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Carta aberta de reclamação

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Excelentíssimo senhor reitor da Universidade Federal do Paraná, Zaki Akel Sobrinho, As fotos acima foram tiradas no dia 30 de março passado no Restaurante Universitário Central. Eis um exemplo da alimentação balanceada especialmente pensada para os estudantes: arroz integral, feijão, creme de milho, alface, gelatina e, no primeiro plano, um pedaço de costela bovina. Esse corte de carne é um dos meus favoritos, frequentemente peço para minha mãe cozinhá-lo com grão-de-bico nas felizes ocasiões em que a visito. O problema, como o senhor já deve suspeitar, é que não há carne na porção que me foi servida, apenas gordura. Ao checar a refeição dos meus companheiros de mesa, vi que a minha não era um caso isolado, e sim a regra. Reparando melhor, o senhor notará como a substância oleosa escorre pelas divisórias da bandeja e já começa a se solidificar, formando uma camada branca, inimiga número um de pessoas com histórico de problemas cardiovasculares na família, como é o meu caso. E...

Intermezzo

Faz-se um alarde tão grande sobre a dor que ela nem encontra espaço para emergir. Apenas um conceito. Bem fundamentado, é verdade, mas sem corpo. Isso é existência possível? Se a gente não der trela, vai que some? Vai que.

Um conselho

Saudades masoquistas deste Word aberto em branco. Remete diretamente aos artigos que tanto sugaram minhas energias nessas férias. Mas também a um certo período em que escrever era a minha missão, e eu o fazia regularmente, acreditando na importância da comunicação honesta, responsável, engajada. Hoje estou mais para os personagens de Camus. Não importa o que façamos, estamos sozinhos e vamos nos acabar do mesmo jeito. Alguém talvez se identifique com a situação que descreverei. Um dia você foi tão otimista que atualmente qualquer tipo de esperança enoja, esforço vão. Lembrança do desespero de aguardar o que, você saberia no futuro apenas, nunca aconteceria. A fé no a-de-vir torna-se mais dolorosa do que o problema em si. Melhor seguir com os pés no chão, rotina, leis, tudo certo e seguro. Esse é o conselho que tenho para dar.

Bem-aventurança já disponível na biblioteca mais próxima!

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Felizes aqueles que estão satisfeitos em simplesmente viver. Quando a gente acrescenta advérbios além do “simplesmente”, a felicidade corre perigo – se não de desaparecer ao menos de se relativizar. A notícia ruim: ninguém permanece neste estágio inicial, vazio. Tão logo quanto nascemos e jogamos o primeiro bocado de ar para o pulmão, vêm muitas coisas e estímulos e desejos e coisas e coisas e coisas. Tudo nos leva para longe de nós mesmos. Agora a notícia boa: é possível encontrar caminhos (sim, no plural!) de volta. Inclusive, vou lhes acenar a seguir uma opção. Entre os muitos papéis que a arte exerce, interessa-nos sua função de recuperar o viver simplesmente, a felicidade absoluta ou a sublimação. Ao usar esses termos, afasto-me do uso recorrente na sociedade de massa, que associa lazer e arte, a qual acaba por se reduzir a entretenimento. Não digo que arte deva ser tediosa, mas o seu efeito sobre nós também não é tão imediatamente prazeroso. O caminho da catarse é praticam...

Caminhão de mudança

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Vamos supor que você precise mudar hoje. De que tamanho seria sua mudança? Uma mochila? Algumas malas de rodinhas? Um caminhão? Quando defini, há dez minutos, que este post seria sobre mudança, pensei em mudança no sentido de “transformação, alteração de estado”, e não de “troca de residência” como sugere o parágrafo acima. Mas as duas coisas vieram juntas no meu raciocínio caótico. Mantive a bagunça: achei que vinha a calhar nesta ocasião. Pergunto novamente, desta vez optando pelo outro sentido da palavra. Você já quis mudar radicalmente? Se sim, como resolveu isso? Foi ao shopping? A uma agência de turismo? Ao psiquiatra? É possível mudar sem carregar consigo uma pilha de tranqueiras? Afinal, dá para se livrar da vida velha e indesejável? Só para começar, pense na família – é um caminhão de mudança que vai te seguir para a vida toda. (E isso não é necessariamente ruim. As raízes nos prendem ao chão, com suas vantagens e desvantagens. Desvantagem: permanecer no mesmo lugar....

Saudades não sei de que

Às vezes, tenho saudades sem saber exatamente do quê. Fico em dúvida se é de algum desses domingos de sol em que nada especial aconteceu, mas que me fizeram sentir em paz. Ou de um passeio noturno com os pais para comprar o presente de Natal. Ou de um primeiro dia de aula. Ou de um amor da quarta série. Ou de um livro cujo título foi esquecido. Ou da melhor amiga que não vejo há sete anos. Ou do franguinho frito na época em que não se falava em gordura trans ou IMC. Ou das férias na casa da avó que mora no sítio até hoje. Ou de me apaixonar por uma música na primeira escutada. Ou das manhãs de desenho animado e Choco Kripis. Ou das madrugadas (antigamente onze horas, meia noite era madrugada) assistindo ao Palmeiras na Libertadores, vibrando quietinha os gols para não acordar a família. Ou de uma loja de roupas descoladas que não existe mais. Ou das 14 horas de sábado na época na Internet discada. Ou de balançar na rede enquanto o pé toca no ladrilho gelado. Ou do cheiro de bolo no for...

Quando/como/por que dizer ‘eu te amo’

Duas observações preliminares: 1) Este é mais um post sobre relacionamentos. Justifico, envergonhada, o porquê: estou estudando coisas tão pesadas e chatas no mestrado que tenho preferido dedicar meu tempo livre a amenidades. 2) O título faz uma proposta ambiciosa demais, provavelmente não conseguirei cumpri-la. No episódio de How I met your mother dessa semana, chamou-me a atenção um comentário do Ted (protagonista da série) assim: “Crianças, vocês nunca esquecerão a primeira vez ou o lugar em que vocês disserem a uma garota ‘eu te amo’”. Quem assiste a filmes e seriados americanos está familiarizado a esta visão de relacionamentos: ficar, namorar, amar – nesta ordem. Pelo que observei por aí, a gente aderiu em peso a esse modelo. Eis o modus operandi: conhece uma pessoa atraente, descobre que ela também é gente boa, resolve apostar num namoro. O passo seguinte natural nessa escala seria o amor, certo? Mas a coisa não é tão simples assim. Afinal, alguém tem um método objetivo...

O mundo paralelo dos cadernos de cultura

 A revolução digital ocorrida no último decênio, que popularizou o uso doméstico de computadores com acesso à internet, incrementou exponencialmente a produção e o consumo de informação. O efeito positivo disso é inegável: pessoas de todas as classes informam-se mais ativamente. Na medida em que os veículos tradicionais – rádio, televisão, jornal e revista – perdem o monopólio sobre a notícia, procuram adaptar-se à nova realidade. O caminho mais aconselhável à mídia impressa, segundo muitos especialistas, é desistir de competir com a rapidez da internet e se dedicar ao tratamento analítico dos fatos. Na prática, ao observar a evolução de um jornal como a Gazeta do Povo, deparamo-nos com a revalorização do furo e do trabalho de pesquisa. Não por acaso, em 2010, o diário paranaense ganhou um Prêmio Esso inédito pela série investigativa Diários Secretos. Enquanto isso, os cadernos de cultura – e aqui inclui-se o Caderno G, do referido jornal – permanecem alheios às mudanças, como aq...

Meu novo bichinho de estimação

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Hoje ia começar a lavar o banheiro quando encontrei uma velha conhecida minha: uma lartixa-bebê. Ela vinha morando no meu quarto há alguns dias. Convivíamos perfeitamente, até ela inventar de se instalar no banheiro bem no dia em que eu tinha que jogar cloro no piso. O produto é fortíssimo até para nós, imagine para ela! Então fiquei num dilema: o que fazer com a bichinha? Pus num potinho, o da foto acima. Não dá para ver muito bem por causa da máquina, teria que ser uma grande angular. Margarida (o nome que pus nela) é bem pequena, mede cerca de dois centímetros, contando com o rabinho! Tem cor marrom, com machinhas cinzas. É a coisa mais linda que já vi! Particularmente não gosto muito das lagartixas albinas; essas pardas, por sua vez, lembram jacarés minúsculos, o que acho muito fofo! Deitei no chão para ver melhor os detalhes dela, aí descobri a fatalidade do meu novo bichinho: ela tem duas patas decepadas! Tive vontade de chorar ao ver aquilo. Ela não sobreviveria no mundo se...

A primeira semana

(Outro post sobre relacionamentos – depois não digam que não avisei) No caos do universo, às vezes acontece de bilhões de fatores se combinarem aleatoriamente e resultarem em algo bom para você. Sim, para você, que só se fode para todo o sempre. Nessa hora você se joga, repete infinitamente como você é um puta sortudo, faz umas dancinhas toscas no meio da rua, pensa que não mudaria nada no presente. E você está certo em agir assim, afinal, é muito raro que tudo esteja perfeito na sua vida. Quando isso ocorre, tem que estar consciente mesmo. Vamos supor que, quando você se conforma em ser “só o amigo” e curtir uma balada despretensiosamente, conheça alguém, tudo muito casual. Todos sabemos que você é burro, mal pago, mais feio do que bonito e que suas piadas não têm graça, mas essa pessoa gosta de você. Assim gratuitamente mesmo. E você gosta dela de volta. Os dois se gostam simetricamente, não há obstáculos para ficarem juntos, logo, é isso que eles fazem. O primeiro dia tem algu...