eu tinha certeza de que não seria lido até o fim por ninguém.
ExcluirAté bem recentemente, pensava como você em valorizar a história representada na obra de arte e achar alguns dos ultramodernos bem bobos. Hoje sou mais maleável, principalmente em relação às artes plásticas. No entanto, confesso ainda ser conservadora quanto aos romances que leio. Meus escritores favoritos são os que escrevem como Graciliano Ramos. Esses dias reli São Bernardo e... que livro! E tão fino! Como pode ser assim direto, quase seco, e tão complexo?
Enfim, também gostei da sua sugestão de que as ASCII arts possam ser os poemas concretas da nova geração. Fica a dica para alguma dissertação na área de literatura.
Obrigada pelos comentários enriquecedores!
Li tudo pq o post tem uma história. Se não tivesse... =P
ExcluirQto às artes plásticas, ainda acho esses moderninhos idiotas. Faço arte melhor tirando uma fotografia da estática da TV, hahaha.
Pelo tamanho do comentário acima, vc deduz como estou entediado aqui agora (no trabalho).
ResponderExcluirMinha escritora!
ResponderExcluirTe amo
Ass: Matias
Tb te amo, Matiasinho! Obrigada pela paciência de ler meus posts!
ExcluirEu também li tudo e fico feliz que esse blog esteja se limpando da poeira acumulada!
ResponderExcluirAgora, que tal a gente marcar para discutir se Ema tinha mesmo razão? Acho mais divertido.
Convite aceito! ;)
ExcluirE obrigada tb pela paciência...
(aha! usei mais reticências que vc, quem diria...)
Na metade do seu post já me veio à cabeça os romances de Virginia Woolf e foi legal você ter mencionado Rumo ao Farol. Este é um belo exemplo de como um assunto tão abstrato como o pensamento pode te prender em romances como Mrs Dalloway ou O Quarto de Jacob. Pra mim, este tipo de arte começa a fazer sentido quando fica perfeitamente possivel ser a sua realidade, como a propria Virginia disse: “Books are the mirrors of the soul” - bem, pelo menos em alguns casos pois como ela mesma mencionou "Escrever é como sexo. Primeiro você faz isto por amor, depois faz isto para seus amigos, e então faz isto por dinheiro"!
ResponderExcluir--- também estou feliz que tenha voltado a escrever ---
SP.
Obrigada pelo interesse no meu blog e pelo incentivo! Demorou para descobrir, mas agora sei que foi vc Carioca! Beijos.
ExcluirAmor, olha que legal... lembrei de vocÊ
ResponderExcluirhttp://www.followthecolours.com.br/2012/01/rashad-alakbarov.html
Ass : Matias
Yo
ResponderExcluirComo uma leitora cada vez mais relaxada, fui ver até onde dava o post e dei de cara com os desenhos dos hipsters. Comecei a ler e lá pelo meio não tinha ideia de como o papel da arte iria terminar com os hipsters haha. Mas até que faz sentido.
Continue escrevendo, Su, é sempre uma criação sua, seja como artista, seja como jornalista, se educar não for o suficiente. :)
Peace
Epifania do dia: os emos de ontem são os hipsters de hj q documentam suas vidas somente em instagram.
ResponderExcluiré... é isso. ¬¬