Ela está de volta, a famigerada resenha de filme

Há dois anos, comecei a estudar italiano para conhecer a cultura dos meus antepassados. Uma pessoa não é uma ilha, certo? Ela é a soma de vários acontecimentos, e acredito que a origem influencia também de alguma forma. Além do autoconhecimento, eu cria que esse interesse me traria outros bônus, como a possibilidade de conhecer novos autores e músicos. O francês, por exemplo, me surpreendeu muito positivamente com Albert Camus, Jacques Prévert e Edith Piaf, mas o mesmo não ocorreu com o italiano. Eu já conhecia Umberto Ecco e Luigi Pirandelli – da música nem falo nada, detesto o estilo romântico –, só que nem um nem outro estão na lista dos meus favoritos. São bons e só. Agora, o cinema italiano foi uma verdadeira compensação.

Conheci nos últimos meses Sergio Leone (“The good, the bad and the ugly”), Fellini (“La dolce vita”, “8 ½”), Bertolucci (“O último tango em Paris”) e, mais recentemente, De Sica. Ainda não vi o mais famoso dele, “Ladrões de bicicleta”, comecei por “Milagre em Milão”, que foi gravado na mesma época, isto é, em sua melhor fase.

Uma característica muito própria do cinema italiano: ele apresenta drama e comédia tão próximos que não é nem um nem outro, é uma terceira coisa diferente de todo o resto. Em “A vida é bela”, um dos filmes italianos que tiveram mais sucesso nos últimos anos, é possível ter uma noção de como isso acontece. A propósito, não li nada a respeito, mas me parece muito forte a referência desse filme a “Milagre em Milão”, porque os dois protagonistas têm uma filosofia de vida igual. O personagem principal deste último, Toto, também tem uma vida difícil e simplesmente ignora esse fato, tentando transformar a miséria em dádiva.

Uma brevíssima sinopse: Toto é um jovem que passou a infância em um orfanato. Sem emprego,ele vai morar em um terreno onde há vários barracos – parece uma pequena cidade de mendigos. Sempre otimista, ele torna-se amigo de todos e os ajuda com o que pode. (Pensei em descrevê-lo como ingênuo, mas agora vejo que esse não é o caso. Toto só é irremediavelmente altruísta.) Um dia, eles descobrem petróleo no lugar. Então, um milionário compra a propriedade e tenta expulsar os pobres de lá, só que esses contam com uma ajuda dos céus.

O filme foi lançado em 1951, quando a Guerra Fria estava em franca expansão, por isso, a disputa de classes aparece bastante clara: os mendigos contra o grande burguês (um gordão com cartola e casaco de pele – adoro um clichê!). Há diversas cenas memoráveis. Na primeira vez em que Mobbi (esse é o nome do burguês) visita a favela, ele quase borra nas calças quando se vê cercado por dezenas de esfomeados. Ele diz que todos têm cinco dedos e, portanto, são iguais, não há motivos para um odiar o outro. Alguns podem ter nariz pequeno, outros grande, mas “un naso è un naso”. Todos ficam convencidos, e ele sai de fininho. Mas não pensem que o povo é burro. O castigo do rico, pior do que a morte, é a humilhação, que não pode ser amenizada pelo dinheiro. Assistam e verão, é uma cena que arranca alguns risos.

Na verdade, a minha parte favorita é logo no começo. Tudo está coberto de neve, os mendigos precisam bater os pés para se esquentar. Então, aparece um pequeno feixe de sol. Todos correm para lá. É um prazer simples, gratuito e compartilhado. Quer coisa mais linda? Mas aí o sol desaparece – decepção - e reaparece em outro ponto. Um homem tenta chegar primeiro, para desfrutar sozinho do calor e a multidão grita atrás “olhe, que egoísta!”. É muito engraçado e ao mesmo tempo emocionante. É bem esse tom italiano que eu tentei definir acima.

Ah, e um motivo a mais para os nerds quererem assistir: o final de “ET”, de Spielberg, é baseado nesse filme. Como eu disse em um post passado, mesmo os blockbusters estão calcados nessas produções clássicas, pelo simples fato de que elas têm qualidade e não morrerão nunca. Mesmo que você se irrite com o preto e branco e não tenha paciência para filmes sem ação, não há como fugir.

Demorei muito tempo para procurar Fellini e De Sica, porque sempre me diziam que eram chatos e que não dava para entender nada. Grande idiotice, e pior fui eu de acreditar sem experimentar por mim mesma. O cinema hoje é muito mais conservador, ou melhor, careta do que há 50 anos. Isso nos deixou mal acostumados, sabe. Não conseguimos aceitar o surrealismo, sequer gostar de personagens que não sejam supergatos! São os filmes que são chatos ou nós que não suportamos ver coisas diferentes do que estamos acostumados?

Fica, então, o convite para ver “Miracolo a Milano”. Baixei o torrent aqui. O bom é que tem legenda em português. E, para finalizar, o trecho que eu descrevi como o meu favorito.

Comentários

  1. OK, vamos tentar baixar o torrent antes que o piratebay morra de vez.

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