O bebê santo de Curitiba


Chega de enrolar. Vou fazer logo este post antes que ele esfrie demais.

Acontece que eu tive uma epifania esses dias atrás e não sabia como tratá-la de forma adequada. Tive certeza de que precisaria compartilhá-la, só que havia o medo de cair na leviandade. Bem, o risco continua. O texto ideal ainda não me ocorreu, mas ele precisa ser escrito, então vamos lá.

Tudo começou há duas semanas mais ou menos, quando a Folha de S. Paulo me surpreendeu com um ótimo caderno Mais!. Sabe quando todas as matérias e colunas estão boas? Pois é, eu não poderia desejar mais do que aquilo. No entanto, hoje não comentarei todas as matérias – cada uma renderia um texto à parte –, falarei apenas de uma.

O título era “O chique na berlinda” e vinha logo abaixo da foto de um velho urinando – a ironia decorria de que esse vestia uma camisa estampada com a bandeira norte-americana. O texto era uma entrevista com o filósofo Peter Singer, autor do livro “The life you can save”. Transcrevo abaixo uma das perguntas e sua respectiva resposta:

Folha – Segundo a Unicef, 27 mil crianças morrerão hoje. O que devemos fazer a respeito e não fazemos?
Peter Singer –
Essa mortes são evitáveis. Elas são decorrências de situações que podem ser mudadas – ausência de água limpa, falta de postos médicos locais, ausência de redes contra a malária e assim por diante. Acima de tudo, acontecem por conta da extrema pobreza, e isso também pode ser mudado.
Nós deveríamos usar uma parte de nossa riqueza para ajudar a tirar as pessoas da armadilha da extrema pobreza.
É errado gastarmos tanto com coisas supérfluas, enquanto outros não têm o suficiente para comer ou não têm condições de mandar suas crianças para a escola

Após ler toda a entrevista, pensei que era só mais uma celebridade – nesse caso, não do mundo pop, mas do intelectual – sendo hipócrita pedindo fundos para uma campanha da qual ele mesmo talvez não participasse. Tá, ele diz que participa, mas isso não muda nada. Odeio gente que vem pedir o meu dinheiro para o que quer que seja. Criança Esperança, por exemplo, me dá nos nervos. Acontece uma baita propaganda com atores globais, mas duvido que a maioria deles já tenha feito trabalho voluntário ou mesmo olhado bem nos olhos de alguém que precisasse de ajuda.

Resumindo: tanta hipocrisia me dá nojo, por isso, mantenho-me afastada enquanto posso.

Façamos, então, um salto temporal para dois ou três dias depois disso. Eu havia tido alguma aula pela manhã, depois almoçara sozinha no RU – a comida até que não estava ruim: peixe à milanesa e pudim de bolacha de sobremesa – e ia andando para casa. Aquela caminhada incomodava um pouco, eu estava muito cheia, o tempo começava a esquentar (e eu bem agasalhada já suando) e havia uma subida bem íngreme pela frente.

Foi então que eu o vi. Tantas vezes fechei meus olhos para esquecê-lo, mas sua imagem retorna claramente, mais nítida do que qualquer outra coisa, e não me abandona. No fundo, me sentiria culpada se o esquecesse, significaria que perdi meu restinho de humanidade.

Sentada à porta de uma loja, uma mulher ainda jovem aninhava no colo uma criança que, segundo presumi, tinha entre um e dois anos. Um bebê, praticamente. De longe pensei “Que gracinha, tão pequeno e está de capuz feito um rapazinho”. Conforme meus passos me aproximavam dele, eu não conseguia deixar de olhar para o seu rosto, mesmo sabendo que aquilo não era certo e que o meu suco gástrico já estava lá pela altura da garganta (isso não é uma figura de linguagem, infelizmente).

Como descrevê-lo? Talvez fosse loiro, não sei. Tudo o que vi foram as enormes chagas em seu rosto, o qual até achei que estivesse derretendo de tão disforme que as feridas (ou queimaduras ou sei lá o que) o deixavam. Como deve ser acariciar aquele rostinho? Será que a própria mãe tem coragem? Ou será que sequer ela pode demonstrar seu amor (e sangue frio)? O horror não se limitava à pele. Os olhos também tinham algo de medonho. A íris era muito escura, e a parte que deveria ser branca era vermelha. O mais tocante era que, apesar das chagas e dos olhos de sangue, tratava-se de um bebê de traços e proporções bonitas.

Já vi muito bebê feio (alguns até deformados) e sequer tive dó. Esse foi o primeiro que mexeu realmente comigo. E vi que não era uma impressão exclusiva minha. A moça que andava à minha frente também não parava de olhar para trás e tinha a cara de quem vomitaria a qualquer momento. O efeito náusea é outro diferencial dessa experiência, porque você tem dó e nojo ao mesmo tempo. Mas você NÃO PODE ter nojo, afinal, é um bebê que está doente e que precisa ser amparado – não desprezado. Ao mesmo tempo, é a reação mais imediata, visceral, egoísta. Você não consegue ser politicamente correto nessas horas.

Isso não é tudo. Tenho uma confissão a lhes fazer. Um mês antes, eu havia topado com essa mãe desolada e seu rebento no mesmo local – estavam num ponto de ônibus próximo a um hospital. A sensação foi a mesma que tive da segunda vez – náusea –, só que naquele dia logo consegui esquecê-lo e segui com minhas preocupações egoístas diárias. (Agora lembro que naquele dia também havia peixe no RU, coincidência.)

Na segunda vez não tive a mesma “sorte”. Até hoje acontece de eu cair em divagações que envolvem aquela imagem. Ontem mesmo, estava lendo “A comunicação científica”. É um livro interessante, eu estava compenetrada, mas não sei em que ponto já não enxergava as palavras, só aquele bebê. E me sentia infeliz. Como alguém pode ser feliz nesse mundo enquanto há gente naquela situação? Que diferença fará para mim mesma ser bonita, rica ou bem-sucedida se o bebê ainda terá aquele rosto? Que diferença fará se eu fizer uma boa ação para um amigo, se aquele bebê ainda estará lá?

A solução não seria que ele desaparecesse ou que eu o esquecesse. A solução seria que todos o vissem e sentissem esse amargor que sinto agora. Uma sensação de que nada está certo. Se há por aí bebês como aquele, nada pode estar bem. Não sei explicar direito. Não acredito que sair em missão pelos desamparados do mundo responderia aos meus questionamentos, porque o bebê seria o mesmo, com seu rosto coberto de chagas. Tantos sentimentos ambíguos e nenhuma resolução concreta... por isso hesitei tanto em escrever.

A única coisa que me parece clara é que o bebê deveria se tornar um monumento à degradação humana. Sim, ser exposto em praça pública. Que todos o vejam e parem de achar que há felicidade e, pior, que esta pode ser comprada junto com um modo de vida higiênico. (Isso lembra alguma letra de Cazuza, que, por sinal, nasceu e cresceu no seio da burguesia, a rejeitou, mas, consolada por ela, morreu sereno.) Quem visse o bebê não perderia mais tardes no shopping center, nem roubaria dinheiro público, nem reclamaria do que quer que fosse. E trabalharia mais. Não para comprar um carro, se casar e viajar para o exterior. Mas trabalharia dia e noite para tentar esquecer essa infelicidade constante que é saber que não existe perfeição. Existe é a desgraça e a ação imatura consequente da ignorância.

Agora Peter Singer faz mais sentido para mim, embora ainda o ache um tanto ingênuo, já que ele nunca viu o bebê. Apesar de eu ter cedido um pouco ao ponto de vista do intelectual, ainda não darei o meu dinheiro a causa alguma – porque não o tenho –, mas assumo minha culpa por cada inocente que sofre antes mesmo de conhecer a ventura de estar vivo. Vai ver de fato nem há esse prazer no mundo real. Só na literatura mesmo.

A Fada do Siso
(Fingindo que não vê quando te flagra chorando e, na surdina, sempre deixando uma caixa de lenços por perto.)

O título do post remete a um filme que eu vi na aula de História do Cinema chamado “O Bebê Santo de Macolm”, de Peter Greenaway. Mexe bastante com as emoções. Recomendável para quem não quer continuar se refugiando no ideal de felicidade e perfeição. É um pouco difícil de encontrar, mas fica a dica para quem tiver a chance.

Comentários

  1. Olha, eu acredito que a vida é uma grande merd@, pra todo mundo. Tem gente que se acostuma, tem gente que não liga, tem gente que sofre...

    Enfim, todas aquelas belas histórias que vc ouve quando criança, ou as que ouve adulto, em filmes, peças, livros, etc., são apenas ilusões que servem a um propósito: deixar a vida suportável.

    Uma ilusão agradável. Mas apenas uma ilusão. Que não se limita a uma história de amor, a um drama familiar mundano, mas que se extende por todo o seu dia, todos os dias.

    E de vez em quando, vc pisca e dá uma olhada na realidade, como o que aconteceu contigo. E se surpreende, claro.

    Agora vc tem duas opções: ou volta à ilusão ou continua com os olhos abertos. Se optar pela segunda, se prepare pra ter uma vida miserável.

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  2. Peter Greenaway é o comando!

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