Caminhão de mudança



Vamos supor que você precise mudar hoje. De que tamanho seria sua mudança? Uma mochila? Algumas malas de rodinhas? Um caminhão?

Quando defini, há dez minutos, que este post seria sobre mudança, pensei em mudança no sentido de “transformação, alteração de estado”, e não de “troca de residência” como sugere o parágrafo acima. Mas as duas coisas vieram juntas no meu raciocínio caótico. Mantive a bagunça: achei que vinha a calhar nesta ocasião.

Pergunto novamente, desta vez optando pelo outro sentido da palavra. Você já quis mudar radicalmente? Se sim, como resolveu isso? Foi ao shopping? A uma agência de turismo? Ao psiquiatra?

É possível mudar sem carregar consigo uma pilha de tranqueiras? Afinal, dá para se livrar da vida velha e indesejável? Só para começar, pense na família – é um caminhão de mudança que vai te seguir para a vida toda. (E isso não é necessariamente ruim. As raízes nos prendem ao chão, com suas vantagens e desvantagens. Desvantagem: permanecer no mesmo lugar. Vantagem: não cair.)

Mudar também pode ser sinônimo de retornar. Começar a achar que o luxo é uma bosta e ir morar num sítio, daqueles bem precários. Vender o carro e comprar uma bicicleta, ou andar de busão, cheirando cecê alheio. Ficar sábado à noite em casa, assistindo a filme velho na TV (sem glamour, estou falando de K9, Benji, American Pie outros do gênero).

E se o regresso não for algo opcional? Isso torna a questão um tanto assustadora. Há quem diga que vivemos o eterno retorno, isto é, gente tenta, tenta, tenta ir para um lugar novo, mas chega a uma situação bem familiar do tipo “ei, eu já vivi isso – e odiei!”.

A aceitação dessa impotência ou pequenez diante do destino/mundo/curso da vida pode ser uma mudança maravilhosa, daquele tipo que nos alça à felicidade.

Creio que a transformação mais profunda é aquela em que nada externo muda – você acorda no mesmo horário, vai para o mesmo trabalho, veste as mesmas roupas, encontra as mesmas pessoas – e, no entanto, tudo está diferente. Falo essas coisas sem intenção de pregar doutrinação do estilo Tim Maia (o que quase arruinou a música dele), mesmo porque não me sinto na condição de dar exemplo.

Às vezes me ocorre que ter muita coisa para carregar na mala da mudança é o que nos impede de mudar. Daí parece que o certo a fazer é rasgar as vestes e viver entre os lírios do campo. Mas logo bate a dúvida: desfazer-se dos objetos supérfluos levará direto -vapt-vupt- à paz? Acho, e digo isto sem propriedade alguma, que o desapego que leva à real mudança não é apenas material. O buraco é mais embaixo.

Ansiosos pela resposta desse enigma?

Quando eu descobrir, conto para vocês. Mas acho que este site dá boas pistas.

PS: A foto do início é do filme Up, da Pixar. Choradeira total nos quinze primeiros minutos, lindo demais!

Comentários

  1. Gostei muito das palavras, Te amo!

    Ass: Matias

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  2. 7 meses depois...

    Nunca senti necessidade de mudar. A vida é que foi me mudando e eu deixei, levado pela correnteza.

    Acho que a melhor metáfora para tudo o que a gente carrega é a figura de alguém com um monte de coisa entulhada nas costas. Quanto mais coisas, maior o peso. E mais difícil andar e carregar tudo.

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