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Frase [VIII]

Quem dorme com cachorro não pode reclamar das pulgas.

Abortos: Ainda Otelo

Eles se amavam loucamente. Às vezes, a ausência do outro chegava a doer no peito e era preciso pegar o telefone, não importava a hora, para dizer “vem logo”. Ronaldo achava Joyce a mulher mais incrível do mundo, a ponto de redimir qualquer clichê amoroso. Não entendia a ausência de filas de pretendentes à porta dela e começou a desconfiar que elas se formavam às escondidas. A jovem também tinha seus aborrecimentos: amar homem bonito é uma responsabilidade e tanto, o mundo todo esperando que ela deslizasse e libertasse o Adônis, mas levava como podia, ignorando os olhares de cobiça sobre o namorado. Ele é que não se saiu tão bem, o ciúme o tornou ríspido. Em sua cabeça, tinha certeza de que era traído. Chegou a desabafar isso para o colega de faculdade Igor, que, por seus próprios motivos, reforçava os xingamentos àquela “vadia”. Diante da mudança de comportamento do namorado, Joyce também acabou mordida pela desconfiança e começou a investigar. Igor, Igor, o nome vivia na boca dele... ...

Abortos: O bolo

Na cozinha quente e perfumada pelo bolo no forno, dois namorados aguardavam. Olívia checou a massa, ainda crua, enquanto André discursava sobre coisas que não eram ouvidas. Era a primeira vez em muito tempo que passavam uma tarde a sós. Os 40 minutos previstos para o cozimento se estenderam para uma hora, forno imprestável! O menino não calava a boca e o maldito bolo que não ficava pronto nunca, Olívia pôs o fogo na temperatura máxima. Dez minutos depois, o casal encarava dois carvõezinhos em pratos de porcelana. Ele comeu tudo e ainda pediu mais. Ela se negou a concordar com aquele absurdo, mandou-o embora. Faz um mês que ninguém cozinha nada, mas o cheiro de queimado continua impregnado nos azulejos da cozinha. -- Da série "Abortos", leia também: Primeiro amor Eternidade 72 horas A um passante Festividades Curto e grosso Cegueira Volta Aparição Amor livre Bad reputation Maiores de idade A terceira Dai as mãos

Abortos: Primeiro amor

Para G. Quem disse que amor de criança é leviano? Só muda a proporção. Se em uma semana a meninada pode trocar de número de sapato, imagine o significado de um bimestre! Dá até para completar álbum de figurinhas, ou seja, é uma vida inteira. Desde que começou a gostar de Anabel, Matheus agia da forma mais sensata: sendo um canalha. Na queimada, jogava a bola com força na cabeça da garota, isso quando não a xingava de nomes feios que ele nem sabia o que significavam. As provocações duraram nove semanas, até a véspera das férias, quando o menino encontrou uma carta cor de rosa em sua mochila. Mal terminou de ler, saiu pelo pátio gritando: “Ela me ama! Ela me ama!”. Então vieram as férias, e eles perderam o contato, pois isso foi naqueles tempos em que telefone e computador não eram brinquedos de criança. Reencontram-se só no ano seguinte, início da quinta série, mas não tinham nada para dizer um ao outro. E assim aprenderam que o melhor era gostar em silêncio, para o sentimento não ...

Abortos: Eternidade

Osvaldo e Luana namoravam há nove anos. Mas não pensem que adiavam o casamento para aproveitar infinitamente a vida de solteiro! Ninguém sequer esperava que os dois subissem no altar tão cedo, afinal, tinham apenas 23 anos. Conheceram-se no jardim de infância e desde sempre formaram uma boa dupla, engraçados e desprendidos, topavam todos os convites. Diziam as boas e as más línguas que eles haviam descoberto o Santo Graal dos relacionamentos. Quando alguém perguntava o segredo, eles contavam que só faziam o que tinham vontade e, de alguma forma, isso funcionava. Numa daquelas tardes sem muito assunto, o casal começou a fazer contas, meio na brincadeira: “já passamos quase metade da nossa vida juntos”, “poderíamos ter tido um filho que, a essa altura, saberia escrever”, “ou oito filhos”, “ano que vem completa uma década de namoro, dez anos, você pode imaginar?”. O fato soou terrível. Poucos dias depois, eles terminaram. A pior parte foi inventar uma justificativa para dar aos amigos i...

"Menino de cor"

Testemunhei nesta semana uma demonstração de racismo inusitada: numa banca de concurso para professor na minha universidade. Assim que eu soube que o processo seletivo era aberto ao público, quis acompanhar as provas didáticas. Infelizmente, das três aulas a que assisti, apenas uma tinha o padrão de qualidade que eu esperava de um docente de Ensino Superior, as outras duas nem medianas chegavam a ser. Numa dessas, o candidato tentava compensar a falta de conteúdo com carisma, contava pequenas anedotas numa linguagem simples, o que resultava num ritmo até que interessante. Mas não é que, de repente, o fulano diz “menino de cor” para se referir a um personagem do conto “Uma vela para Dario”, de Dalton Trevisan? E um agravante: a caracterização colorida (preciso tirar um sarro, para não cair num lamento fastioso) do menino carregava o propósito de apontar a condição inferior desse. “Menino de cor”, repito, não é pouca bobagem. Eu tinha escutado direito? Era possível alguém dizer isso na...

Abortos: 72 horas

Nunca provoque uma mulher que começou a fazer regime recentemente. Os três primeiros dias são os mais críticos, pois o corpo e a alma da neófita em alimentação sub-2000 kcal, enfraquecidos de fome, são facilmente possuídos pela abstinência. A viciada, privada de açúcar e gordura, pode transformar qualquer frustração em motivo para torrar todo o salário na confeitaria mais próxima. E, quando a euforia passar e a dita-cuja contabilizar as calorias ingeridas, aí, meu filho, você vai pagar por cada grãozinho de açúcar dos 19 sonhos que ela devorou – cinco de creme; três de doce de leite; sete de goiabada; quatro de chocolate. Juan não levou a advertência a sério, chegou 42 minutos atrasado ao encontro, tarde demais para a última sessão daquele filme francês que Carol queria tanto ver. Esta, com a boca lambuzada de uma mistura de leite condensado, chantilly, calda de caramelo, granulados coloridos e fiozinhos de algodão doce, anunciou que estava tudo terminado entre eles. Três meses depois,...

Abortos: A um passante

Para R. Certa vez, os olhos do poeta pousaram sobre uma bela mulher na rua. Após poucos segundos de contemplação, ela passou, deixando-o desolado pelo amor que jamais se concretizaria. Paixões assim súbitas acontecem o tempo todo. Vou contar um desses casos e dou minha palavra de que é verídico, portanto, ouçam e aprendam. Henrique voltava do trabalho, quando encontrou seu objeto de adoração não exatamente numa passante, mas num usuário do transporte público, tal qual ele próprio. Trocou olhares com o desconhecido bonitão, mesmo sabendo que o flerte só duraria até um dos dois chegar ao destino final. Passou a primeira parada, a segunda, a terceira, o coração cavalgava, ele deveria descer no ponto seguinte. Quando se aproximou da porta, o outro lhe estendeu a mão num cumprimento silencioso. Assim que desceu do ônibus, Henrique notou o pedacinho de papel colado na palma: Samuel [telefone]. Para retribuir a abordagem ousada, discou o número assim que chegou em casa. Diante de um “alô! ...

Abortos: Festividades

Diogo e Marcelina se conheceram no dia da padroeira da cidade, numa feirinha gastronômica. Na mesa de plástico, dividindo o molho de pimenta, falaram de pierogis, da avozinha já falecida, do amor. A moça morava ali pertinho, pediram a sobremesa para viagem. Nesse dia, nasceu uma tradição: em toda data festiva, eles se refestelavam de pratos típicos e sexo caseiro. Páscoa, Dia do Trabalho, Corpus Christi, São João, Independência do Brasil ou de qualquer outro país que conviesse – oportunidade sempre havia. Nos dias regulares, a vida seguia, tantas coisas mais para pensar, mal se falavam. Esse sistema funcionava, difícil era explicar para os outros. Os amigos de Má quiseram saber onde isso ia dar, achavam que Diogo estava se aproveitando dela. Crítica feita, dúvida plantada. No Réveillon passado, ocasionalmente como sempre, encontraram-se os dois sob o céu explosivo. Ele abriu o sorriso, e ela a boca para xingar. Em vez de beijo, houve tapa à meia noite. Neste ano, eles acompanham o desf...

Abortos: Curto e grosso

O ódio era tamanho que deu em casamento, oportunidade perfeita para se infernizarem dia e noite, sete dias na semana. Passada a instabilidade dos anos iniciais, o rancor seguia por verdes mares, não fosse uma nuvem: Mayra aprendeu com um pastor as maravilhas do perdão. Levíssima, ela se tornou amável até com José Lucas, que achou a mudança da mulher ridícula, chatíssima, irritante. Na primeira briga em que ela se recusou a gritar de volta, ele a esbofeteou até arrancar um dente. Ou foram dois, não lembro ao certo. ** Da série "Abortos", leia também: Cegueira Volta Aparição Amor livre Bad reputation Maiores de idade A terceira Dai as mãos