Agostiniana: começar do zero o tempo todo


O que passou não existe mais, nem mesmo o minuto antes deste. Tudo morto, delegado a um lugar que não sabemos qual é, talvez até um não-lugar. O passado não é nada. Já foi um dia presente, mas, tendo-se tornado antigo, concretizando-se, acabou, torna-se irrecuperável. O mais próximo que se pode chegar dele é lembrando-se, mas a memória se dá no presente, não consegue resgatar o mesmo tempo que se foi, e mesmo a experiência rememorada não é igual à original, pois selecionamos fatos, resignificamos.

Tudo morto, repito. Por que diabos, então, nos apegamos tanto ao ido?

A resposta que me parece mais óbvia é que tratamos o passado como algo concreto, mesmo não sendo, porque é isso que nos dá substância, coerência quando nos perguntamos quem somos. Em geral respondemos: me nomeram X, nasci há n anos, vivi em tal lugar, estudei uma gama de temas, gastei horas ouvindo essa e aquela banda. Tudo coisas do passado. Mesmo o uso de verbos no presente, como "eu gosto disso", não parecem realmente presente. Você está gostando disso agora, está experimentando essa coisa neste momento?

Viver no presente é desapegar-se da historinha que elaboramos sobre nós mesmos. Dá para fazer isso? Acredito que sim. Se pudéssemos fazê-lo, desapareceriam coisas como rancor e expectativas, estaríamos sempre serenos, abertos às experiências. E quando alguém viesse nos criticar não nos importaríamos, porque saberíamos que o ódio do outro é contra alguém que você não somos mais, não perderíamos tempo curando o orgulho ferido.

Começar do zero, sem bagagem. Já falamos desse tema em algum post passado (Caminhão de mudança). É possível pôr isso em prática o tempo todo? Acredito que sim, o problema é que não queremos.

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A imagem do início é uma pintura de Salvador Dali, para não cair no clichê dos relógios derretidos.

Comentários

  1. "Viver no presente é desapegar-se da historinha que elaboramos sobre nós mesmos. Dá para fazer isso?"

    Não. Você é a soma do que foi. Até dá pra aparar uma aresta ou outra, mas começar do zero, só em outra vida.

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  2. "Balayé les amours
    Avec leurs trémolos
    Balayés pour toujours
    Je repars à zéro..."
    .SP.

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