"Menino de cor"

Testemunhei nesta semana uma demonstração de racismo inusitada: numa banca de concurso para professor na minha universidade. Assim que eu soube que o processo seletivo era aberto ao público, quis acompanhar as provas didáticas. Infelizmente, das três aulas a que assisti, apenas uma tinha o padrão de qualidade que eu esperava de um docente de Ensino Superior, as outras duas nem medianas chegavam a ser. Numa dessas, o candidato tentava compensar a falta de conteúdo com carisma, contava pequenas anedotas numa linguagem simples, o que resultava num ritmo até que interessante. Mas não é que, de repente, o fulano diz “menino de cor” para se referir a um personagem do conto “Uma vela para Dario”, de Dalton Trevisan? E um agravante: a caracterização colorida (preciso tirar um sarro, para não cair num lamento fastioso) do menino carregava o propósito de apontar a condição inferior desse.

“Menino de cor”, repito, não é pouca bobagem. Eu tinha escutado direito? Era possível alguém dizer isso naquele âmbito? Minha cabeça, num primeiro momento, tentou encaixar outros adjetivos com sonoridade semelhante, devia ser um engano meu. Afinal, como alguém pode passar pela via crúcis acadêmica na área humanística (graduação + mestrado + doutorado = no mínimo 10 anos de reflexões sobre a condição humana e as suas formas de expressão) e usar um termo tão racista com a maior naturalidade do mundo?

Minha segunda reação foi olhar ao redor em busca de olhares solidários no horror. Nada. A banca não podia demonstrar qualquer reação, e não havia muito mais gente na plateia além de mim. Não era possível que ninguém mais tivesse se chocado com a expressão. Ou era? Meu deus, em que lugar e tempo estamos? Senti-me dentro de um daqueles filmes americanos em que negros, escravos ou não, são referidos como “colored people”. Naquele momento, percebi que ainda corríamos o risco de ser uma sociedade que aceitasse a exploração de indivíduos devido a sua cor de pele, em que terreiros de candomblé fossem proibidos de funcionar, em que “moças direitas”, vulgo brancas, tivessem medo de se relacionar com gente “de cor”.

Nesse momento de epifania, descobri que o preconceito nunca desapareceu. Ontem mesmo li uma notícia com a seguinte manchete “De cada três mortos no Brasil, dois são negros”, uma demonstração de como a chacina contra negros rola solta, sendo a PM os novos capitães do mato (vide “Vale quanto pesa ou é por quilo”). Conversando com uma amiga estudante de Direito, ela me contou como às leis se aplicam diferentemente de acordo com a classe e a etnia do sujeito. Afinal, quem as escreve e as aplica é, majoritariamente, o homem branco rico, certo?

E eu, em minha ingenuidade, pensava que ao menos numa universidade pública estaríamos seguros, construindo um modelo social mais justo, favorecido por uma atmosfera de esclarecimento. Esses dias, cheguei a supor com alegria que eu teria o privilégio de testemunhar num futuro próximo a completa integração social de mulheres, homo/trans/bissexuais e negros. Acreditei piamente que as próximas gerações seriam julgadas pelos atos somente e que nenhum fator externo fútil (como cor de pele ou sexo) interferiria. Mas parece que nem a luta mais antiga entre os grupos marginalizados, a dos negros, vigente desde os movimentos abolicionistas do século XIX, está próxima da vitória. Aprendi que não há lugar imune a preconceito. E agora, de onde virá então o grande movimento que libertará o humano do medo em relação ao outro humano? Ou ele nunca virá?

Pensando em mais curto prazo, espero sinceramente que aquela pessoa não receba o aval da banca para lecionar na minha universidade. Mesmo se ela tiver um currículo espetacular, não fará a menor falta para nós. Não precisamos pagar salário a um indivíduo para ratificar ideias racistas. Precisamos, isso sim, de docentes dotados de senso crítico e respeito pelo próximo, que sejam capazes de desconstruir discursos (inclusive o próprio) para identificar e evitar expressões que rebaixem o outro. Aos críticos do politicamente correto: estamos cientes de que a linguagem não é e nunca será neutra e que qualquer um de nós diz palavras originárias de contextos preconceituosos, como “denegrir”, “judiar” etc. Isso só aumenta a importância da nossa tarefa, enquanto estudiosos da língua, de questionar e apontar problemas. E, a meu ver, o “menino de cor” é um problemão que não pode passar incólume. Em vez de abafar o caso, discutamos suas causas e seus desdobramentos, num exercício de inteligência e empatia.

Naquele ambiente fechado da seleção acadêmica, sem negros presentes, o “menino de cor” poderia parecer um deslize banal, mas eu tenho que dizer: desculpa, candidato, você falou merda. Desculpa, mas não te quero sobre um tablado disseminando essas bobagens camufladas no meio de temas relevantes. Ou melhor, não vou pedir desculpas, você é que peça. Depois disso, vá e não repita mais tal termo, por mais que ele soasse cômico na boca da sua avozinha não-“de cor”, a não ser para caracterizar um lápis ou para dar uma palestra sobre linguística histórica.

Comentários