Sobre a bondade

Quando criança, eu achava que havia pessoas boas e pessoas más, ou melhor, totalmente boas e totalmente más. Eu era boa, claro. Os pais, os familiares e os professores, também. Os meninos bagunceiros eram maus, assim como as patricinhas e os bandidos que apareciam na TV. Era essa a lógica do meu sistema.

A partir da adolescência e até bem pouco tempo atrás, mudei minha classificação de bondade. Acreditava então que todos eram essencialmente bons. Se às vezes agiam com maldade, era porque não haviam aprendido a fazer o correto. Faltava o know-how. Tão logo convivessem com exemplos adequados, perceberiam o erro e se consertariam. Digo isso por mim mesma. Tantas vezes fui grossa e egoísta, até que conheci amigas extremamente gentis como a G. e a A. e tentava imitá-las. Progredi um pouco. Acho, talvez, quem sabe.

A essa regra, criei ainda uma exceção – os dias em que a preguiça tenta e a gente vai pelo caminho mais fácil: xinga, explora, esnoba. Depois sofremos sozinhos, porque somos bons e não toleramos ter praticado o mal impunemente. Mas, orgulhosos, não reparamos o mal feito.

Depois veio a ilusão. Cria que todos eram maus (eu inclusive) e, invejando a bondade que às vezes desponta aqui e ali, massacravam-na. A explicação era simples: as pessoas só se interessam por si próprias. Se se aproximam das outras é para receber favores e elogios, ou seja, eu-eu-eu em primeiro lugar.  Quando a gente adota essa ótica, é muito fácil ver exemplos que a comprovam, mesmo naqueles que amamos. Daí se afunda num pessimismo movediço, tem vontade de se isolar ou dividir a vida apenas com um bichinho de estimação. Muitos fazem isso de fato. Eu pensei na possibilidade, mas não cedi à tentação.

Quando a gente confia no outro, há muitas chances de se dar mal. Pode ter tudo roubado e, no fim, ver-se nua, infeliz, pisada. Por outro lado, é na relação com o outro que se têm as melhores surpresas. Nunca me esquecerei das vezes em que completos estranhos me ajudaram, me apoiaram, me deram exatamente aquilo de que eu precisava sem sequer ter lhes pedido. Seja por ações diretas, seja por bons exemplos que ressuscitaram minha fé na solidariedade.

Alguns dias eu estou séria, me concentrando para segurar o choro, e algum desavisado me arranca uma risada. Sei-lá-como. É possível cultivar bons sentimentos sozinha, mas prefiro os que os outros me inspiram. Não sei explicar por quê. Chuto que seja uma espécie de comunhão com Deus e com o universo. Sensação de que não estou sozinha e que, de alguma forma, tudo está conectado e equilibrado. Um dia ruim não faz de nós infelizes, porque há o fator bondade rodando por aí. Qualquer hora ele pode te acertar, assim gratuitamente. Ou você acertar alguém, o que, a meu ver, é melhor ainda.

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E aí, já to afiada para publicar um livro de autoajuda?

Comentários

  1. Hoje é o dia dos posts 'Sobre o(a)...'

    Se vc juntar esse com o post anterior, já dá um livro de auto-ajuda sentimental. Vai ser um sucesso, já que mulheres adoram esse gênero, hahaha.

    E as pessoas são sim todas egoístas. Se alguma te ajudou, motivo ela teve, mesmo que vc não consiga ver. Afinal, é um tipo de egoísmo ajudar o outro pra se sentir bem. Não que isso seja condenável, mas não deixa de ser egoísmo.

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