A praga dos romances fragmentários
Estou lendo, bem aos poucos, Graça infinita, de David Foster Wallace, recentemente lançado pela Companhia das Letras com tradução de Caetano Galindo. Explico esse “bem aos poucos”. O livro se compõe de diversos núcleos que, embora estejam todos interligados (conferir diagrama acima), se apresentam de forma bastante fragmentada, tanto no tempo quanto no enredo, ou melhor, nos enredos. Existe um eixo temático comum, que é a caracterização da sociedade contemporânea (a importância do entretenimento, o consumo de drogas, a solidão etc.), permeando os vários núcleos, mas essas são tantas tramas e narradas sob tantas perspectivas que, por vezes, a gente se cansa e pergunta em que momento aquilo tudo vai caminhar para um ponto comum.
Por experiência própria com romances contemporâneos fragmentários, o mais provável é que não chegue a um ponto comum. É aquela coisa de a estrutura literária se assemelhar mais ao caos da vida do que aos modelos ficcionais convencionados. Isso, no caso de Graça infinita, gera muitos momentos extraordinários, em que humor, poesia, análises psicológicas e sociais sagazes, tudo isso se combina em cenas que aparecem do nada e nos conquistam imediatamente. Noutros momentos, é bastante cansativo lidar com o desejo frustrado de acompanhar um herói que não está sequer explicitado (meu palpite mais forte é de que seja Hal, mas suas aparições se perdem numa infinidade de outros núcleos, por isso eu não posso ter certeza). Queremos nos colar a alguém, mas a narrativa não nos deixa, ela sempre nos joga para outro ponto e muito dificilmente conseguimos prever que lugar será esse.
Enfim, são impressões gerais de uma leitura que ainda está no início (li apenas 20% do livro). Minha intenção neste momento não é nem fazer uma crítica desse romance, pois obviamente eu não teria condições antes de conclui-lo, mas sim pensar sobre o romance fragmentário no geral.
Há alguns meses comecei a escrever meu próprio romance, o que explica em parte a escassez de postagens deste blog, e ele está se revelando mais fragmentário do que o plano original. Há três núcleos narrativos, mas, para evitar confusão, estabeleci um único narrador, dividi os capítulos segundo um padrão simples, explicitei relações entre os personagens. Apesar disso, receio que meu livro pareça sem pé nem cabeça e que o leitor não suporte mais do que umas poucas páginas até desistir dele.
A pergunta que não quer calar: se eu própria tenho dificuldade em ler certos romances fragmentários, por que estou escrevendo um? Por que não escrevo um romanção estilo século XIX, com personagens cativantes enfrentando problemas incontornáveis e que rapidamente angariam a nossa empatia? Por que fugir do assunto principal, confundir, deixar as pontas soltas? Respondo de modo quase evasivo (para manter o espírito da postagem): porque me pareceu que não havia outro jeito de contar a história.
Meu narrador é um jovem que tenta reconstruir a memória de uma amiga desaparecida; ele pensa bastante nela, mas não só nela. Se eu fizesse todo o livro em torno disso, soaria como uma obsessão, o que não é o caso, daí a necessidade de trazer outros acontecimentos da vida desse narrador, ainda que secundários. Além disso, ele é introspectivo, praticamente um voyeur, de modo que a vida dos outros constitui a maior parte da vida dele. Só ampliando a rede de enredos é que consigo dar a devida proporção a cada acontecimento. Tento me aprofundar um pouco em cada ramo, mas logo volto para o centro. A desvantagem óbvia disso é a impressão de que não estamos indo para lugar algum. O romance se torna um mosaico de partes independentes que se tocam, se completam de modo imperfeito, sem formar um todo homogêneo.
A irregularidade pode incomodar algumas pessoas, talvez até a grande maioria. Por isso, o escritor precisa da confiança do leitor de que tudo está ali por um motivo, de que há um enigma a ser decifrado por trás do aparente caos. Ou será que há escritores tão sádicos que só lançam o caos mascarado de enigma? Prefiro acreditar que não, e a possibilidade de eu estar errada é o que mais me aterroriza como leitora de romances fragmentários. Estou me esforçando para não ser essa escritora sádica, o que exige muito planejamento e milhares de revisões. Por mais que haja alguma diversão em eventualmente se deixar levar pelo non sense, tento não me afastar do centro. Agora, se esse centro é suficientemente interessante, daí já é outra história. Quem me ler dirá.
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