A primeira semana

(Outro post sobre relacionamentos – depois não digam que não avisei)

No caos do universo, às vezes acontece de bilhões de fatores se combinarem aleatoriamente e resultarem em algo bom para você. Sim, para você, que só se fode para todo o sempre. Nessa hora você se joga, repete infinitamente como você é um puta sortudo, faz umas dancinhas toscas no meio da rua, pensa que não mudaria nada no presente. E você está certo em agir assim, afinal, é muito raro que tudo esteja perfeito na sua vida. Quando isso ocorre, tem que estar consciente mesmo.

Vamos supor que, quando você se conforma em ser “só o amigo” e curtir uma balada despretensiosamente, conheça alguém, tudo muito casual. Todos sabemos que você é burro, mal pago, mais feio do que bonito e que suas piadas não têm graça, mas essa pessoa gosta de você. Assim gratuitamente mesmo. E você gosta dela de volta. Os dois se gostam simetricamente, não há obstáculos para ficarem juntos, logo, é isso que eles fazem.

O primeiro dia tem alguns (muitos) probleminhas de comunicação. Você não sabe aonde por as mãos ou que cara fazer, ele tira sarro do seu time sem saber que você é torcedor fanático. Tudo bem, faz parte da graça desse estágio inicial. Estão os dois tateando no escuro: há todos os tropeços; em compensação, cada descoberta será deliciosa. É um ser completamente novo que se põe à sua disposição para se desvendado.

No segundo dia, você já se sente mais experiente. Pode trabalhar em cima de informações fornecidas na véspera. São praticamente velhos conhecidos, tratam-se como se soubessem tudo sobre o outro. É mais ou menos como jogar War depois que se observa uma ou outra estratégia: está mais apto do que o iniciante, mas ainda sente um friozinho na barriga, um medo de perder por falta de atenção.

O terceiro dia é opcional. Se ele acontecer, basicamente será como o segundo. Ou, se o grau de entrosamento dos dois estiver bem avançado, pode conter longos silêncios de cumplicidade. Serão tranqüilizadores, desde que você esteja pronto para isso. Se a falta de conversa incomodar, reveja o primeiro dia. Estamos mesmo falando de uma pessoa que sente por você o mesmo que você sente por ela? Ou você está amando sozinho? Se é este o caso, você não é o meu leitor ideal. Estou falando de “amores” (por não achar uma palavra melhor entre “amizade” e “amor”) que surgem gratuitamente e, como veremos adiante, também morrem sem motivos.

Acaba o final de semana, você tem que fingir que é uma pessoa responsável, mesmo que passe segunda-terça-quarta com lata de brigadeiro na mão e ideia fixa na cabeça. Então você dá um tempo e uma distância bastante saudáveis. Para repor as energias, para deixar a nova pessoa cuidar da vida dela, para bater uma saudadezinha.

Lá pelo meio da semana, você acha uma brecha na agenda e marca um encontro à luz do dia. Esse é um grande teste: ainda há algo acontecendo ali? Às vezes, não há mesmo, sinto muito, amigo. Às vezes, há. Aí que os problemas começam. O estranho gentil passa a ser importante, você se permite cultivar sentimentos, preocupações, expectativas, tem medo de perdê-lo. E o coitado, na maioria dos casos, nem sabe nada disso. Ainda assim, as chances de o encontro diurno dar certo são altas. Outro dia memorável que você vai lamentar depois, quando estiver sozinho.

Tudo bom, tudo ótimo. Você está bem confortável com seu novo amigo, tudo indica que ele sente o mesmo. Pois não fique tão seguro. Assim que chegar a sexta-feira, o que seria o segundo final de semana de vocês juntos, alguém vai sofrer. Algum tipo de maldição assombra essas amizades repentinas, que nunca são só amizade, e lhes lega apenas uma semana de vida. Você a aproveitou bem? Pois se dê por satisfeito, não haverá a segunda. Não digo isso em cima de uma experiência pessoal, é o que acontece sempre, com qualquer um. A maldição é inquebrantável. O que começa perfeito vai perecer em uma semana, não mais do que isso. A ciência ainda não deu uma boa explicação. Talvez fim da magia, talvez pira, talvez realidade, talvez tédio. Vocês escolhem a desculpa que lhes aprouver mais. Ou simplesmente somem, o que dá na mesma.

Agora, se você quer cultivar um affair ou um namoro duradouro, sugiro que comece pelo conflito. Isso mesmo, xingue-a de gorda, cante o melhor amigo dele. Uma hora vocês estarão se amando loucamente e, em uma semana, a chama ainda estará acesa.

Comentários

  1. Que fim de texto mais comédia romântica, hahaha.

    O que começa perfeito não tem futuro pq não tem como ser mais perfeito. Se tem, não era perfeito.

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  2. Parece-me que nunca o amor é um sentimento equilibrado. Sempre um acaba amando mais que o outro, e isso gera uma instabilidade terrível. E também, há pessoas que se apaixonam facilmente e pessoas que se desiludem facilmente. Sentimentos são quantidades maiores ou menores de neurotransmissores nas fendas sinápticas. Por isso, não há amor maior do que o da Fluoxetina e do Rivotril.

    Diego Schuster Paes

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  3. Mas tem que zuar o palmeiras msm

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