Abortos: A um passante
Para R.
Certa vez, os olhos do poeta pousaram sobre uma bela mulher na rua. Após poucos segundos de contemplação, ela passou, deixando-o desolado pelo amor que jamais se concretizaria. Paixões assim súbitas acontecem o tempo todo. Vou contar um desses casos e dou minha palavra de que é verídico, portanto, ouçam e aprendam. Henrique voltava do trabalho, quando encontrou seu objeto de adoração não exatamente numa passante, mas num usuário do transporte público, tal qual ele próprio. Trocou olhares com o desconhecido bonitão, mesmo sabendo que o flerte só duraria até um dos dois chegar ao destino final. Passou a primeira parada, a segunda, a terceira, o coração cavalgava, ele deveria descer no ponto seguinte. Quando se aproximou da porta, o outro lhe estendeu a mão num cumprimento silencioso. Assim que desceu do ônibus, Henrique notou o pedacinho de papel colado na palma: Samuel [telefone]. Para retribuir a abordagem ousada, discou o número assim que chegou em casa. Diante de um “alô! quem é?” esganiçado, desligou no susto, que voz ridícula! Jogou fora o papel e, para amenizar a decepção, contabilizou o episódio como uma anedota que divertiria os amigos no bar. De fato, todos riram.
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Da série "Abortos", leia também:
Festividades
Curto e grosso
Cegueira
Volta
Aparição
Amor livre
Bad reputation
Maiores de idade
A terceira
Dai as mãos
Pobre Samuel, deveria ter passado o whatsup ou endereço de email.
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