Walkers on the storm
Lembro certa vez quando eu e mais alguém – não lembro quem era, talvez minha mãe – andávamos sem rumo por Curitiba. Isso foi numa época em que a gente podia passar o dia perambulando pelo centro e depois, cansadas apenas fisicamente, parar em uma padaria e pedir um latte machiatto e uma torta alemã. Sem culpa, já que não tínhamos compromisso e nem estávamos acima do peso. Depois de alguns minutos em silêncio, essa pessoa me perguntou:
— Não entendo uma coisa. Por que ponto de táxi tem lugar para sentar e ponto de ônibus não? Isso não está certo, afinal, quem pega táxi nunca precisa esperar muito, já o ônibus...
Estava claro que minha companheira queria apenas quebrar o silêncio incômodo. Seca como de costume, respondi o que me parecia óbvio:
— Oras, porque táxi é para gente rica, que pode pagar pelo conforto de sentar à sombra enquanto espera.
— É verdade.
Pronto, missão cumprida. O silêncio já não existia, podíamos ir adiante com outros assuntos mais oportunos.
Hoje de manhã, indo para a aula, observei a seguinte cena. Dois garis sentados no ponto de táxi conversavam animados. Chovia muito forte. O ponto de táxi era o abrigo deles, já que era impossível trabalhar naquelas condições, e eles também não tinham a escolha de ficar em casa. O que mais me chamou a atenção era que os dois estavam realmente felizes, como se não desejassem estar em outro lugar senão naquele. Pensei: engraçado com a chuva não distingue classe, o abrigo que em dias de sol é exclusivo dos ricos, hoje faz a felicidade desses trabalhadores.
Era uma cena peculiar. Segui meu caminho pensando nela por uns momentos, mas logo deixei de lado. Mais adiante no meu percurso, vi outro ponto de táxi com um gari sentado. E depois mais outro. Lembrei na hora da conversa acima. Me censurei: como fui injusta naquela época. Oras, os bancos de táxi não servem aos ricos, mas aos garis em dias de chuva! Quando eu encontrar quem determinou que houvesse assentos nas paradas de táxi, preciso cumprimentá-lo pela humanidade!
**
Ele sabe o dia e a hora quando eu passo. Fica lá à espera. Logo me vê, abre o sorriso não tão cheio de dentes e declara o seu amor. Implora minha atenção. Se eu não olhar, ele morre de tristeza; morre, ouviu? Má, eu nunca olho.
Hoje eu não passei por lá. Senti dó de meu admirador e resolvi finalmente lhe dar uma chance. Voltei ao nosso local secreto, ele ainda esperava. Parei diante dele e lhe encarei nos olhos.
Ele percebeu que não tinha nada para me dizer.
**
Finalmente percebi o empenho dos comerciantes em ser ecologicamente corretos. Já ouviu falar em sacola oxi-biodegradável? É aquela que se decompõe em apenas 18 meses. Pois essa tá ultrapassada. Inventaram uma mais eficiente. Comprei dois quilos bananas na feira, e me deram essa nova, sem aviso prévio. (O consumidor é sempre a cobaia.)
Pasmem com a tecnologia que eu tinha em mãos! A decomposição acontece na velocidade da luz. Antes mesmo que eu chegasse em casa – a dez minutos dali – a sacola havia virado pó.
**
Caros leitores,
Vou me enterrar por algumas semanas. Volto à vida após 28 de novembro.
— Não entendo uma coisa. Por que ponto de táxi tem lugar para sentar e ponto de ônibus não? Isso não está certo, afinal, quem pega táxi nunca precisa esperar muito, já o ônibus...
Estava claro que minha companheira queria apenas quebrar o silêncio incômodo. Seca como de costume, respondi o que me parecia óbvio:
— Oras, porque táxi é para gente rica, que pode pagar pelo conforto de sentar à sombra enquanto espera.
— É verdade.
Pronto, missão cumprida. O silêncio já não existia, podíamos ir adiante com outros assuntos mais oportunos.
Hoje de manhã, indo para a aula, observei a seguinte cena. Dois garis sentados no ponto de táxi conversavam animados. Chovia muito forte. O ponto de táxi era o abrigo deles, já que era impossível trabalhar naquelas condições, e eles também não tinham a escolha de ficar em casa. O que mais me chamou a atenção era que os dois estavam realmente felizes, como se não desejassem estar em outro lugar senão naquele. Pensei: engraçado com a chuva não distingue classe, o abrigo que em dias de sol é exclusivo dos ricos, hoje faz a felicidade desses trabalhadores.
Era uma cena peculiar. Segui meu caminho pensando nela por uns momentos, mas logo deixei de lado. Mais adiante no meu percurso, vi outro ponto de táxi com um gari sentado. E depois mais outro. Lembrei na hora da conversa acima. Me censurei: como fui injusta naquela época. Oras, os bancos de táxi não servem aos ricos, mas aos garis em dias de chuva! Quando eu encontrar quem determinou que houvesse assentos nas paradas de táxi, preciso cumprimentá-lo pela humanidade!
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Ele sabe o dia e a hora quando eu passo. Fica lá à espera. Logo me vê, abre o sorriso não tão cheio de dentes e declara o seu amor. Implora minha atenção. Se eu não olhar, ele morre de tristeza; morre, ouviu? Má, eu nunca olho.
Hoje eu não passei por lá. Senti dó de meu admirador e resolvi finalmente lhe dar uma chance. Voltei ao nosso local secreto, ele ainda esperava. Parei diante dele e lhe encarei nos olhos.
Ele percebeu que não tinha nada para me dizer.
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Finalmente percebi o empenho dos comerciantes em ser ecologicamente corretos. Já ouviu falar em sacola oxi-biodegradável? É aquela que se decompõe em apenas 18 meses. Pois essa tá ultrapassada. Inventaram uma mais eficiente. Comprei dois quilos bananas na feira, e me deram essa nova, sem aviso prévio. (O consumidor é sempre a cobaia.)
Pasmem com a tecnologia que eu tinha em mãos! A decomposição acontece na velocidade da luz. Antes mesmo que eu chegasse em casa – a dez minutos dali – a sacola havia virado pó.
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Caros leitores,
Vou me enterrar por algumas semanas. Volto à vida após 28 de novembro.
É Su, por aqui também está chovendo bastante.
ResponderExcluirQuando a gente passa muito tempo só admirando, quando é pra falar, as palavras não saem.
ResponderExcluirHeh, se o meu admirado parasse na minha frente e olhasse pra mim, nem sei o que faria! hahahaha
ResponderExcluirCara! Quero ver essa sacola! Sério que ela se decompôs antes de vc chegar em casa?!
Beijo!
Por que tanto tempo?
ResponderExcluirIvan
1. Encontrei sua mãe aqui em Mgá! Ficamos um tempão falando de você... mwahahaha!
ResponderExcluir2. O meu admirador age que nem o seu. Ou às vezes eu ajo como ele o.õ
É um amor platônico quase correspondido ;P
3. A sacola desintegrou meeesmo?
4. Você fica muito bem diante das câmeras!!!! Gwa! Morro de orgulho qd vejo, ha ha. Mas... ninguém fala nda do"erre puxado"? apesar de q vc não tem taaanto sotaque.
bjão da Ana
Obrigada por todos seus ótimos comentários que sempre tem algo a acrescentar e mostram que você se importa.
ResponderExcluirTentarei, dentro do meu possível, deixar comentários assim pra você.
Patrícia