O serial killer de Maringá
Assim que cheguei à minha cidade natal, Maringá, me contaram que havia um serial killer solto nas redondezas. Desde 2010, foram seis vítimas, todas prostitutas. A polícia suspeita de que seja um assassino serial porque, além da coincidência da profissão das moças, os corpos são desovados no mesmo local e em condições semelhantes. (Mais informações nesta reportagem d’O Diário.)
Achei curioso que, ao contrário de várias notícias que viram assunto de todas as rodas de conversa, tipo o desempenho vergonhoso de Fred na seleção, esta não despertou interesse suficiente para virar tópico de discussão. O fato é conhecido de quase todos, mas parece que não há nada a discutir. Não há?
Para os leitores de Roberto Bolaño, mais especificamente de 2666, o caso soa familiar. No quarto capítulo, intitulado “O livro dos crimes”, relatam-se em detalhes os assassinatos de dezenas de mulheres e a investigação frustrada da polícia em descobrir o responsável. É muito irritante para os leitores que não se revele quem cometeu os crimes e por que o fez, porque nós esperamos que a ficção seja completa, que haja começo, meio e fim. Se for para saber só um pedaço da história e continuar no mistério, já nos basta a realidade. No entanto, a grande sensibilidade de Bolaño reside justamente nesse não dizer. Ele conseguiu reproduzir a mesma atmosfera de banalização e aceitação dos crimes que percebo nesse caso de Maringá. Tão horrível quanto os crimes é o fato de que ninguém liga.
Meu deus, há mulheres morrendo aqui do lado da gente! Por que ninguém se choca com isso?
A polícia e a imprensa fazem um pequeno alarde para esquecerem logo em seguida. Quem são os maringaenses que estão de fato preocupados com isso? No máximo as prostitutas, mas para elas ninguém liga, elas não são entrevistadas nos programas da TV, são criaturas invisíveis e silenciosas, sem credenciais.
Crimes assim nunca são resolvidos, porque não há um interesse real em se resolver. E cadê as manifestantes feministas para pedir justiça? E cadê os protestos contra as péssimas condições de trabalho das prostitutas? Por que não se está fazendo algo no sentido de legalizar a comercialização do sexo e de melhorar as condições de vida dessas profissionais? Por que a gente continua julgando essas mulheres como se fossem piores do que as demais?
O que eu descobri como leitora de Bolaño talvez sirva para nos guiar como cidadãos: não há nenhum serial killer, o que há é uma sociedade que tritura indivíduos como se eles fossem nada. Se uma ou muitas pessoas agridem e matam prostitutas (ódio contra as mulheres? Desprezo contra a profissão delas? Sadismo puro?), é apenas um sintoma desta sociedade que ainda trata prostitutas como descartáveis. Há diversos modo de se destruir uma mulher, por exemplo dizendo que ela não vale nada porque teve relação sexual com vários homens, e elas continuam aceitando o sofrimento, se culpabilizando e reproduzindo certos julgamentos sociais como se fossem a verdade inquestionável.
Elas somos nós.
Este post é para lembrar a existência dessas seis mulheres assassinadas de modo tão ultrajante – e tantas outras cuja existência foi apagada sem que nada se dissesse a respeito. Que os responsáveis sejam penalizados e que nós não tenhamos que ouvir coisas como “mas também...”, “ninguém manda ser puta”, “quer ganhar dinheiro fácil, dá nisso” etc. Desculpem os clichês, mas quando a gente se revolta, vem mais emoção do que estilo. Minha má escrita à parte, o tema é importante e merece destaque.
Achei curioso que, ao contrário de várias notícias que viram assunto de todas as rodas de conversa, tipo o desempenho vergonhoso de Fred na seleção, esta não despertou interesse suficiente para virar tópico de discussão. O fato é conhecido de quase todos, mas parece que não há nada a discutir. Não há?
Para os leitores de Roberto Bolaño, mais especificamente de 2666, o caso soa familiar. No quarto capítulo, intitulado “O livro dos crimes”, relatam-se em detalhes os assassinatos de dezenas de mulheres e a investigação frustrada da polícia em descobrir o responsável. É muito irritante para os leitores que não se revele quem cometeu os crimes e por que o fez, porque nós esperamos que a ficção seja completa, que haja começo, meio e fim. Se for para saber só um pedaço da história e continuar no mistério, já nos basta a realidade. No entanto, a grande sensibilidade de Bolaño reside justamente nesse não dizer. Ele conseguiu reproduzir a mesma atmosfera de banalização e aceitação dos crimes que percebo nesse caso de Maringá. Tão horrível quanto os crimes é o fato de que ninguém liga.
Meu deus, há mulheres morrendo aqui do lado da gente! Por que ninguém se choca com isso?
A polícia e a imprensa fazem um pequeno alarde para esquecerem logo em seguida. Quem são os maringaenses que estão de fato preocupados com isso? No máximo as prostitutas, mas para elas ninguém liga, elas não são entrevistadas nos programas da TV, são criaturas invisíveis e silenciosas, sem credenciais.
Crimes assim nunca são resolvidos, porque não há um interesse real em se resolver. E cadê as manifestantes feministas para pedir justiça? E cadê os protestos contra as péssimas condições de trabalho das prostitutas? Por que não se está fazendo algo no sentido de legalizar a comercialização do sexo e de melhorar as condições de vida dessas profissionais? Por que a gente continua julgando essas mulheres como se fossem piores do que as demais?
O que eu descobri como leitora de Bolaño talvez sirva para nos guiar como cidadãos: não há nenhum serial killer, o que há é uma sociedade que tritura indivíduos como se eles fossem nada. Se uma ou muitas pessoas agridem e matam prostitutas (ódio contra as mulheres? Desprezo contra a profissão delas? Sadismo puro?), é apenas um sintoma desta sociedade que ainda trata prostitutas como descartáveis. Há diversos modo de se destruir uma mulher, por exemplo dizendo que ela não vale nada porque teve relação sexual com vários homens, e elas continuam aceitando o sofrimento, se culpabilizando e reproduzindo certos julgamentos sociais como se fossem a verdade inquestionável.
Elas somos nós.
Este post é para lembrar a existência dessas seis mulheres assassinadas de modo tão ultrajante – e tantas outras cuja existência foi apagada sem que nada se dissesse a respeito. Que os responsáveis sejam penalizados e que nós não tenhamos que ouvir coisas como “mas também...”, “ninguém manda ser puta”, “quer ganhar dinheiro fácil, dá nisso” etc. Desculpem os clichês, mas quando a gente se revolta, vem mais emoção do que estilo. Minha má escrita à parte, o tema é importante e merece destaque.
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