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O mundo paralelo dos cadernos de cultura

 A revolução digital ocorrida no último decênio, que popularizou o uso doméstico de computadores com acesso à internet, incrementou exponencialmente a produção e o consumo de informação. O efeito positivo disso é inegável: pessoas de todas as classes informam-se mais ativamente. Na medida em que os veículos tradicionais – rádio, televisão, jornal e revista – perdem o monopólio sobre a notícia, procuram adaptar-se à nova realidade. O caminho mais aconselhável à mídia impressa, segundo muitos especialistas, é desistir de competir com a rapidez da internet e se dedicar ao tratamento analítico dos fatos. Na prática, ao observar a evolução de um jornal como a Gazeta do Povo, deparamo-nos com a revalorização do furo e do trabalho de pesquisa. Não por acaso, em 2010, o diário paranaense ganhou um Prêmio Esso inédito pela série investigativa Diários Secretos. Enquanto isso, os cadernos de cultura – e aqui inclui-se o Caderno G, do referido jornal – permanecem alheios às mudanças, como aq...

Meu novo bichinho de estimação

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Hoje ia começar a lavar o banheiro quando encontrei uma velha conhecida minha: uma lartixa-bebê. Ela vinha morando no meu quarto há alguns dias. Convivíamos perfeitamente, até ela inventar de se instalar no banheiro bem no dia em que eu tinha que jogar cloro no piso. O produto é fortíssimo até para nós, imagine para ela! Então fiquei num dilema: o que fazer com a bichinha? Pus num potinho, o da foto acima. Não dá para ver muito bem por causa da máquina, teria que ser uma grande angular. Margarida (o nome que pus nela) é bem pequena, mede cerca de dois centímetros, contando com o rabinho! Tem cor marrom, com machinhas cinzas. É a coisa mais linda que já vi! Particularmente não gosto muito das lagartixas albinas; essas pardas, por sua vez, lembram jacarés minúsculos, o que acho muito fofo! Deitei no chão para ver melhor os detalhes dela, aí descobri a fatalidade do meu novo bichinho: ela tem duas patas decepadas! Tive vontade de chorar ao ver aquilo. Ela não sobreviveria no mundo se...

A primeira semana

(Outro post sobre relacionamentos – depois não digam que não avisei) No caos do universo, às vezes acontece de bilhões de fatores se combinarem aleatoriamente e resultarem em algo bom para você. Sim, para você, que só se fode para todo o sempre. Nessa hora você se joga, repete infinitamente como você é um puta sortudo, faz umas dancinhas toscas no meio da rua, pensa que não mudaria nada no presente. E você está certo em agir assim, afinal, é muito raro que tudo esteja perfeito na sua vida. Quando isso ocorre, tem que estar consciente mesmo. Vamos supor que, quando você se conforma em ser “só o amigo” e curtir uma balada despretensiosamente, conheça alguém, tudo muito casual. Todos sabemos que você é burro, mal pago, mais feio do que bonito e que suas piadas não têm graça, mas essa pessoa gosta de você. Assim gratuitamente mesmo. E você gosta dela de volta. Os dois se gostam simetricamente, não há obstáculos para ficarem juntos, logo, é isso que eles fazem. O primeiro dia tem algu...

Nerd on drugs having lunch at RU

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Teoria da ficção. O nome da disciplina logo me saltou aos olhos, eu tinha que cursá-la – ai de quem se pusesse no meu caminho! Claro que, caloura de tudo, eu acreditava que ficção fosse sinônimo de narrativa ficcional. Quando comecei a ler o Luiz Costa Lima – que forma traumática de se começar a estudar algo completamente novo –, não entendi por que ele gastava tanto tempo distinguindo mímesis e ficção. E pior: as divergências por ele ressaltadas não eram apenas de significado, mas também de trajeto histórico. Para se ter uma noção, as obras de Homero, para seus contemporâneos, não eram consideradas ficção. Ao mesmo tempo, não se confundiam com os relatos históricos de um Heródoto. Claro que quatro séculos separam os dois, mas não saberia agora pensar em um historiador mais próximo do autor de Ilíada (universitários?). Eram uma terceira coisa, mas não vou entrar no mérito da questão aqui. Passado o susto inicial, começo a me sentir um pouco mais à vontade para comentar questões teór...

Uma nota sobre relacionamentos

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(Desculpo-me desde já com os leitores se os últimos posts estão parecendo a coluna da Danuza Leão. Se for para criticar, que me chamem de Carrie Bradshaw, que tem muito mais estilo.) Relacionamento é uma palavra pesada. Talvez porque traga implícito o plural, já que você se relaciona com o(s) outro(s). Talvez porque remeta a ideias como compromisso, responsabilidade, sacrifício. Enfim, só coisa bacana. Relacionar-se é como estar num elevador subindo com dez obesos a bordo, chega a dar calafrios diante da iminente catástrofe. Ainda assim, ninguém quer ficar sozinho – pelo menos, não o tempo inteiro. Mesmo o cara egocêntrico (e sei do que estou falando) precisa do outro para se afirmar. Ao longo da vida construímos laços diversos: familiares, profissionais, de amizade (qual é o adjetivo correspondente a essa locução?) e amorosos. Esses últimos podem estar presentes nos anteriores, mas o destaco como uma categoria à parte para me referir aos casos que envolvem atração física. Vejam...

Ter 30 anos (a classe média no divã)

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Qual foi o aniversário mais feliz da sua vida? Eu acredito que, até os 19 anos, a comemoração seja uma curva ascendente de alegria. Com um ano, tem uma festa superlegal só para você. Aos dois, entende um pouco o que está acontecendo e até brinca. Aos três, ganha um brinquedo de pilha. Aos quatro, um com pecinhas pequenas. Aos cinco, você exibe sua primeira janelinha. Aos seis, consegue ler tudo o que vê pela frente. Aos sete, expõe orgulhoso um gesso cheio de assinaturas. Aos oito, já é grande o suficiente para receber jogos mais elaborados. Aos nove, dá-se ao luxo de dizer “este ano não quero nada, tem gente precisando mais do que eu”. Aos dez, já lê livro sem ilustração. Aos onze, comenta com os adultos a estratégia do seu time de futebol. Aos doze, todos ficam impressionados com os dez centímetros ganhos de repente e dizem que parece moço. Aos treze, compõe seu primeiro soneto. Aos quatorze, paga seus próprios gibis com os trocados das aulas particulares de matemática. Aos quinze...

O maravilhoso e a verdade

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Enquanto não escrevo um texto de punho próprio, deixo aqui um trecho do livro "As viagens de Gulliver", de Jonathan Swift. Neste excerto, ele faz humor sobre advogados. No romance em questão, esses eram profissionais de ética muito duvidosa que habitavam um dos países que Gulliver visita. É fascinante como a literatura maravilhosa, ao distorcer a realidade, está, na verdade, olhando-a através de uma lupa muito potente. Espero que o trecho os divirta tanto quanto me divertiu. Eu disse existir entre nós uma sociedade de homens educados desde a juventude na arte de prova, por meio de palavras multiplicadas para esse fim, que o branco é preto, e que o preto é branco, segundo eram pagos para dizer uma coisa ou outra. Todo o resto do povo é escravo dessa sociedade. Por exemplo, se o meu vizinho tenciona ficar com a minha vaca, contrata um advogado para prova que deve tirar-me a vaca. Nesse caso, tenho de contratar outro advogado para defender os meus direitos, pois é contrário...

Benditos os enrustidos e os atormentados...

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... porque eles nos agraciam com boa ficção! No finalzinho do ano passado, a Companhia das Letras editou os “28 contos de John Cheever”, selecionados por Mario Sergio Conti. O livro teria passado despercebido por mim não fosse a revista piauí ter publicado agora em janeiro trechos do diário do autor. O texto era tão delicioso que eu precisava descobrir se ele era tão bom ficcionista quanto memorialista. Comprei o compêndio de contos no dia seguinte e, apesar das altas expectativas, ele conseguiu me fascinar ainda mais. Nos relatos íntimos, publicados originalmente na década de 1990 pelos filhos, acompanhamos o esfacelamento de um homem que tinha uma vida perfeita. Casamento duradouro, filhos saudáveis e bem encaminhados, uma bela casa no subúrbio, talento reconhecido, nenhum problema financeiro. Isso era o que todos viam. O diário mostra que o bom cidadão convivia quase harmonicamente com o alcoólatra, o adúltero e o pederasta. Da mesma forma que ele vivia em estado de contradiç...

Pelo fim do preconceito com “Somewhere”

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“Um lugar qualquer” (Somewhere) é o novo filme de Sofia Coppola, que estreou ontem no Brasil. Apesar de não ser grande fã da diretora, estava curiosa para ver o que ela havia aprontado desta vez, dado o seu currículo de produções originais e cuidadosas. De apenas uma coisa tinha certeza: não se trataria de um blockbuster – “então o que seria?”, eu me perguntava. Convidei algumas pessoas para me acompanhar, mas ninguém se animou a ir (ainda que o ingresso custasse apenas R$ 3), alegando que seria chato. Não há muito que dizer contra esse comentário. De fato, Sofia traz como constante em seus filmes retratos da solidão, do tédio e da incomunicabilidade entre as pessoas. O seu ritmo é um pouco diferente do hollywoodiano e mais próximo do europeu, com cenas longas, poucos diálogos, quase nenhuma ação. Ela praticamente reduz o movimento (representado no cinema por 24 fotografias por segundo) de volta à imagem estática. Tudo o que eu disse até agora talvez só confirme a corrente do “é c...

Se não me amares, eu te amarei

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Acima, vídeo de Maria Callas cantando “L’amour est un oiseau rebelle (Habanera)”. Esta música é da ópera “Carmen”, composta por Georges Bizet entre 1863 e 1864. O ritmo soa familiar, não? Em parte, porque foi importado de terras americanas, mais especificamente de Cuba; e também porque a história da cigana espanhola já faz parte do imaginário popular. Mesmo se você não frequenta teatros, acaba conhecendo uma ou outra coisa a respeito. Carmen é uma cigana espanhola que tem fama de devoradora de corações. De fato, ela é bastante bonita, independente e forte. Embora dúzias de pretendentes a sigam, ela não se prende a ninguém nem faz sacrifícios pelo amado da vez. Eu acredito que ela até ame, mas de forma descompromissada, isto é, não tenta fazer aquilo durar para sempre. Don José é bom filho e soldado. Está comprometido com a também honesta (e insossa) Micaela, mas tem a “sorte” de ser escolhido por Carmen. Ela lhe atira uma rosa enfeitiçada que o faz amá-la imediatamente. Assim, e...