O mundo paralelo dos cadernos de cultura
A revolução digital ocorrida no último decênio, que popularizou o uso doméstico de computadores com acesso à internet, incrementou exponencialmente a produção e o consumo de informação. O efeito positivo disso é inegável: pessoas de todas as classes informam-se mais ativamente. Na medida em que os veículos tradicionais – rádio, televisão, jornal e revista – perdem o monopólio sobre a notícia, procuram adaptar-se à nova realidade. O caminho mais aconselhável à mídia impressa, segundo muitos especialistas, é desistir de competir com a rapidez da internet e se dedicar ao tratamento analítico dos fatos. Na prática, ao observar a evolução de um jornal como a Gazeta do Povo, deparamo-nos com a revalorização do furo e do trabalho de pesquisa. Não por acaso, em 2010, o diário paranaense ganhou um Prêmio Esso inédito pela série investigativa Diários Secretos.
Enquanto isso, os cadernos de cultura – e aqui inclui-se o Caderno G, do referido jornal – permanecem alheios às mudanças, como aquelas lojas turcas em que se encontram uma ampla e incoerente variedade de produtos, os mesmos há anos, já empoeirados e expostos em desordem. Como resposta à alta no preço do papel e à crise generalizada, grandes jornais cortaram seus suplementos literários. Foi o caso do Washington Post, do Los Angeles Times e do Chicago Tribune. No Brasil, a Folha de S. Paulo extinguiu o caderno Mais!, compilado de artigos e resenhas de literatos e cientistas que circulava há quase vinte anos.
Uma contradição que devemos ressaltar aqui é que muitos veículos diários procuram economizar espaço, cortando cadernos, mas não têm a iniciativa de eliminar os conteúdos supérfluos da editoria de cultura – e não são poucos. Falar de livros, para esses editores, não é essencial, mas resumo de novela, horóscopo, fofocas de celebridades, fotografias da nova estrela da Playboy não podem faltar. A crítica que coloco aqui está claramente impregnada da noção de alta e baixa cultura. No entanto, ela é pertinente se considerarmos o perfil do público leitor dos jornais impressos. Na Folha de S. Paulo, maior jornal do Brasil, temos uma maioria da classe AB, com idade acima de 35 anos, que frequenta restaurantes, cinema e eventos culturais variados (dados da pesquisa Ibope realizada em 2010).
Em contrapartida, uma forte tendência nos grandes jornais impressos representa uma luz nesse cenário: os blogs de jornalistas especializados. A tecnologia não é nova, mas só agora parece ter se disseminado a sua aplicação nas redações. Enquanto o caro papel impresso é ocupado por banalidades, esses espaços virtuais altamente personalizados permitem ao colunista aprofundar-se nos temas que lhe interessam mais de perto. Sem pressão do número de caracteres e sendo menor a supervisão do editor, o resultado são textos mais criativos e prazerosos para aquele que escreve e para os que leem. Na Gazeta do Povo, por exemplo, de 26 blogs, dez tratam de assuntos culturais (gastronomia, cinema, livros etc.). Entre eles, o do jornalista Rogério Galindo aborda exclusivamente livros clássicos, conteúdo difícil de se encontrar numa versão impressa.
O avanço das tecnologias levantou nos últimos anos a pergunta: qual será o futuro do jornalismo impresso? Essa resposta, aos poucos, vai sendo formulada. O jornalismo diário, praticado há cinco séculos, já passou por várias crises e, no entanto, continua atuante. A mutabilidade e a atualidade fazem parte de sua condição. Mais importante, a meu ver, é pensar como adequar os cadernos culturais às transformações emergentes. Enquanto ninguém fizer a pergunta, também não haverá respostas.
PS: Um palpite de alguém que sente bastante falta do caderno Mais!: os cadernos de cultura precisam assumir de vez uma posição formadora. As resenhas de produtos culturais são úteis, sim; eu mesma não vejo um filme ou compro um livro sem consultá-las. Mas, quando o jornal se restringe a elas, a gente fica com a sensação de vazio, fecha o jornal sem ter aprendido nada novo. Que tal se os jornalistas, principalmente os de cultura, assumirem a missão de educar?
Enquanto isso, os cadernos de cultura – e aqui inclui-se o Caderno G, do referido jornal – permanecem alheios às mudanças, como aquelas lojas turcas em que se encontram uma ampla e incoerente variedade de produtos, os mesmos há anos, já empoeirados e expostos em desordem. Como resposta à alta no preço do papel e à crise generalizada, grandes jornais cortaram seus suplementos literários. Foi o caso do Washington Post, do Los Angeles Times e do Chicago Tribune. No Brasil, a Folha de S. Paulo extinguiu o caderno Mais!, compilado de artigos e resenhas de literatos e cientistas que circulava há quase vinte anos.
Uma contradição que devemos ressaltar aqui é que muitos veículos diários procuram economizar espaço, cortando cadernos, mas não têm a iniciativa de eliminar os conteúdos supérfluos da editoria de cultura – e não são poucos. Falar de livros, para esses editores, não é essencial, mas resumo de novela, horóscopo, fofocas de celebridades, fotografias da nova estrela da Playboy não podem faltar. A crítica que coloco aqui está claramente impregnada da noção de alta e baixa cultura. No entanto, ela é pertinente se considerarmos o perfil do público leitor dos jornais impressos. Na Folha de S. Paulo, maior jornal do Brasil, temos uma maioria da classe AB, com idade acima de 35 anos, que frequenta restaurantes, cinema e eventos culturais variados (dados da pesquisa Ibope realizada em 2010).
Em contrapartida, uma forte tendência nos grandes jornais impressos representa uma luz nesse cenário: os blogs de jornalistas especializados. A tecnologia não é nova, mas só agora parece ter se disseminado a sua aplicação nas redações. Enquanto o caro papel impresso é ocupado por banalidades, esses espaços virtuais altamente personalizados permitem ao colunista aprofundar-se nos temas que lhe interessam mais de perto. Sem pressão do número de caracteres e sendo menor a supervisão do editor, o resultado são textos mais criativos e prazerosos para aquele que escreve e para os que leem. Na Gazeta do Povo, por exemplo, de 26 blogs, dez tratam de assuntos culturais (gastronomia, cinema, livros etc.). Entre eles, o do jornalista Rogério Galindo aborda exclusivamente livros clássicos, conteúdo difícil de se encontrar numa versão impressa.
O avanço das tecnologias levantou nos últimos anos a pergunta: qual será o futuro do jornalismo impresso? Essa resposta, aos poucos, vai sendo formulada. O jornalismo diário, praticado há cinco séculos, já passou por várias crises e, no entanto, continua atuante. A mutabilidade e a atualidade fazem parte de sua condição. Mais importante, a meu ver, é pensar como adequar os cadernos culturais às transformações emergentes. Enquanto ninguém fizer a pergunta, também não haverá respostas.
PS: Um palpite de alguém que sente bastante falta do caderno Mais!: os cadernos de cultura precisam assumir de vez uma posição formadora. As resenhas de produtos culturais são úteis, sim; eu mesma não vejo um filme ou compro um livro sem consultá-las. Mas, quando o jornal se restringe a elas, a gente fica com a sensação de vazio, fecha o jornal sem ter aprendido nada novo. Que tal se os jornalistas, principalmente os de cultura, assumirem a missão de educar?
Pouca gente compra jornal, menos gente ainda LÊ jornal.
ResponderExcluirAcho que pra sobreviver, os jornais têm que investir em coisas que a pessoa comum nunca vai fazer, tipo investigação. Porque furo de um acidente de carro ou um prédio queimando, hoje em dia, o transeunte chega antes e faz mais estardalhaço.
Isso, claro, assumindo que o jornal queira ser jornal e não uma mera revista de variedades diária (que nesse caso, só mostra bundas e sangue - e todo lugar tem um jornal desses, afinal, pão e circo é o que o povo clama!).
E eu creio que a maioria dos jornalistas de cultura não sejam críticos, apenas resenhistas. O que faz a diferença.