Anna Karenina e a claustrofobia
Toda sala de cinema é um pouco claustrofóbica. Ar parado, poltronas e piso infestados de ácaro, escuridão densa, estranhos sentados perto demais (e às vezes cutucando suas costas), barulho de mastigação, sussurros, o chato que faz shhhhh para impor ordem até no momento de lazer... Mas aí o filme começa, e uma janela de luz se abre bem à sua frente. Você se esquece do ambiente sufocante, desprende-se do seu ego mesquinho e viaja livremente.
Bom, se você estiver assistindo a “Anna Karenina”, de Joe Wright, não é bem isso que acontece.
Primeira cena, um palco de teatro. A cortina se abre e se inicia um giro frenético através de múltiplos cenários. Muitas portas, cortinas, cordas, escadas. Dezenas de personagens povoam esses ambientes móveis, preocupados com os próprios assuntos pessoais, indiferentes à coreografia que rege a todos, um compasso tão falso! Já viram algum filme do Peter Greenaway (sugiro “O bebê santo de Macon” para quem tiver estômago)? O jogo é bem parecido, fiquei com a expectativa de que algo grotesco surgiria de repente. Nada. Embora o filme seja sobre adultério, o sexo é muito velado, ocorre quase sempre atrás de portas fechadas - e quando revelado é muito sutil e poético. As roupas e os cabelos dos personagens estão sempre impecáveis, tecidos branquíssimos, a sujeira muito bem mascarada.
A montagem do filme faz questão de lembrar o tempo todo: isso é tudo encenação – a história que estamos contando, a sociedade que representamos, a vida em geral. Você pode tentar fugir, se trancar num espaço privado e familiar, mas será em vão, pois o teatro continua em todo lugar.
Nesse espaço tão sufocante e restrito, como se tudo fosse interligado e constantemente vigiado, as mulheres são as mais afetadas. Elas podem agir de modo exemplar, podem ser boas só na fachada, podem chutar qualquer convenção. Não importa, todas elas estão condenadas. Seja a viver uma vida fria, ignorando os próprios sentimentos para se submeter ao marido como se fosse mera propriedade dele; seja a lidar com o peso na consciência por mentir o tempo todo; seja a ser tratada como uma puta, sem amigos, sem direito de conviver com as pessoas “de bem”, isto é, com aqueles que seguem as normas por mais que as detestem.
O amor liberta. Nas cenas em que ele aflora – e não me refiro apenas ao amor entre um casal, mas também ao materno, ao fraterno, ao companheirismo em geral –, o espaço descomprime, permite enfim respirar. Mas o filme só defende isso até certo ponto. O limite são as convenções. Um amor que fuja a elas será tão perseguido pela sociedade que vai sufocar até perecer, como o caso da personagem principal. O casal secundário, Kitty e Konstantin, ama dentro das regras, por isso vive bem. Mas não só por causa disso: a vida simples, sem todas aquelas cortinas e palcos, parece ser o caminho real para a felicidade. Foi o que Tolstói escolheu para si e o que ele defende em “Anna Karenina”. Faz apologia a uma espécie de comunismo para nobres com problemas existenciais, exceto pela valorização da família e da honra (valores tipicamente aristocráticos).
Agora, para as mulheres que querem tudo – o amor carnal e o respeito da sociedade – não há outro destino senão a tragédia.
Saí do cinema me perguntando: depois de todas as conquistas femininas do século XX, ainda faz sentido readaptar “Anna Karenina”? Uma mulher seria condenada hoje por desejar mais do que uma família? Nós podemos amar, nos divorciar, casar quantas vezes for preciso ou simplesmente não casar, e me parece que ninguém é excluído por isso. Mas daí lembrei uma cena do filme, quando Anna, já vivendo com Vronski, vai ao teatro e um homem a olha de modo lascivo. A atitude dele reflete a seguinte lógica: ela tem um amante, por isso não presta, o que me dá o direito de assediá-la. Tenho a impressão de que mulheres que escolheram a independência infelizmente ainda precisam lidar com esse tipo de abordagem masculina. Por que os homens ainda acham que fazem um favor ao cortejar toda e qualquer mulher solteira? Mesmo que estejamos sozinhas, não estamos desesperadas, podemos nos sentir plenas sem um macho ao lado. O amor é mais multifacetado e rico do que esse tipo de relação que a sociedade nos impõe até hoje - a do relacionamento monogâmico.
Aliás, gostei do retrato quase doce do marido de Anna, reforçado pela escolha de um ator queridinho para interpretá-lo (Jude Law) – demonizá-lo seria óbvio demais. Ao contrário, imagino que a maioria acabe odiando, isso sim, a protagonista por não aceitar todas as chances que o cônjuge lhe oferece de esquecer tudo e retornar ao lar. A bondade de Karenin oculta toda a crueldade da sociedade em que ele está inserido: ou a mulher se submete ou se perde. Ele não é mau, de fato, mas é incapaz de ver a fria lâmina que passa sobre o pescoço de quem sai da linha, lâmina essa que ele mesmo aciona sem saber.
O filme mostra tantos modos de uma mulher ser prisioneira – da esposa fiel à prostituta. Acho que está na hora de pensar um pouco mais como Konstantin: que tal buscar uma vida boa simplesmente porque somos humanos? Tratar as pessoas sem nos basearmos no gênero delas deve ser a última e ainda distante conquista do movimento feminista. Espero viver para testemunhar isso. Daí “Anna Karenina” vai ser só um retrato do que nós fomos no passado. A identificação e a comoção provocadas pela obra de arte podem diminuir (na verdade, duvido, já que a beleza estética vai além disso), mas é um preço justo pelo que teremos conquistado.
Assisti esse filme ontem. Achei a personagem principal detestável. Não por causa de feminismos e afins, mas tenho um problema com personagens idiotas/burros.
ResponderExcluirQuerer amor, liberdade? Tudo bem, eu tb quero um monte de coisas. Mas achar que cada escolha não traz consequência, é de uma burrice tremenda, mesmo pra um "nobre" da Russia imperial. Se vc desafia o status quo, não dá pra esperar só alegria.
E pra ajudar, a Keira Knightley não convence mesmo.