Nerd on drugs having lunch at RU


Teoria da ficção. O nome da disciplina logo me saltou aos olhos, eu tinha que cursá-la – ai de quem se pusesse no meu caminho! Claro que, caloura de tudo, eu acreditava que ficção fosse sinônimo de narrativa ficcional. Quando comecei a ler o Luiz Costa Lima – que forma traumática de se começar a estudar algo completamente novo –, não entendi por que ele gastava tanto tempo distinguindo mímesis e ficção. E pior: as divergências por ele ressaltadas não eram apenas de significado, mas também de trajeto histórico. Para se ter uma noção, as obras de Homero, para seus contemporâneos, não eram consideradas ficção. Ao mesmo tempo, não se confundiam com os relatos históricos de um Heródoto. Claro que quatro séculos separam os dois, mas não saberia agora pensar em um historiador mais próximo do autor de Ilíada (universitários?). Eram uma terceira coisa, mas não vou entrar no mérito da questão aqui.

Passado o susto inicial, começo a me sentir um pouco mais à vontade para comentar questões teóricas. Quase tão familiarizada (pelo menos com os problemas de pesquisa, não necessariamente com as respostas) que hoje, almoçando no RU, comecei a pirar pensando nisso.

Observei que todas as pessoas que não estavam sozinhas conversavam entre si. Além disso, o teor das conversas (estou pensando em como dizer isso empregando os termos mais adequados) não focava tanto fatos concretos e sim coisas sem correspondência na realidade. Muitas das falas traziam hipóteses, impressões ou completas invenções. E tudo isso carregado de figuras de linguagem (metáforas, comparações, hipérboles). A gente faz poesia no RU e não percebe! Em vez de “hoje não chove”, “como você foi na prova?”, ou “olha aquele cara”, ouvi “você não sabia, mas eu sou um alien”, “se a berinjela tiver acabado, eu me mato”, “sou tão boa em questões discursivas que a professora nunca percebe que eu não sei nada” e “ovulei”.

Há de se considerar o público, predominantemente jovem. O uso da ironia é bem mais frequente entre eles, que têm menos preocupação com a clareza e a eficácia da mensagem – para alguém que estivesse na posição de chefe, por exemplo, seria outra história. Por que será que não somos sempre explícitos e delicados? Dizer “a carne parece boa hoje” é pior do que “espero que a tia Naná não lambuze meu cabelo de molho, porque eu vou me servir de joelhos hoje”? Ou será que sou eu e uma meia dúzia de malucos que preferimos o discurso ao seu conteúdo?

De qualquer forma, fiquei observando aquelas dezenas de pessoas ao meu redor, conversando, imaginando, inventando, floreando. Pouco daquele conteúdo era de fato útil, dificilmente se reverteria em benefício de alguém. Por que gastar energias com futilidades? Não sei. A gente simplesmente não consegue ficar sem ficcionalizar, deve ser algo natural a nós, humanos. E esse produto tão fútil que surge nas conversas, ao mesmo tempo, é essencial para a nossa manutenção, pelo menos da sanidade mental. É algo que eu não entendo, mas admiro. Não é lindo fazer parte disso?

Comentários

  1. Fala o nome do que vc tomou que eu quero curtir esse barato tb.

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  2. Anônimo7/4/11 17:34

    Que bom, um novo post...

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  3. Eu quero fazer aula de Teoria da Ficção! Olha só o nome dessa matéria!

    (eu li o resto do texto e gostei muito, não foram só as primeiras linhas)

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