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Branco

Estou naquela fase em que escrever não faz sentido. Daí pensei que seria um ótimo tema para desenvolver aqui, já que nunca registro nada sobre isso por motivo óbvio: não quero escrever, dã. Muitos escritores trataram desse assunto, sobretudo em crônicas. Não é a novidade, portanto, que o torna atraente, é o desafio de insistir na escrita quando ela me parece odiosa. Primeiro porque não sai nada que preste, as frases parecem previsíveis e mal elaboradas. Segundo porque o afastamento da escrita geralmente coincide com um período de muito fôlego para leitura, e acho um desperdício não aproveitar para ler uma média de 200 páginas por dia. Mas cá estou, não lendo e escrevendo frases ruins. Às vezes penso: por que escrever se há milhares de livros excelentes já escritos e que eu sequer terei tempo de lê-los mesmo que me esforce muito? Por que não me dedicar exclusivamente à missão sisífica de ler as grandes obras? Por que gastar tantas horas – sou do tipo que reescreve mais do que escreve ...

A praga dos romances fragmentários

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Estou lendo, bem aos poucos, Graça infinita , de David Foster Wallace, recentemente lançado pela Companhia das Letras com tradução de Caetano Galindo. Explico esse “bem aos poucos”. O livro se compõe de diversos núcleos que, embora estejam todos interligados (conferir diagrama acima), se apresentam de forma bastante fragmentada, tanto no tempo quanto no enredo, ou melhor, nos enredos. Existe um eixo temático comum, que é a caracterização da sociedade contemporânea (a importância do entretenimento, o consumo de drogas, a solidão etc.), permeando os vários núcleos, mas essas são tantas tramas e narradas sob tantas perspectivas que, por vezes, a gente se cansa e pergunta em que momento aquilo tudo vai caminhar para um ponto comum. Por experiência própria com romances contemporâneos fragmentários, o mais provável é que não chegue a um ponto comum. É aquela coisa de a estrutura literária se assemelhar mais ao caos da vida do que aos modelos ficcionais convencionados. Isso, no caso ...

Frase [IX]

Quando toca o interfone, 48 horas após fazer um pedido gordo na Amazon, é como se fosse manhã de Natal e eu tivesse oito anos.

Como fazer o Boca do Inferno passo a passo

Um guia para manter o jornal vivo sem perder a própria vida, por Suelen Trevizan 1. Ter uma equipe editorial estabelecida. É importante que haja um editor-chefe, um diagramador e um comitê editorial de no mínimo cinco pessoas (sem contar o editor-chefe). Nada de tentar angariar colaboradores no meio do processo, medidas desesperadas afetam a qualidade da equipe. O ideal é que sempre no começo do ano, ainda no primeiro mês de aula, haja uma seleção de editores para dar ares novos à equipe (quanto maior o número de membros, mais pluralidade haverá) e compensar as saídas ao logo do ano anterior. Essa equipe deve ser bem instruída e estar comprometida a trabalhar o ano todo. Quanto ao diagramador, de uma edição para outra se deve conversar com ele para saber se ele tem interesse e disponibilidade de continuar no projeto. Sim, beleza é essencial, pelo menos no caso de um jornal, senão ninguém se dá ao trabalho de ler aquele texto superinteligente. 2. Abrir chamada para textos. A chama...

O serial killer de Maringá

Assim que cheguei à minha cidade natal, Maringá, me contaram que havia um serial killer solto nas redondezas. Desde 2010, foram seis vítimas, todas prostitutas. A polícia suspeita de que seja um assassino serial porque, além da coincidência da profissão das moças, os corpos são desovados no mesmo local e em condições semelhantes. ( Mais informações nesta reportagem d’O Diário. ) Achei curioso que, ao contrário de várias notícias que viram assunto de todas as rodas de conversa, tipo o desempenho vergonhoso de Fred na seleção, esta não despertou interesse suficiente para virar tópico de discussão. O fato é conhecido de quase todos, mas parece que não há nada a discutir. Não há? Para os leitores de Roberto Bolaño, mais especificamente de 2666, o caso soa familiar. No quarto capítulo, intitulado “O livro dos crimes”, relatam-se em detalhes os assassinatos de dezenas de mulheres e a investigação frustrada da polícia em descobrir o responsável. É muito irritante para os leitores que não ...

Sobre o vegetarianismo [2]

Após mais uma greve de servidores da UFPR, que resultou no fechamento dos restaurantes universitários por quatro meses, nós, os estudantes, saímos dessa história bem mais pobres e subnutridos. Não é a primeira nem a segunda nem a terceira greve que enfrento, já sei como as coisas funcionam e me preparei desde o início para um longo período de improvisação na hora de comer. E, como a primeira consequência era inevitável, decidi que desta vez eu tentaria evitar ao menos a segunda. Por um tempo foi, sim, macarrão diariamente. É rápido e enche a barriga. Em dias de fartura, a massa vinha acompanhada de carne e vegetais; em ocasiões mais modestas, quando a geladeira só continha eco, a base era alho e óleo e, com sorte, um ovo frito. Em dado momento eu já não aguentava mais esse menu, estava ganhando peso e ainda me sentia carente de nutrientes essenciais (termos que a gente aprende em propagandas da Nestlé ou da Danone). Percebi que a greve poderia durar ainda muitos meses e que eu deveri...

Frase [VIII]

Quem dorme com cachorro não pode reclamar das pulgas.

Abortos: Ainda Otelo

Eles se amavam loucamente. Às vezes, a ausência do outro chegava a doer no peito e era preciso pegar o telefone, não importava a hora, para dizer “vem logo”. Ronaldo achava Joyce a mulher mais incrível do mundo, a ponto de redimir qualquer clichê amoroso. Não entendia a ausência de filas de pretendentes à porta dela e começou a desconfiar que elas se formavam às escondidas. A jovem também tinha seus aborrecimentos: amar homem bonito é uma responsabilidade e tanto, o mundo todo esperando que ela deslizasse e libertasse o Adônis, mas levava como podia, ignorando os olhares de cobiça sobre o namorado. Ele é que não se saiu tão bem, o ciúme o tornou ríspido. Em sua cabeça, tinha certeza de que era traído. Chegou a desabafar isso para o colega de faculdade Igor, que, por seus próprios motivos, reforçava os xingamentos àquela “vadia”. Diante da mudança de comportamento do namorado, Joyce também acabou mordida pela desconfiança e começou a investigar. Igor, Igor, o nome vivia na boca dele... ...

Abortos: O bolo

Na cozinha quente e perfumada pelo bolo no forno, dois namorados aguardavam. Olívia checou a massa, ainda crua, enquanto André discursava sobre coisas que não eram ouvidas. Era a primeira vez em muito tempo que passavam uma tarde a sós. Os 40 minutos previstos para o cozimento se estenderam para uma hora, forno imprestável! O menino não calava a boca e o maldito bolo que não ficava pronto nunca, Olívia pôs o fogo na temperatura máxima. Dez minutos depois, o casal encarava dois carvõezinhos em pratos de porcelana. Ele comeu tudo e ainda pediu mais. Ela se negou a concordar com aquele absurdo, mandou-o embora. Faz um mês que ninguém cozinha nada, mas o cheiro de queimado continua impregnado nos azulejos da cozinha. -- Da série "Abortos", leia também: Primeiro amor Eternidade 72 horas A um passante Festividades Curto e grosso Cegueira Volta Aparição Amor livre Bad reputation Maiores de idade A terceira Dai as mãos

Abortos: Primeiro amor

Para G. Quem disse que amor de criança é leviano? Só muda a proporção. Se em uma semana a meninada pode trocar de número de sapato, imagine o significado de um bimestre! Dá até para completar álbum de figurinhas, ou seja, é uma vida inteira. Desde que começou a gostar de Anabel, Matheus agia da forma mais sensata: sendo um canalha. Na queimada, jogava a bola com força na cabeça da garota, isso quando não a xingava de nomes feios que ele nem sabia o que significavam. As provocações duraram nove semanas, até a véspera das férias, quando o menino encontrou uma carta cor de rosa em sua mochila. Mal terminou de ler, saiu pelo pátio gritando: “Ela me ama! Ela me ama!”. Então vieram as férias, e eles perderam o contato, pois isso foi naqueles tempos em que telefone e computador não eram brinquedos de criança. Reencontram-se só no ano seguinte, início da quinta série, mas não tinham nada para dizer um ao outro. E assim aprenderam que o melhor era gostar em silêncio, para o sentimento não ...