Veludo vermelho
Dizem que os italianos falam com as mãos. Faço, porém, duas correções. Primeira, todas as nossas experiências, não só a fala, são pelo toque. Segunda, não tocamos apenas com as mãos, mas com cada pedaço do nosso corpo. Sensoriais até as pontas dos fios de cabelo, não é à toa que nós, italianos, somos amantes e místicos inveterados, os êxtases nos arrebatam sem trégua.
Logo cedo, quando o gole de espresso fervendo amarra a língua e, logo depois, a cremosidade do canolli a desenrola, eu canto, as cordas vocais aplaudindo delirantes. É preciso cantar após uma boa refeição, senão nem o mais eloquente elogio convencerá o cozinheiro de que não foi schiffo (nojo) o que eu senti. Meu corpo também vibra quando visto seda, que o vento levanta para cair úmida sobre as costas e as coxas.
O que para uns é luxo, para os italianos é sobrevivência. Que remédio melhor para o desespero senão receber um cafuné de caxemira ou ter as mãos aquecidas por couro bem curtido? O mármore está lá em vias públicas para que até o mais humilde possa se escorar na sua superfície fresca num dia tórrido. Não é consumismo, pelo contrário, é conceder alento a todos.
Os museus italianos, porém, vendidos para os turistas estrangeiros, traíram sua gente, impuseram o non toccare (não toque). Diante da explosão de texturas de Botticelli e Pollaiolo no Uffizi, segurei as mãos junto às costas, ridícula como um garotinho dançando quadrilha, tudo para não ceder aos instintos da pele. Os quadros zombavam de minha distância: “bestia in gabbia, non ci possiederai mai” (fera enjaulada, jamais nos possuirá).
Centímetro a centímetro, salivando, fui me aproximando dos quadros, as mãos sempre firmes atrás do tronco. Talvez, se eu tocasse a pintura com os globos oculares, conseguiria burlar a regra. Quando o rosto estava a um palmo da tela, justo a da Caridade, que com seu manto de veludo vermelho deveria acolher os necessitados -- e como eu necessitava dela! --, o alarme disparou e o segurança me empurrou para longe. Non toccare! O guarda era italiano, ele obviamente sabia que nós tocamos com todas as partes do corpo.

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